Presidente russo perde chance de mostrar liderança

Em meio à comoção causada por acidente aéreo, Medvedev não aproveita oportunidade de ofuscar Putin

The New York Times |

Quando o presidente da Rússia, Dmitri Medvedev, subiu ao púlpito durante um fórum político anual em Yaroslavl na semana passada, suas olheiras sugeriam que ele tinha dormido mal.

A multidão esperava para descobrir quem governará a Rússia no ano que vem – Medvedev ou o premiê Vladimir Putin – uma questão que tem sido debatida no país há meses. Um dia antes, um acidente de avião tinha matado a equipe de hóquei de Yaroslavl, levando milhares de russos às ruas, chorando.

O que Medvedev faria? Cancelaria o evento? Deixaria de lado seu discurso preparado para falar sobre a tragédia? Será que ele falaria sobre os devastadores desastres no sistema de transportes russo que aconteceram este ano, e que mostraram casos de corrupção e infra-estrutura decadente?

Sua escolha era importante. Como parte mais liberal da liderança da Rússia, Medvedev ainda tem poder para guiar o país em seu caminho entre o autoritarismo e a reforma, embora ele seja cada vez menor. Quando chegou o momento, Medvedev decidiu ir em frente com o roteiro definido antes da tragédia, um discurso de 30 minutos sobre como o Estado deve encarar a diversidade.

Quando terminou o discurso e sentou, algo parecia claro: Medvedev não estava preparado para lutar por seu cargo.

AP
Medvedev discursa durante fórum político em Yaroslavl, na Rússia (08/09)

"Não foi o discurso de um presidente, foi uma palestra de um professor", disse Alexander Rahr, especialista em Rússia no Conselho Alemão de Relações Exteriores. "Em qualquer outro país o presidente teria usado o momento como uma oportunidade para mobilizar as pessoas. Ou ele não tem permissão para fazer isso, ou não quer."

A atual crise de liderança da Rússia teve início em 2008, quando Putin, a figura mais poderosa e popular do país, teve que renunciar porque a Constituição russa limita um presidente a dois mandatos consecutivos. A solução foi Medvedev: um político mais jovem e mais pró-ocidente que colocou Putin no cargo de premiê, onde permaneceu como o homem mais influente na política russa.

O arranjo levou o sistema político a um beco sem saída. Ambos indicaram que gostariam de concorrer à presidência em 2012, mas, aparentemente, não foram capazes de chegar a um acordo. Moscou tem sido consumida pelo impasse, não deixando espaço para a discussão dos desafios que a Rússia enfrenta a longo prazo. Vladislav Y. Surkov, estrategista político do Kremlin, disse que a decisão seria tomada este mês.

No centro desta crise está o estranho espetáculo no qual Medvedev – cujos extraordinários poderes estão consagrados na Constituição – é obrigado a esperar vários meses para obter a permissão de Putin para declarar sua candidatura.

Em maio, o presidente reuniu 800 jornalistas para uma coletiva de imprensa que tinha toda a pompa de um grande anúncio político. Então, disse que não poderia fazê-lo.

Enquanto isso, Putin tem abertamente se preparado para sua própria campanha. O consenso sobre quem vai governar a Rússia no próximo ano tem se movido lentamente na direção de Putin.

Um dos detalhes mais reveladores sobre o evento de Medvedev em Yaroslavl este ano foi a lista de autoridades que não compareceram: o ministro das Finanças, Aleksei L. Kudrin, a ministra do Desenvolvimento Econômico, Elvira S. Nabiullina, e nem mesmo os ministros que supervisionam os transportes e as situações de emergência, que estavam em Yaroslavl para participar de uma reunião sobre o acidente de avião.

O ministro das Relações Exteriores Sergei Lavrov, foi ao fórum e deu entrevistas para a televisão nacional no hall de entrada do local, mas não apareceu na plateia quando o presidente estava falando.

Segundo o analista político Aleksei Mukhin, os campos políticos estão gradualmente se tornando visíveis. "Grupos estão se formando em torno de Putin e Medvedev", disse Mukhin, diretor do Centro de Informação Política, em Moscou. "Trata-se de uma expressão de lealdade. Há um sistema de demonstração e eles já sabem bem quem está de que lado. Agora, isso está ficando claro para todos."

Nikolai Zlobin, um analista que vive em Washington, disse que seus próprios amigos em Moscou estão tão cautelosos quanto a parecer que endossam a candidatura de Medvedev que nem responderam suas perguntas sobre se planejavam participar do fórum. "Ninguém quer cometer um erro", disse Zlobin. "E tudo pode ser interpretado como a favor e contra."

Existem grandes diferenças entre Putin, 58 anos, que cresceu brigando com valentões da vizinhança, e Medvedev, 45 anos, a criança inteligente de qualificações acadêmicas.

Mas Putin escolheu Medvedev como seu sucessor em parte por causa de sua lealdade. Questionado várias vezes sobre porque apoiou a candidatura de Medvedev à presidência em 2007, ele respondeu: "Confio nele, simplesmente confio nele".

Embora Putin nunca tenha criticado Medvedev, suas atividades de campanha passam a mensagem de que ele já não tem plena confiança em seu pupilo.

Putin formou uma nova organização política, a Frente Popular de Toda a Rússia; realizou campanhas emotivas, abrindo seu coração para metalúrgicos em Magnitogorsk e percorrendo Novorossiysk em uma Harley-Davidson; mesmo em Yaroslavl, os convidados do fórum político de Medvedev foram transportados de ônibus por uma estrada tomada por outdoors que mostravam o rosto de Putin, com o lema: "A Rússia nos Une”.

Ainda assim, seria loucura declarar que Medvedev não tem chance de voltar a ser presidente.

A escolha de Medvedev como candidato em 2007 foi igualmente imprevisível. Se houvesse um consenso naquele ano ele favoreceria o seu rival, Sergey B. Ivanov, então vice-premiê. Amigo próximo de Putin de seus dias na direção da KGB de Leningrado, Ivanov estava tão confiante de que Putin o escolheria que passou por uma “reformulação pública”, adotando novo visual.

As manobras de Putin, no final, podem ser simplesmente uma tentativa de reafirmar publicamente seu controle antes de colocar quem quiser no poder.

Mas a lição é: se Medvedev se mantiver na presidência nesses termos, ele vai assumir uma posição mais fraca do que a que ocupou durante os últimos quatro anos.

Medvedev começou seu primeiro mandato com entusiasmo que às vezes beirava o prazer. Apesar de partidários entenderem que sua autoridade era provisória, a maioria esperava que ele acumulasse energia ao longo do tempo, gradualmente abrindo caminho para uma transição para um sistema que não estivesse orientado ao redor de Putin.

É impossível saber se Medvedev será autorizado a exercer sua agenda. Mas o homem que subiu ao púlpito em Yaroslavl, mais experiente e cansado, fez um discurso sem frases memoráveis.

Por Ellen Barry

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