Psicólogos superestimaram efeitos do 11 de Setembro, diz estudo

Documeto revela que especialistas correram para acalmar as vítimas usando métodos que posteriormente provaram ser prejudiciais

The New York Times |

Os resultados mentais do 11 de Setembro ensinaram aos psicólogos muito mais sobre as limitações de seu campo de atuação do que sobre o seu potencial para moldar e prever o comportamento humano, revelou um amplo estudo do caso.

O documento, uma coleção de artigos que deverá ser publicada no próximo mês em uma edição especial da revista American Psychologist, relata uma sucessão de erros efetuados pelos profissionais de psicologia depois dos ataques.

Os especialistas superestimaram o número de pessoas em Nova York que sofreriam desgaste emocional. Eles correram para acalmar as vítimas usando métodos que posteriormente provaram ser prejudiciais para alguns. Além disso, eles chegaram a discutir a possibilidade se assistir a um evento na televisão poder produzir o mesmo tipo de reação traumática de estar presente no evento.

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Mulheres se aterrorizam diante do colapso das Torres Gêmeas no 11 de Setembro
Esses e outros embaraços mudaram a forma como os profissionais de saúde mental respondem a eventos traumáticos, disse Roxane Cohen Silver, psicóloga da Universidade da Califórnia, Irvine, que supervisionou a edição especial juntamente com editores da revista. "Você tem de entender que antes do 11 de Setembro não tínhamos como estimar a resposta a algo parecido com isso que não fossem estimativas” baseadas em terremotos e outros traumas, disse.

O caos reinou na região de Nova York após a queda das torres do World Trade Center, tanto nas ruas quanto nas mentes de muitos profissionais de saúde mental que se sentiram compelidos a ajudar, mas não sabiam como. Inúmeros terapeutas ofereceram seus serviços, ansiosos para aliviar o sofrimento de alguém que parecia chocado. Analistas freudianos se instalaram em estações de bombeiros, espontaneamente e sem remuneração, para ajudar aqueles envolvidos nos resgates. Empresas disponibilizarão programas de assistência a funcionários com tratamento gratuito, alertando para as consequências de deixar as pessoas sofrerem por conta própria.

Algumas dessas pessoas que receberam tratamento, sem dúvida, se beneficiaram, diz o estudo, mas outras ficaram ainda mais irritadas ou chateadas. Pelo menos uma pessoa se referiu à resposta dos terapeutas como "turismo de trauma”.

"Fizemos um estudo de caso em Nova York e não conseguimos determinar se as pessoas foram realmente ajudadas pelos profissionais, mas eles parecem ter se sentido melhor em sua tentativa de fazer alguma coisa", disse Patricia Watson, coautora de um dos artigos da revista e diretora associada dos programas de terrorismo e desastres no Centro Nacional de Estresse Traumático em Crianças. "Faz sentido, sabemos que o altruísmo faz com que as pessoas se sintam melhor”.

Mas os pesquisadores descobriram mais tarde que a abordagem padrão na época, em que o terapeuta convidava uma pessoa aflita a falar sobre a sua experiência e suas emoções, não deu certo em muitos casos. Os pacientes mergulhavam ainda mais fundo na ansiedade e na depressão quando eram forçados a reviver o caos.

Agora, equipes de resposta a crise adotam uma abordagem muito menos intensa chamada de primeiros socorros psicológicos, ensinando habilidades básicas para lidar com a situação e pedindo que as vítimas contem suas experiências apenas se isso for ajudar.

Limitações

Uma das maiores lições do 11 de Setembro, disse Richard McNally, psicólogo de Harvard que não participou do novo estudo, foi que ele "revelou as limitações da profissão”.

Outra, ele disse, foi ele ter mostrado que as pessoas são muito mais resistentes do que os especialistas pensavam. Ninguém contesta que milhares de americanos que perderam entes queridos ou fugiram dos arranha-céus em colapso ainda vivem com profundas feridas emocionais. No entanto, estimativas feitas após o ataque projetaram níveis epidêmicos de estresse pós-traumático, que chegariam talvez a 100 mil pessoas, ou 35% das pessoas expostas ao ataque de uma forma ou de outra.

Estudos posteriores encontraram taxas mais perto de 10% entre os diretamente envolvidos e menor para outros nova-iorquinos. (Entre crianças o número foi um pouco maior.)

"Nós debatíamos a resiliência bem antes do 9/11, mas o que o ataque fez foi chamar muito mais atenção para isso", disse George A. Bonanno, professor de psicologia na Universidade de Columbia.

Também suscitou um debate que pode mudar em breve a definição de estresse pós-traumático. Nas semanas e meses posteriores ao ataque, especialistas e artigos de notícias advertiram que pessoas de todo o país, e talvez do mundo, que não tinham conexão direta com a tragédia também desenvolveriam sintomas diagnosticáveis – apenas por ver as imagens dos ataques na televisão.

Silver, que foi um dos primeiros a questionar superestimativa do trauma, encontrou evidências para tais efeitos em seus próprios estudos. "A aflição se espalhou por outras comunidades, principalmente entre as pessoas que viram as imagens e tinha problemas psicológicos pré-existentes", disse ela. "Os números são baixos, mas acho que os dados são convincentes."

McNally, entre outros, discorda. "A noção de que a televisão possa ter causado estresse pós-traumático parece absurda", disse ele em um email.

Os editores do Manual Diagnóstico e Estatístico, enciclopédia de transtornos mentais compilada pela Associação Americana de Psiquiatria, estão debatendo a possibilidade de alterar os critérios de estresse pós-traumático para excluir tais casos à distância.

Consequências

O novo estudo analisa centenas de outras abordagens políticas e sociais sobre o 11 de Setembro. Os americanos geralmente se tornaram mais preconceituosos em relação aos árabes após o ataque, bem como mais suscetíveis de contribuir para instituições de caridade e apoiar ações governamentais agressivas contra suspeitos de terrorismo.

Mas essas e outras descobertas não são novas – estudos depois de outros ataques em diversos países encontraram resultados semelhantes. Apesar de sua fúria e devastação, o 11/9 deu origem a novas teorias de comportamento, mas não a novas terapias.

Em vez disso, alguns autores disseram, o seu principal efeito sobre as ciências sociais foi alertar contra aplicação de teorias tão prontamente na vida real. Outro autor da nova coleção, Philip E. Tetlock, psicólogo da Universidade da Pensilvânia, nota que as agências de inteligência empregam cientistas para tentar prever o comportamento de líderes estrangeiros e terroristas – e sua trajetória tem sido variada.

"Quanto mais os cientistas se aproximam de aplicar as suas abstrações favoritas a problemas do mundo real, mais difícil será manter o controle das variáveis inevitavelmente numerosas e resistir a um encerramento prematuro sobre as conclusões desejadas", conclui o artigo.

*Por Benedict Carey

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