Prisão de assessor de Ahmadinejad evidencia disputa interna no Irã

Diretor da agência de notícias oficial ficou preso por uma hora e só foi solto por pressão de Ahmadinejad, diz mídia local

The New York Times |

A rivalidade latente entre o presidente do Irã e adversários poderosos dentro da hierarquia conservadora foi percebida no início da semana quando as forças de segurança mativeram presos por um breve momento seu principal assessor de imprensa, que também dirige a agência de notícias oficial e um importante jornal local, segundo testemunhas e notícias iranianas.

AFP
Presidente iraniano fez pronunciamento em janeiro

As testemunhas disseram que o assessor Ali Akbar Javanfekr permaneceu algemado por uma hora em uma operação efetuada em seu escritório em Teerã e foi libertado somente depois que o presidente Mahmoud Ahmadinejad ameaçou vir pessoalmente libertá-lo. As forças de segurança usaram gás lacrimogêneo quando invadiram o escritório e prenderam pelo menos 32 outras pessoas. Não ficou claro se as demais foram libertadas.

Javanfekr é o executivo-chefe da Agência de Notícias da República Islâmica, conhecida pela sigla Irna, e gerente da filial impressa da Irna, o jornal oficial "Irã". Ele é uma das figuras mais poderosas na divulgação das políticas do governo iraniano e suas mensagens para o mundo exterior.

Detalhes sobre as circunstâncias exatas da operação não estão claros. Mas o episódio parece ser o exemplo mais dramático em que o atrito entre Ahmadinejad e os conservadores do governo ficou exposto; críticos conservadores do presidente têm cada vez mais o desafiado sobre aquilo que consideram como uma "corrente desviada" de assessores presidenciais que querem subverter a autoridade do clero islâmico.

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O catalisador da prisão de Javanfekr parece ter sido uma decisão tomada no domingo por um tribunal iraniano que determinou que ele ofendeu os valores islâmicos questionando o código de vestimenta islâmica para mulheres. O tribunal ordenou que ele fosse preso por um ano e impedido de trabalhar no jornalismo por três, mas Javanfekr tinha algumas semanas para recorrer da punição.

A Agência de Notícias Mehr, um dos canais de notícias iranianos que relataram a prisão de Javanfekr, disse que ele foi levado em custódia na segunda-feira por oficiais de justiça sob a acusação de "desrespeitar os princípios e a moral islâmicos". A agência disse que ele foi solto posteriormente, após "consultas entre oficiais do governo e do judiciário". Não há informações sobre a situação das acusações contra ele.

A Irna, por sua vez, afirmou que os relatos da prisão de Javanfekr eram imprecisos. Mas o relato veiculado pela Mehr e um relato semelhante pela Agência de Notícias dos Estudantes Iranianos, juntamente com uma uma série de postagens em persa em páginas do Facebook por pessoas que disseram estar presentes durante as prisões revelam uma história diferente.

As postagens diziam que as forças de segurança, em nome do Judiciário, entraram em seu escritório e o algemaram depois que ele deu uma entrevista coletiva para jornalistas iranianos em que desafiou a sua convicção e condenação. As mensagens também disseram que os agentes haviam usado gás lacrimogêneo.

Segundo as publicações, Javanfekr foi libertado uma hora depois, mas apenas depois que Ahmadinejad alertou os oficiais que haviam efetuado a prisão para "libertá-lo ou eu vou fazer isso sozinho." Esse detalhe não pôde ser confirmado independentemente.

O serviço persa da BBC, disse que pelo menos uma pessoa ficou ferida durante o ataque e foi visitada no hospital pelo governador provincial de Teerã, Morteza Tamadon. A BBC não cita a fonte dessa informação.

Analistas políticos iranianos disseram que o motivo da prisão de Javanfekr pode não ter sido a decisão do tribunal e a sua sentença. Outro motivo provável, segundo eles, foi uma entrevista com ele publicada no domingo pelo Etemad, um jornal reformista do Irã, na qual ele menospreza alguns dos rivais conservadores de Ahmadinejad. O Etemad foi imediatamente fechado por dois meses pela " divulgação de mentiras e insultos aos oficiais do estabelecimento", segundo outros meios de comunicação iranianos.

A disputa pelo poder entre Ahmadinejad e os conservadores religiosos ficou clara em abril, quando o aiatolá Ali Khamenei, líder supremo que tem a última palavra nos assuntos do Estado no Irã, envergonhou Ahmadinejad ao restabelecer o ministro da inteligência , a quem o presidente havia demitido.

Leia também: Demissão de ministro coloca presidente do Irã sob pressão

Um escândalo bancário que tem assolado o Irã também é visto como um campo de batalha política entre Ahmadinejad e seus rivais conservadores. As autoridades detiveram dezenas de pessoas no que elas chamam de um amplo esquema de desvio de cerca de US$ 2,6 bilhões, e os adversários de Ahmadinejad têm repetidamente acusado o seu chefe de gabinete, Esfandiar Rahim Mashaei, de laços estreitos com o principal suspeito.

Reuters
Ali Khamenei acena para a população em evento realizado em outubro

Khamenei, que apoiou a vitória de Ahmadinejad na eleição de 2009, também sugeriu recentemente que ele não se opunha à abolição do mandato de um presidente eleito. Alguns analistas políticos iranianos interpretaram essa sugestão como mais um sinal do desagrado do aiatolá com Ahmadinejad, cujo mandato expira em 2013.

Ahmadinejad é intensamente religioso, mas entrou em conflito com o tradicional clero iraniano. Ele disse que os muçulmanos não precisam da intercessão de clérigos para entrar em contato com o Imã Oculto, uma figura messiânica no ramo xiita do Islã que prevalece no país. Os conservadores denunciaram o círculo do presidente como uma "corrente desviadadora" e, muitas vezes, atuam principalmente contra Mashaei.

Por Rick Gladstone Artin Aafkhami

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