Prisão de Polanski traz questão à tona: por que agora?

LOS ANGELES ¿ A ação repentina das autoridades suíças para prender Roman Polanski em busca de uma possível extradição para os EUA após 31 anos como fugitivo ¿ e diversas visitas à Suíça nesse meio tempo ¿ chamou a atenção de diplomatas, ofendeu admiradores do diretor de cinema e deixou muitas pessoas se perguntando a mesma questão: por que agora?

The New York Times |

AFP

Preso na Suíça: Roman Polasnki abana para o público no Festival de Cannes de 2007

Oficiais que executam as leis no país afirmam que era uma simples questão de oportunidade. Ele apareceu em um lugar e em um momento que nós sabíamos ser oportuno, diz Sandi Gibbons, porta-voz de Stephen L. Cooley, procurador do distrito do Condado de Los Angeles, na segunda-feira.

Mas admiradores de Polanski alegam que houve muitas oportunidades desde que ele saiu dos EUA em 1978, para escapar da sentença de crimes sexuais envolvendo uma garota de 13 anos.

Ele viajou abertamente e de forma transparente, declara Jeff Berg, presidente da International Creative Management e agente de Polanski. O diretor é dono de uma casa na Suíça e frequentemente visita o país.

Aborrecido com as reclamações de que não perseguiu Polanski no passado, o escritório da procuradoria do distrito colocou em circulação uma lista de ações e consultas pelas quais monitorou as viagens do diretor em ao menos 10 países, incluindo o que parecia ser uma falha na captura, quando oficiais pediram informações para Israel de uma visita em 2007. Polanski deixou Israel e não foi preso porque a informação não chegou a tempo, mostrava a consulta.

Os advogados de Polanski relatam em um formulário de apelação à corte de agosto que o representante do distrito teria evitado tentativas de extradição que poderiam resultar em audiências nas quais surgiria o caso de má conduta judicial.

Uma decisão da corte de apelação feita em julho abriu portas para uma rodada de argumentos potencialmente voláteis que podem acontecer logo no mês que vem, sobre se os advogados de Polanski teriam permissão para, mesmo sem a presença do réu no tribunal, mostrar que o caso contra ele foi manipulado.

A questão surge, em parte, por causa de um documentário sobre o caso divulgado no ano passado, no qual um procurador-adjunto do distrito descreve como teria manipulado o já falecido juiz para dar a sentença de Polanski.

Por três décadas, os procuradores de Los Angeles argumentaram que o diretor teria perdido seus direitos ao fugir e de que ele não teria posição para desafiar o tratamento recebido a menos que retornasse. Os representantes de Polanski disseram que a necessidade de remediar a justiça corrupta de Los Angeles substitui qualquer exigência de volta.

Como, precisamente, Polanski foi detido pouco antes da importante audiência permanece obscuro. Gibbons disse que a decisão da corte de apelação não tinha nada a ver com a exigência de extradição, a qual, segundo ela, foi feita por David Walgren, procurador-adjunto do distrito que foi atribuído ao caso de Polanski.

AP

Adesivos em que se lê "Libertem Polanski" fazem sucesso entre no Festival de Zurique

Douglas Dalton e Chad Hummel, que representaram o diretor em sua apelação, recusaram-se a discutir o pedido de extradição para o qual ele precisará de uma nova equipe jurídica com base na Europa e talvez em Washington.

Enquanto o diretor viveu uma vida razoavelmente aberta, ele evitou visitas à Grã-Bretanha, onde seria mais facilmente extraditado. Enquanto dirigia seu último filme na Alemanha, The Ghost (O Fantasma, em tradução livre), Polanski ocasionalmente evitava o set de filmagem, dirigindo por meio de um equipamento de comunicação à distância e levando alguns integrantes do elenco e da produção a acreditar que ele tentava dificultar sua apreensão, de acordo com uma pessoa que participou de cenas e falou em condição de anonimato.

Herve Temime, advogado de Polanski em Paris, disse à rádio France Info que não há razão, seja por lei ou por fatos, nem no terreno da justiça mais elementar, para se manter Roman Polanski na prisão por um dia que seja. Devido às extravagantes circunstâncias da prisão do diretor ao chegar, no sábado à noite, ao aeroporto de Zurique a caminho de receber um prêmio em um festival de cinema local, Temime pediu a libertação do acusado e disse que pretendia lutar contra a extradição.

Bernard Kouchner, ministro do Exterior francês, descreveu a prisão de Polanski como meio sinistra e disse que ele e o ministro do Exterior da Polônia, Radoslaw Sikorski, escreveram em conjunto uma carta expressando a preocupação à Secretária de Estado dos EUA Hillary Clinton.

Quase 100 profissionais da indústria de entretenimento, incluindo os diretores de filmes Pedro Almodóvar, Wong Kar Wai e Wim Wenders, pediram a libertação de Polanski em uma petição que dizia: diretores na França, na Europa, nos EUA e em todo o mundo estão consternados com essa decisão.

Ronald Harwood, que ganhou um Oscar pelo roteiro de O Pianista, dirigido por Polanski, declarou: é vergonhoso. Tantos os americanos como os suíços erraram.

Jack Lang, ex-ministro da Cultura francês, disse que para os europeus o desenvolvimento do caso mostrou que o sistema de justiça americano está enlouquecendo. Às vezes, o sistema de justiça americano mostra um excesso de formalismo, disse Lang, como uma máquina infernal que avança inexorável e cegamente.

Polanski, 76, foi levado em custódia por um mandado de prisão temporário após as autoridades suíças receberem uma exigência oficial do Departamento de Justiça dos EUA, que agia a pedido da procuradoria do distrito de Los Angeles. Ele era acusado originalmente de seis crimes, incluindo estupro e sodomia, envolvendo um incidente com uma garota de 13 anos.

Ao final do julgamento, ele foi considerado culpado por apenas uma acusação, ter relações sexuais com uma menor, e passou 42 dias em uma prisão do Estado sob avaliação psiquiátrica, e fugiu na véspera de receber sua sentença após ficar convencido de que o juiz recuaria do plano de não sentenciá-lo a uma pena maior.

A vítima no caso, Samantha Geimer, se identificou publicamente há muito tempo e expressou ter perdoado Polanski.

(Reportagem de Michael Cieply e David Jolly)

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