Qual Putin vai assumir a presidência da Rússia?

Analistas especulam como será a volta ao cargo do atual premiê, que já foi reformista, durão e conciliador

The New York Times |

Sabemos que Vladimir Putin irá governar a Rússia no futuro próximo . A questão é, qual Putin?

Será que ele vai ser o reformador de 2001, que disse que o mais importante para o líder de um país é "proteger os cidadãos contra a arbitrariedade de gangsteres, bandidos e subornadores"? Ou talvez o homem que ligou para o presidente George W. Bush em 11 de Setembro antes de qualquer outro líder mundial?

Será que ele vai ser o valentão do ano seguinte, que respondeu a pergunta crítica de um repórter francês sobre as vítimas civis na Chechênia com uma ameaça de circuncisão? Ou o falcão de 2007, que na Praça Vermelha comparou a política externa dos Estados Unidos com o Terceiro Reich?

Ou mesmo o conciliador de 2010, que se ajoelhou na floresta de Katyn para lamentar 20 mil oficiais poloneses massacrados pela polícia secreta soviética no início da Segunda Guerra Mundial?

AP
Putin aceita ser candidato à presidência durante discurso em Moscou

Putin, 58 anos, passou por muitas mudanças desde 1999, quando, após uma carreira nas sombras das agências de inteligência soviéticas, foi escolhido para suceder Boris Yeltsin como presidente da Rússia. Suas transformações traçaram o destino da própria Rússia, que aproveitou a expansão do setor petrolífero para se tornar uma desafiante presença no cenário mundial e foi colocada em profunda incerteza pelo colapso dos mercados financeiros em 2008.

O Putin 2.0, como algumas pessoas o chamam agora, não deve divergir drasticamente do caminho definido pelo presidente Dmitri Medvedev, que o sucedeu em 2008 e procurou melhorar o clima empresarial e tranquilizar os investidores estrangeiros. Mas Putin provavelmente terá dificuldade em apoiar reformas que afastem o poder do Kremlin, como o estabelecimento de um sistema judiciário independente, disse Marat Guelman, que era um agente político e aliado de Putin no início de 2000.

"Não é simples porque ele terá que superar o que fez a si mesmo", disse Guelman, que agora é dono de uma galeria de arte em Moscou. "É difícil lutar com você mesmo. É um Putin diferente, mas, no entanto, é o mesmo. Seu tipo de gestão é vertical. Essa é a única maneira segundo a qual ele sabe gerir. Gerenciar algo mais complexo, levando em conta pareceres conflitantes, isso ele nunca aprendeu a fazer".

No início do novo governo, há três anos, Medvedev fez da modernização sua marca política, enquanto Putin optou pela estabilidade. Mas Putin parece estar adaptando a sua mensagem. Na segunda-feira, em sua primeira aparição como candidato presidencial, Putin ordenou que os órgãos federais mudem do papel para documentos eletrônicos – uma ordem curiosa de um homem que, segundo assessores, continua relutante em usar a internet.

Na sexta-feira, um dia antes do anúncio de sua candidatura, Putin disse que os líderes precisam ouvir as críticas de organizações de direitos humanos. O comentário continha uma certa relutância, já que ele observou que os ativistas de direitos humanos "se preocupam com problemas que não afetam a vida cotidiana de uma pessoa", em contraste com direitos como os salários. Mas a declaração foi no mínimo mais suave do que aquela feita em 2007 em que disse que eles "investigam embaixadas estrangeiras como chacais".

Putin parece pronto para colocar seu peso atrás da cooperação com a Europa Ocidental e de empresas americanas, como evidenciado pela assinatura de um acordo permitindo que a Exxon explore petróleo em uma parte russa do Oceano Ártico. E sábado não deixou dúvidas de que Putin apoiou a redefinição do relacionamento com os Estados Unidos, um projeto publicamente vinculado a Medvedev.

Uma questão muito mais importante é se Putin irá tolerar o pluralismo. Foi em sua primeira presidência que ele tomou o controle de estações de televisão que criticavam a sua política e eliminou as eleições diretas para governadores e senadores. Ele vai voltar como presidente de um país diferente – em que a população pode obter notícias na internet, o crescimento do petróleo alimentou a melhora dos padrões de vida e a popularidade do partido do governo, o Rússia Unida, está diminuindo.

No passado, ele reprimiu precisamente quando se sentiu ameaçado, disse Aleksei Mukhin, diretor do Centro de Informação Política, um centro de pesquisas de Moscou.

"Putin é um liberal, só que quando a situação à sua volta se torna perigosa e tensa, ele momentaneamente se transforma em um autoritário", disse Mukhin. “É uma reação de auto-proteção."

Na verdade, a reforma e o autoritarismo estão unidos na visão de Putin – o estilo de governo centralizado e forte conhecido como "poder vertical" era visto como necessário para as reformas, disse Aleksei V. Makarkin, do Centro de Tecnologias Políticas, outro centro de pesquisas de Moscou. O início de Putin, disse ele, poderia muito bem ser comparado com o do primeiro-ministro czarista Pyotr Stolypin, que pressionou por históricas reformas agrárias, mas executou tantos de seus rivais que a forca do carrasco ficou conhecida como "gravata de Stolypin".

O segundo Putin, disse Makarkin, surgiu em 2003 com a prisão do desafiador magnata do petróleo Mikhail B. Khodorkovsky, quando o Estado reforçou o seu papel na economia. Em 2005, Putin começou a criar proteções contra levantes populares como os que abalaram a Ucrânia.

O terceiro surgiu após a crise financeira de 2008, quando ficou claro que a Rússia não tinha escolha a não ser abrir o seu mercado. O quarto, Makarkin previu, procurará preservar o status quo político e ao mesmo tempo irá permitir reformas econômicas.

"Acho que na verdade não são quatro Putins – mas sim a evolução de uma pessoa", disse Makarkin. "É a evolução de uma pessoa que chegou com uma ideia do que era necessário fazer, e então sentiu que aquelas coisas não foram suficientes para proteger seu poder."

Em qualquer caso, uma ou duas décadas no ambiente bizantino da elite do poder russo podem causar seu próprio efeito. Alexander Rahr, que escreveu uma biografia de Putin, lembrou um convite inesperado feito pelo líder no início de sua presidência. Quando estavam em sua segunda vodca, a conversa tinha começado a parecer "completamente normal", disse Rahr.

Mas isso foi há muito tempo. Hoje, disse Rahr, "ele nunca iria se encontrar com pessoas como eu, simplesmente para descobrir o que elas pensam."

"Ele está rodeado por uma espécie bizantina de servos que trabalham assim: elogiam o líder para obter benefícios e privilégios para si mesmos", disse Rahr, do Conselho Alemão de Relações Exteriores. "Você precisa de uma personalidade muito forte para resistir, especialmente em um país como a Rússia. Espero que ele consiga fazer isso de sua própria consciência. "

Por Ellen Barry

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