Procuram-se jihadistas para casamento com viúvas

Fatwa de líderes de homens-bomba iraquianos pode fornecer uma pista sobre a situação atual do grupo - uma pista obscura

The New York Times |

Um trecho de uma notícia sobre um canto sombrio do Iraque dizia que a Al-Qaeda na Mesopotâmia publicou recentemente uma fatwa (decreto religioso islâmico) pedindo que seus militantes casem com as viúvas dos que morreram.

AFP
Bombeiro iraquiano apaga incêndio após explosão de carro-bomba. Quem substituirá os militantes que morreram lançando ataques como este de 20 de junho de 2010?
Isso pode parecer estranho ou insignificante, mas é uma das raras notícias a surgir publicamente sobre o funcionamento interno do ramo iraquiano da Al-Qaeda. Portanto, especialistas em terrorismo e outros têm analisado a questão na esperança de encontrar pistas sobre a força do grupo, que continua a ser uma parte crítica da insurgência iraquiana.

Ainda assim, tentar compreender a diretiva, que foi transmitida apenas por boca a boca até o momento, é como ler uma nuvem. O que se vê é algo subjetivo. Obviamente, os especialistas em terrorismo têm uma visão completamente diferente da dos recém-casados jihadistas, que estão tentando fazer o que acreditam ser seu dever. Mas mesmo entre estranhos, a fatwa tem interpretações diferentes: um sinal de fraqueza ou de inteligência, um ato de racionalidade ou de cinismo absoluto sobre a mistura de afeto e política.

O primeiro ponto de vista é defendido por Malcolm Nance, ex-oficial da inteligência americana no Iraque e autor de “The Terrorists of Iraq: Inside the Strategy and Tactics of the Iraq Insurgency" ("Os Terroristas do Iraque: por Dentro da Estratégia e das Táticas da Insurgência no Iraque", em tradução livre). Para ele, o decreto representa "uma incrível confissão total de fracasso da missão ", dada a importância central dos atentados suicidas na tática da Al-Qaeda na Mesopotâmia.

"Pedir que os atuais ou futuros combatentes se casem com as viúvas significa que eles estão buscando restabelecer laços matrimoniais em um esforço para recuperar o envolvimento das tribos ou que foram completamente afastados do fundamento ideológico de que os lutadores vêm para o Iraque e logo morrem em atentados suicidas", disse Nance.

"É fascinante de qualquer maneira. Se for a primeira opção, então eles devem acreditar que há um vislumbre de esperança de que os laços de sangue com essas mulheres iraquianas vão lhes oferecer uma margem de proteção em um país que quer se livrar deles. Se for a segunda, é algo como pedir que seus militantes se estabeleçam e ganhem uma recompensa terrena tendo uma esposa e filhos e comecem uma nova geração de jihadistas."

Nance disse que a fatwa é "tão absolutamente desesperada" que poderia ter vindo apenas dos mais altos níveis da organização.

Brian Fishman, especialista em contraterrorismo da Fundação New America, um instituto de iniciativas públicas, não é tão otimista. Ele disse que o grupo tem sido enfraquecido nos últimos meses - dezenas de seus participantes e líderes mais importantes foram mortos ou capturados. Mas isso não significa que esteja acabado. A fatwa, segundo ele, pode ser simplesmente uma forma prática de direcionar recursos cada vez menores a milhares de viúvas pobres e órfãos.

"É importante pensar no Estado Islâmico do Iraque em termos das suas responsabilidades organizacionais", disse. Embora tenhamos a tendência de nos concentrar em sua capacidade de causar violência, a contabilidade e outros documentos do grupo sugerem que eles gastam muito de seu tempo e energia fornecendo dinheiro e outras formas de apoio para as famílias dos "mártires". A exortação para que os militantes se casem com as viúvas é provavelmente uma tentativa de cuidar das famílias dos "mártires" num momento em que a organização como um todo tem recursos limitados. "Isso não quer dizer que o grupo está morto ou vai morrer", continuou.

Na Província de Diyala, a leste de Bagdá, a fatwa resultou em cerca de 70 casamentos em pouco mais de três semanas, de acordo com membros da Al-Qaeda na Mesopotâmia, seus parentes e associados. Eles falaram com um repórter iraquiano que conduziu entrevistas para o The New York Times.

Apesar de Diyala ser um dos últimos redutos do grupo, o simples fato de que tantas pessoas se precipitaram para casamentos com estranhos parece refletir o quão longe as Forças Armadas americanas e o governo iraquiano ainda estão de sua meta de eliminar a organização.

Alguns membros dizem que estão tomando sua terceira ou quarta esposa, mas há muitos maridos novos entre os lutadores mais dedicados do grupo - anteriormente solteiros comprometidos apenas com o trabalho de matar os invasores e seus aliados iraquianos. "Era solteiro e me entregava a uma causa nobre", disse Ebe Hafsah Al-Obeidi (um nome de guerra), que se casou com uma viúva. "A coisa mais importante para nós em uma mulher é que ela seja paciente e fiel, que ajude o marido a servir o Islã e reforce sua vontade de lutar contra os ocupantes e os traidores."

Outro militante, Abu Muhammad Al-Zaidi, disse que pode haver até 315 viúvas em Baquba, capital de Diyala. Zaidi (também um nome de guerra), disse que tinha três esposas, incluindo uma viúva da Al-Qaeda, antes da fatwa. Ele planeja se casar com outra em breve, disse. "Não há nada mais honroso do que casar com a viúva de um mártir da Al-Qaeda, que passou a maior parte de sua vida combatendo os incrédulos e a ocupação", disse.

Um Obada, uma viúva recém-casada que usou um apelido para ser entrevistada, disse que seu primeiro marido foi morto em 2006 durante um ataque a uma patrulha militar iraquiana-americana. Ela disse que passou por dificuldades financeiras desde então e concordou em se casar uma semana atrás depois de conhecer seu novo marido apenas uma vez.

"Vi nele um caráter que serve o Islã e casar novamente não é proibido, por isso aceitei sem conhecê-lo previamente", disse. "Ele tem bons costumes, é paciente e é um mujahedin (guerreiro) e isso é o que qualquer mulher mujahedeen quer."

Alguns dos inimigos dos jihadistas no Iraque, no entanto, têm uma certa suspeita sobre a fatwa. Husam Al-Majmi é o líder de um Conselho do Despertar, um dos grupos de ex-insurgentes agora aliados dos americanos e do governo do Iraque. Vários de seus parentes são membros da Al-Qaeda na Mesopotâmia e ele está ciente de que os membros da Al-Qaeda muitas vezes têm laços sociais e tribais que se sobrepõem aos membros do Conselho do Despertar.

Ele acredita que a fatwa é principalmente uma forma de manter o vínculo entre os jihadistas e, portanto, sua capacidade de manter segredos. "Ao fazer isso, eles serão capazes de transferir seus dados e informações entre si e garantir sua segurança", disse. E ele vê tal coesão e suposta lealdade cega à causa como um perigo para seu próprio grupo.

O que aconteceria se um de seus próprios lutadores se sentisse tentado, talvez por laços tribais, a casar com uma viúva da Al-Qaeda? Ele argumenta contra a decisão uma vez que ela tem mais interesse em se tornar mártir do que esposa. "Teríamos medo de que essas mulheres explodissem em nós", disse ele, rindo. O cenário parece absurdo, é claro. Mas, no Iraque de hoje, a piada também pode ser entendida literalmente.

* Por Timothy Williams

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