Proteção do salário mínimo prejudica mais pobres na África do Sul

Em meio a crise e negociação de aumento de 9,3% dos salários, nível de negros sem trabalho chega a ser o triplo do de brancos

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O delegado chegou à fábrica aqui para fechá-la como parte de uma ação nacional contra os fabricantes de roupas que violam as leis do salário mínimo. Mas as mulheres que trabalham na fábrica – as supostas beneficiárias da repressão – subiram nas mesas de corte e tábuas de passar gritando contra ele.

O protesto espontâneo das mulheres é apenas mais um sinal da gravidade da longa crise de desemprego da África do Sul. Com sua própria indústria em declínio, vítima da concorrência dos baixos salários da China, e poucos empregos sendo criados na África do Sul, as mulheres temiam perder seu trabalho mais do que ficar presas em empregos de remuneração baixa.

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Emily Mbongwa trabalha como babá por US$ 14 mensais, depois de ter perdido emprego
Nos 16 anos desde o fim do Apartheid, a África do Sul seguiu as prescrições do Ocidente, abrindo sua economia com base no mercado para o comércio, mantendo a inflação e a dívida pública sob controle. O país foi elogiado por seus esforços e pelo crescimento de sua economia, mas não rápido o suficiente para acabar com a crise da falta de emprego.

Por mais de uma década, sua taxa de desemprego esteve entre as mais altas do mundo, alimentando o crime, a desigualdade e a instabilidade social na nação mais rica do continente. A crise global fez com que o problema se tornasse ainda pior, acabando com mais de um milhão de empregos. Mais de um terço da força de trabalho da África do Sul agora está inativa. E 16 anos após Nelson Mandela levar a maioria negra do país ao poder, mais da metade dos negros de idades entre 15 e 34 anos estão sem trabalho – o triplo do nível dos brancos.

Conforme se intensifica o debate sobre o desemprego, o fracasso do governo em gerar um plano 16 meses depois que o presidente Jacob Zuma tomou posse prometendo trabalho decente a todos tem levado os analistas a questionar a sua liderança, embora ele tenha prometido agir rapidamente.

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Thoko Zwane, 43 anos, trabalhou durante 15 anos em uma fábrica que foi fechada quando chineses a compraram
Especialistas debatem as causas do grave problema econômico do país, com alguns afirmando que salários mais altos negociados por sindicatos politicamente poderosos suprimiram o crescimento do emprego.

Mas a maioria concorda que as raízes da crise são mais profundas, vindas de um passado de Apartheid que levava negros a escolas inferiores, expulsava muitos de suas terras, residências e empresas e forçava milhões a viver em bairros segregados e zonas rurais onde até hoje permanecem cortados dos mecanismos da economia.

No ano passado, enquanto a economia da África do Sul contratava em meio à crise global, os sindicatos negociaram aumentos de salários de média de 9,3%. O Fundo Monetário Internacional divulgou em um relatório na semana passada a hipótese de que as empresas não conseguiram repassar os custos trabalhistas mais elevados durante a recessão do país e os trabalhadores foram demitidos por conta disso, contribuindo para uma perda de vagas de trabalho que está entre as mais altas dos países industrializados do G-20.

Zuma prometeu, em um encontro nacional do partido governante em Durban, que o gabinete iria agir em breve. Mas ainda não se sabe como ele pode agir decisivamente.

*Por Celia W. Dugger

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