Programa de cirurgias plásticas dos EUA ajuda militares desfigurados

Com auxílio da medicina, soldado que sofreu queimaduras graves no Afeganistão consegue recuperar o rosto e a autoconfiança

The New York Times |

O soldado Joey Paulk acordou do coma em um hospital no Texas três semanas depois de quase ter morrido queimado no Afeganistão. Envolto em ataduras da cabeça aos pés, ele se sentiu confortado ao ver a namorada e a mãe. Em seguida, olhou para suas mãos, duas bolas de gaze branca, e percebeu que não tinha dedos.

Então teve início o choque do reconhecimento. Depois veio o que os médicos chamam de "teste do espelho”. Ao caminhar pelo corredor do Centro Médico Brooke, em Santo Antonio, ele passou por um grande espelho que havia ignorado anteriormente. Desta vez, resolveu olhar.

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O militar Joey Paulk, que sofreu queimaduras graves no Afeganistão, observa seu rosto no espelho (03/10/11)

O lábio inferior inchado estava pendurado abaixo de sua gengiva. Sua pálpebra esquerda parecia a de um cachorro e revelava um tecido vermelho e cru. Suas narinas estavam apertadas, o queixo havia praticamente desaparecido e a metade superior de uma orelha já não existia. Enxertos de pele formavam um retalho em seu rosto e um remédio prateado cobria as cicatrizes, fazendo com que ele parecesse uma personagem do filme "O Exterminador do Futuro". "É isso que sou agora", disse a si mesmo.

Toda lesão grave é desfigurante à sua própria maneira, mas há algo de devastador em ter o rosto queimado. Muitas vítimas de queimadura, além de terem de ostentar cicatrizes para o resto da vida, perdem narizes e orelhas, dedos e mãos. A própria forma de seus rostos é por vezes alterada, forjada de novo no calor das chamas.

Mais de 900 integrantes das Forças Armadas americanas foram severamente queimados no Iraque ou no Afeganistão desde 2001, geralmente por bombas de beira de estrada, segundo os militares. Quase todos receberam tratamento médico no Centro Brooke, mas muitos nunca terão seus rostos restaurados.

Paulk, porém, chegou perto. Depois de deixar o Texas e o Exército em 2009, com sua boca e seu olho ainda deformados, ele voltou para sua Califórnia natal e passou a viver como um recluso, se escondendo atrás de blusas com capuz, bonés e óculos escuros quando saía de casa, algo que aconteciam raramente.

Mas ele encontrou um programa no Centro Médico da Universidade da Califórnia (UCLA) chamado Operação Correção, que oferece cirurgia estética para veteranos gravemente queimados sem nenhum custo - e as operações fundamentalmente realinharam sua face, restaurando não apenas a sua aparência, mas também sua autoconfiança.

Ele voltou a se aventurar em bares, praias e jogos recreativos. No último Dia dos Veteranos, no ano passado, Paulk, 26, desfilou diante de milhares de moradores da cidade de Nova York.

"Queimaduras no rosto de um soldado atrapalham muito: é como um uniforme militar que você não pode tirar", disse. "A cirurgia mudou tanto o meu rosto quanto minha visão da vida."

A história de transformação física e emocional de Paulk diz muito sobre como a filantropia privada pode ajudar militares sobrecarregados, bem como o Sistema de Saúde dos Veteranos. Agora em seu quinto ano, a Operação Correção forneceu cirurgia estética gratuita para mais de 50 veteranos gravemente queimados nas guerras. O programa estima um custo de cerca de US$ 500 mil com cada paciente.

Ela também revela as dificuldades de levar os cuidados privados para o mundo militar. Embora o fundador da Operação Correção tenha imaginado o programa como um modelo para a cooperação público-privada no tratamento de soldados feridos, ele continua a ser um dos poucos empreendimentos desse tipo.

O programa teve suas origens no final de 2006, quando Ronald A. Katz, um rico filantropo, viu Lou Dobbs entrevistar um fuzileiro naval gravemente queimado chamado Aaron Mankin.

Encantada com o soldado, mas horrorizada com a extensão de suas feridas, a esposa de Katz, Maddie, o cutucou e disse: "Você tem que fazer algo!"

Os militares já tinham um centro para queimados, o Centro Brooke. Mas a finalidade de seus tratamentos era salvar a vida dos soldados e recuperá-los, sem grande foco na cirurgia reconstrutiva. O Departamento de Assuntos Veteranos não fornecia cirurgia reconstrutiva a menos que ela fosse considerada clinicamente imprescindível para restaurar, preservar ou promover a saúde - critérios que não pareciam incluir fazer alguém ter uma aparência melhor.

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Joey Paulk coloca meias em sua casa em Vista, na Califórnia (04/10/2011)

No ano seguinte, Katz conseguiu o apoio da UCLA e de seu respeitado cirurgião Dr. Timothy Miller, um veterano do Vietnã. Uma das noras de Katz começou a montar grupos de famílias voluntárias para receber os pacientes no aeroporto e acompanhar suas famílias no hospital. Aos poucos, ele trouxe alguns médicos do Centro Brooke para participar das operações.

Paulk permaneceu um caso difícil. Mas as pequenas indignidades de sua lesão fizeram dele um candidato perfeito para o programa. Ele não conseguia abrir a boca o suficiente para comer um hambúrguer. Miller conseguiria corrigir isso? E seus lábios disformes, que tornavam impossível para ele pronunciar seu próprio nome? Miller prometeu que Paulk assobiaria e comeria hambúrgeres novamente.

Com a primeira cirurgia, Miller removeu todo o tecido de cicatriz, elevando o lábio inferior e as pálpebras. Com a segunda e terceira operação, ele alinhou melhor os olhos e lábios de Paulk, substituindo cicatrizes com tecido saudável. Na quarta cirurgia foi realizado um implante de silicone para adicionar definição ao seu queixo.

Em um check-up recente no escritório de Miller, Paulk conseguiu enfim admirar seu novo rosto no espelho.

Por James Dao

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