Prisão de suposto espião choca libaneses

MARAJ ¿ Por 25 anos, Ali al-Jarrah conseguiu viver nos dois lados da mais amarga divisão existente nesta região. Para amigos e vizinhos, ele era um sério apoiador da causa palestina, um afável homem de família com cabelos brancos que trabalhava como administrador em uma escola próxima. Para Israel, ele parece ter sido um valioso espião, tendo enviado relatórios e tirado fotografias clandestinas de grupos palestinos e do Hezbollah desde 1983.

The New York Times |

Agora ele está em uma cela de uma prisão libanesa, acusado pelas autoridades de ter traído seu país por um Estado inimigo. Meses depois de sua prisão, seus amigos e antigos colegas ainda estão em choque devido à extensão de sua fraude: ele cuidadosamente escondeu viagens ao exterior, dinheiro sem explicação e uma segunda esposa.

Investigadores libaneses dizem que ele confessou ter uma carreira de espionagem, espetacular em seu alcance e longevidade, uma versão real de um romance de John Le Carre. Acredita-se que muitos agentes da inteligência operam no caos civil do Líbano, mas a prisão de Jarrah lançou uma rara luz em um mundo de espionagem e subversão que costumar permanecer em segredo. A esposa de Jarrah continua afirmando que ele foi torturado e é inocente; pedidos de entrevista com ele foram negados.

De sua casa na vila de Bekaa Valley, Jarrah, 50 anos, viajou com freqüência para a Síria e para o sul do Líbano, onde fotografou estradas e comboios que poderiam ter sido usados para transportar armas para o Hezbollah, o grupo militante xiita, segundo investigadores. Ele falou com seus coordenadores por telefone via satélite, recebendo dinheiro, câmeras e aparelhos de escuta. Ocasionalmente, com o pretexto de uma viagem de negócios, ele viajou para a Bélgica e a Itália, recebeu um passaporte israelense e voou até Israel, onde foi interrogado longamente, dizem investigadores.

No início do conflito entre Israel e Hezbollah, em 2006, oficiais israelenses chamaram Jarrah para lhe darem a certeza de que seu vilarejo seria poupado e que ele deveria ficar em casa, ainda segundo investigadores.

Ele finalmente foi preso em julho de 2008 pelo Hezbollah, que agora talvez tenha o aparato de inteligência mais poderoso do país. Ele foi entregue aos militares libaneses ¿ junto com seu irmão, Yusuf, acusado de ajudá-lo na espionagem ¿ e espera julgamento em corte militar.

Vida dupla

Diversos militares, tanto em serviço quanto aposentados, concordaram em dar detalhes sobre seu caso sem se identificar, dizendo não estarem autorizados a discutir o assunto antes do início do julgamento. Os relatos deles registram detalhes dados por parentes e ex-colegas de Jarrah.

Não é a primeira pincelada de notoriedade na família. Um dos primos de Jarrah, Ziad al-Jarrah, estava entre os 19 sequestradores que participaram dos ataques de 11 de setembro de 2001. Os dois homens têm diferença de idade de 20 anos e não há indícios de que tinham contato.

Mark Regev, porta-voz do primeiro-ministro de Israel, Ehud Olmert, não quis comentar a situação de Jarrah, dizendo: não temos o hábito de falar publicamente sobre alegações deste tipo, nem neste nem em nenhum caso.

Moradores do vilarejo pareciam não acreditar que um homem que conheceram durante toda a sua vida poderia ter aceitado dinheiro para espionar por um país que é encarado com um misto de ódio e nojo.

Muitos acreditam que ele é inocente, mas Raja Mosleh, o médico palestino que trabalhou com ele por anos em uma clínica e escola médica próxima, não. Eu nunca suspeitei dele antes, disse Mosleh. Mas agora, depois de juntar todos os incidentes, acho que ele é 100% culpado.

Ele costumava falar sobre a causa palestina o tempo todo, sobre como ele apoiava a causa, as pessoas...ele gostava de todo mundo ¿ aquele filho da mãe, acrescentou Mosleh, com o desprezo engrossando sua voz.

Jarrah costumava pedir dinheiro emprestado para comprar cigarros, aparentemente para posar como um homem de recursos limitados. Investigadores dizem que ele recebeu mais de US$ 300 mil por seu trabalho para Israel.

Apenas recentemente ele começou a gastar de modo a levantar suspeitas. Há cerca de seis anos, segundo vizinhos, ele construiu uma casa de três andares com um telhado avermelhado, que de longe é a maior casa em um modesto vilarejo de baixas casas de concreto. Na parte externa há um pequeno arco coberto e um pesado portão de ferro, onde há poucos dias um pastor alemão montava guarda.

Mosleh perguntou a ele de onde tinha tirado o dinheiro, e Jarrah disse ter contado com a ajuda de uma filha que morava no Brasil. É uma justificativa natural no Líbano, onde uma grande parte da população recebe dinheiro de parentes que moram no exterior.

Prisão

Jarrah também tinha uma segunda mulher secreta, de acordo com investigadores e seus ex-colegas. Ao contrário de sua primeira mulher, Maryam Shmouri al-Jarrah, que morava em relativo esplendor com seus cinco filhos em Maraj, a segunda mulher morava em um barato apartamento na cidade de Masnaa, próxima a fontreira com a Síria. Aparentemente, isso permitiu que Jarrah viajasse próximo à fronteira com o impressionante disfarce de um trabalhador local.

De acordo com investigadores, Jarrah disse que foi recrutado em 1983 - um ano depois de Israel iniciar uma grande invasão ao Líbano ¿ por oficiais israelenses que o prenderam e ofereceram pagamentos regulares em troca de informações sobre militantes palestinos e movimentos de tropas sírias.

Depois que Israel deixou o Líbano, em 2000, milhares de libaneses das zonas ocupadas no sul foram julgados e condenados ¿ a maioria a penas leves ¿ por colaboraram com Israel. Longe da fronteira, uma classe diferente de colaboradores, com raízes em suas comunidades, resistiu. Alguns foram pegos e condenados.

Os motivos de Jarrah permanecem um mistério. Ele disse que tentou parar, mas que os israelenses não deixavam, disseram investigadores. Tudo chegou ao fim no ano passado. Em julho ele viajou para a Síria e, quando voltou, disse ter sido brevemente detido pela polícia síria, segundo a senhora Jarrah. Segundo ela, ele estava inquieto, com comportamento diferente do normal.

Ele deixou sua casa naquela noite, dizendo que estava indo para Beirute, e nunca mais retornou, segundo ela. Apenas três meses depois ela recebeu um telefonema do exército libanês, dizendo que o tinham colocado sob custódia.

Há algumas semanas, segundo a Sra. Jarrah, ela teve permissão para vê-lo. Ele tinha uma aparência terrível, exausta, segundo ela.

Forças de segurança libanesas divulgaram uma fotografia de Jarrah, tirada antes de sua prisão. Nela, ele aparece à frente de um fundo azul e branco, vestindo uma camisa escura e um sorriso enigmático.

Por ROBERT F. WORTH

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