Putin tem debate acalorado com roqueiro na TV

Durante evento transmitido ao vivo na Rússia, músico quebra protocolo e critica primeiro-ministro

The New York Times |

O evento parecia comum: um encontro em um programa de televisão entre o primeiro-ministro da Rússia, Vladimir Putin, e a elite cultural do país para promover um show beneficente a favor de crianças com câncer.

Mas então um convidado, Yuri Shevchuk, um roqueiro conhecido por sua oposição ao Kremlin, quebrou o protocolo.

"Eu recebi um telefonema anteontem, do vosso assistente, provavelmente - eu não me lembro do nome dele - pedindo que não fizesse perguntas controversas", disse Shevchuk.

© AP
Putin (esq) escuta críticas de Shevchuk (de pé) em evento (29/05)

O que aconteceu em seguida foi um debate acalorado entre Putin e Shevchuk sobre a liberdade de expressão, o direito de protesto, abuso policial e corrupção do governo, entre outras questões.

E tudo isso foi transmitido ao vivo na televisão estatal.

O debate, que aconteceu no sábado, fez com que blogueiros e intelectuais discutissem seu significado: seria isso um sinal de maior abertura política ou apenas conversa vazia? Um debate sem roteiro ou uma armação de relações públicas?

"O número de eleitores que protestam está aumentando e você sabe", disse Shevchuk a Putin. "Você é honesto quando diz que quer verdadeira liberalização e democratização do país, que as manifestações públicas não sejam sufocadas e as pessoas não sintam medo de um policial nas ruas?"

Putin negou que um dos seus assistentes pudesse ter advertido Shevchuk contra perguntas controversas, sugerindo que outra pessoa poderia ter feito telefonema como uma "provocação".

Embora Putin tenha encontrado críticos no passado, raramente ele se viu diante de um confronto tão aberto. Com ou sem roteiro, o evento foi amplamente divulgado pelas autoridades. O vídeo com o debate foi publicado no website de Putin juntamente com transcrições em russo e inglês.

Shevchuk, vocalista da banda DDT, ficou famoso por sua promoção de causas liberais e críticas ao governo de Putin. No evento de sábado, quando acusou a polícia de servir "seus patrões e seus bolsos, não as pessoas", Putin defendeu a polícia mas reconheceu que há problemas.

"É a nossa cultura: quando alguém recebe uma licença e um cacetete nas mãos, começa imediatamente a usar isso para fazer dinheiro", ele disse.

Em resposta a um desafio feito por Shevchuk para que permitisse protestos contra o governo programados para segunda-feira, Putin afirmou que não se opõe a protestos desde que os manifestantes respeitem a lei.

"O direito das pessoas de expressar sua contrariação ao governo deve ser protegido", afirmou Putin. "Mas os participantes em tais manifestações não devem perturbar aqueles que não querem participar e querem apenas chegar em casa para estar com a sua família".

O último argumento pareceu mais importante na segunda-feira, quando agentes da polícia agrediram centenas de manifestantes em diversas cidades que protestavam contra violações dos direitos constitucionais russos que garantem a liberdade de associação. A polícia e os manifestantes afirmam que mais de 100 pessoas foram detidas em Moscou e São Petersburgo.

Por Michael Schwirtz

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