Primeiro-ministro do Líbano tenta definir seu próprio caminho

Apoiado pelo Hezbollah, Najib Mikati promete não interferir em tribunal que investiga morte de Hariri e quer boa relação com EUA

The New York Times |

Najib Mikati, um bilionário que com o apoio do Hezbollah se tornou o novo premiê do Líbano, prometeu na quarta-feira forjar boas relações com os Estados Unidos e declarou que não irá interferir no tribunal internacional que deve acusar membros do grupo xiita de envolvimento no assassinato do ex-premi~e Rafik Hariri.

As observações feitas por Mikati durante uma entrevista foram um sinal claro de um caminho independente, que ele quer criar em um país que sofre com a sua pior crise em anos e navega por um novo alinhamento de poder no qual a Síria tem emergido novamente como uma potência central. Mikati enfrenta uma enorme pressão para denunciar o tribunal e os seus apoiadores e adversários reconhecem que a sua capacidade de talhar tal independência irá, provavelmente, definir o seu mandato. "Não podemos nos dar ao luxo de ter um inimigo", ele disse.

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O bilionário Najib Miqati, premiê designado no Líbano (26/1/2011)
Genial e envolvente, Mikati, 55 anos, é fustigado por uma ampla gama de influências que personificam o destino do país. Apesar de pequeno e relativamente insignificante por si só, o Líbano tem servido por muito tempo como uma arena para batalhas muito maiores do que ele, envolvendo os Estados Unidos e a França, bem como a Síria, o Irã, a Arábia Saudita e outras nações do Oriente Médio.

O tribunal é a última encarnação dessa disputa. O movimento muçulmano xiita Hezbollah tentou desacreditá-lo, acusando os Estados Unidos e Israel de controlarem o tribunal como forma de culpar o grupo pelo assassinato de Rafik Hariri, em 2005. Quando o filho de Hariri, Saad, antecessor de Mikati, se recusou a denunciar o tribunal, o movimento retirou o seu apoio forçando o colapso de seu governo de unidade nacional de 14 meses e desencadeando um amargo confronto.

Os Estados Unidos têm insistido que o tribunal proceda livremente, assim como os rivais do Hezbollah em Beirute, muitos dos quais consideram Mikati um fantoche do grupo.

"Eu não vou fazer qualquer movimento contra o tribunal sem consenso completo do povo libanês", disse Mikati, conhecido no país, além de político, como filantropo. Perguntado se o Hezbollah aceitaria tal postura, ele respondeu indignado: "Eu sou o premiê e eu vou decidir. Se eles não aceitam, eles que não aceitem".

Tarefa

Mesmo os amigos de Mikati, que fez fortuna no setor das telecomunicações e está entre os homens mais ricos do mundo, reconhecem o quão formidável é a sua tarefa. Ele recebeu o apoio crucial do Hezbollah e de seu aliado, a Síria, mas seu eleitorado, e até mesmo a sua cidade natal, englobam os seus adversários. Ele deve navegar uma política que está cheia de acusações de traição. E os Estados Unidos, embora com menos veemência do que alguns esperavam, emitiram um aviso.

"Nós iremos julgar este novo governo de acordo com o que ele fizer", disse a secretária de Estado Hillary Rodham Clinton, após a escolha de Mikati. "Eu gostaria de dizer: 'Obrigado por isso, Hillary Clinton’”, disse Mikati. "Você me economizou um comunicado. Não julgue previamente. Espere e verá. E eu estou ansioso para vê-la".

Precisamente o que Mikati representa se tornou um assunto de intenso debate no seu país. Hassan Nasrallah, líder do Hezbollah, rejeitou a alegação de que Mikati era o candidato do movimento e destacou que ele foi escolhido pela maioria do Parlamento. "O que fizemos foi normal e nós praticamos nosso direito constitucional", disse ele.

Mas a própria legitimidade de Mikati é profundamente questionada em um sistema que divide o poder rigidamente entre suas várias seitas: em primeiro lugar, estão os católicos maronitas que recebe, o cargo de presidente, depois os muçulmanos sunitas como premiê e os xiitas como presidente do Parlamento.

Mikati é um muçulmano sunita, mas o seu apoio, na rua, pelo menos, empalidece diante do de Hariri, cujo movimento mobilizou apoiadores em protestos agressivos na terça-feira em uma grande demonstração de força. Manifestantes em Tripoli, cidade natal de Mikati, queimaram pôsteres com a sua imagem. Alguns o chamaram de traidor, outros o ridicularizaram como um agente do Hezbollah. "Ele é uma figura sunita, mas a maneira como foi nomeado desacredita isso", disse Nouhad Mashnouq, membro do Parlamento do bloco aliado de Hariri. "De uma forma ou de outra, este governo está no eixo dos interesses Síria-Hezbollah".

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Pôsteres de Saad Hariri, filho do ex-premiê Rafik e antecessor de Mikati, em Beirute
Em uma entrevista na terça-feira em um programa de televisão popular, Mikati declarou que ele e Hariri são "um". O apresentador rebateu: "Saad Hariri não quer ser 'um' com você".

Na verdade, Hariri, que se queixou de "muita traição" nas negociações que levaram à escolha quando Mikati lhe fez uma visita de oito minutos na quarta-feira. "Não muito acolhedora", disse Mikati, sobre a reunião.

Na entrevista, Mikati alegou que os protestos, cuja violência parecia ter surpreendido até mesmo alguns dos apoiadores de Hariri, empalideciam diante do apoio de que ele gozava no seio da comunidade, cuja relação de poder tem diminuído ao longo da última década. Ele insistiu que os seus apoiadores ultrapassam o número de manifestantes "mil vezes".

Durante mais de uma década após o fim da guerra civil de 15 anos do Líbano, em 1990, o país foi governado por um consenso entre Síria e Arábia Saudita, e toda uma classe política, incluindo os pais de Mikati e Hariri, serviram aos seus interesses. Após se desgastar por muitos anos, o consenso ruiu com o assassinato do pai de Hariri e o país continua a sofrer com uma amarga, por vezes violenta e caótica, busca por novas regras para governar.

Laços com a Síria

Mikati há muito tempo cultiva laços com a Síria, que é vista como querendo construir uma alternativa a Hariri entre os muçulmanos sunitas do país. O próprio Hariri havia tentado restaurar laços com a Síria, apesar de os seus esforços fracassarem nas negociações sobre um possível compromisso sobre o tribunal e as suas acusações, cujos detalhes devem ser divulgados em semanas.

A influência da Arábia Saudita pareceu diminuir ultimamente, e uma pergunta feita frequentemente é: 'Por que não intervir de forma mais agressiva para proteger Hariri?'. "Francamente, os sauditas são difíceis de decifrar", disse um oficial de alto escalão de Hariri, que falou sob condição de anonimato devido à sensibilidade do assunto.

Mikati, entretanto, disse estar "em contato permanente" com as autoridades sauditas.

A questão mais premente, porém, continua a ser o tribunal. Apesar de sua posição firme, muitos esperam que Mikati será incapaz de suportar a pressão para denunciá-lo, embora ele possa encontrar um mecanismo jurídico para pôr fim à cooperação do Líbano.

"É tudo sobre o tribunal", disse Sateh Noureddine, colunista do jornal esquerdista As Safir. "Eles querem que ele o denuncie e rompa a cooperação com ele o mais rápido possível. É uma questão muito delicada e urgente. E ele vai anunciar exatamente isso”.

O oficial com Hariri concluiu: "E a oposição a isso será monumental".

*Por Anthony Shadid, com colaboração de Nada Bakri

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