Presidente do Equador diz que manterá pressão sobre a mídia

Apesar de perdão a jornalistas, Rafael Correa mantém ataques contra imprensa e defende lei que limita cobertura de eleição

The New York Times |

A luta continua para Rafael Correa, o presidente do Equador, que tem estado em um constante confronto com a mídia de seu país praticamente desde o dia em que assumiu o cargo, cinco anos atrás.

No final de fevereiro, ele perdoou três executivos e um colunista do El Universo , um importante jornal conservador, que foram condenados a três anos de prisão e multados num valor de US$ 42 milhões em um processo de difamação movido pelo presidente. Mas não se tratava de uma trégua, explicou Correa. Ele definitivamente não está menos exaltado com o que chama de "ditadura da mídia".

Leia também: Correa anuncia perdão a jornalistas condenados no Equador

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O presidente do Equador, Rafael Correa, concede entrevista em Quito, no Equador (05/03)

"Estamos no meio de uma batalha", disse Correa em uma entrevista concedida no palácio presidencial no início do mês. Comparando sua campanha com a campanha feita pelo presidente americano Abraham Lincoln, que fechou os jornais que simpatizavam com o sul do país durante a Guerra Civil, ele disse ter concentrado seus esforços diretamente sobre os ricos, que durante gerações têm exercido o poder econômico e político no Equador.

"Parte desse poder é proveniente dos meios de comunicação que pertencem às elites que destruíram a América Latina", disse ele, sentado abaixo de um retrato de Eugenio Espejo, um escritor do século 18 muitas vezes considerado o pai do jornalismo equatoriano.

Seus discursos anti-imprensa televisionados, seus processos judiciais contra jornalistas e uma nova lei que poderia impedir a cobertura das eleições pela mídia local fazem com que ele seja comparado com o presidente da Venezuela, Hugo Chávez.

Chávez, um aliado socialista de Correa, fechou uma rede de televisão e estações de rádio venezuelanas que não lhe ofereciam uma cobertura favorável.

"Esta luta pela liberdade de expressão no Equador, assim como na Venezuela, é muito básica", disse José Miguel Vivanco, diretor-executivo da divisão das Américas do Human Rights Watch. "Ela é conduzida e motivada por um esforço de concentração de poder e para intimidar e assediar os críticos, representando-os como promotores de mentiras."

Na Venezuela, vários jornais criticam Chávez de maneira agressiva, mas sua circulação é relativamente pequena. Ao tirar uma grande rede de televisão do ar em 2007, Chávez eliminou uma voz da oposição que atingia a maioria do país.

Correa é agora o centro das atenções sobre o assunto.

O motivo de preocupação mais recente entre os jornalistas é um novo código eleitoral que proíbe a mídia de imprimir ou circular qualquer tipo de material que possa favorecer um candidato em detrimento de outro. Isso poderia impedir que jornais e outros meios de divulgação apoiassem certos candidatos, algo com que Correa concorda, já que diz que a imprensa deveria deixar a política para os políticos.

Nos Estados Unidos, disse ele, existem meios de comunicação liberais e conservadores que criam um equilíbrio. "Aqui, o pobre não tem voz", disse. Mas os jornalistas disseram que, de acordo com o novo código, a impressão de uma entrevista com um candidato pode ser vista como uma cobertura favorável e a investigação do histórico de um outro candidato poderá ser interpretada como algo negativo - o que significa que uma cobertura eleitoral básica corre o risco de infringir a lei.

Correa disse que essa não é a intenção da lei.

Apesar de sua crítica à imprensa, Correa tem muita experiência com a mídia. Seu governo controla cerca de 19 veículos de comunicação, incluindo redes de televisão, estações de rádio e jornais. Ele acabou copiando Chávez quando decidiu criar um programa semanal transmitido pela televisão estatal. Assim como o líder venezuelano, Correa frequentemente dá ordens a redes de televisão e estações de rádio para que planejem sua programação com elogios a sua liderança e ataques a seus críticos, inclusive a jornalistas.

Muitos equatorianos concordam com Correa, dizendo que a imprensa tem refletido os interesses das famílias mais importantes do país há muito tempo. Mas eles também dizem ter se sentido ofendidos com os US$ 42 milhões que ele ganhou em um tribunal por sua disputa com a imprensa e alegam cansaço em relação a seus discursos anti-mídia.

"Concordamos com o presidente", disse Manuela de Oquendo, 62, uma vendedora de roupas que passeava em um subúrbio de Quito com seu marido, Galo Oquendo, 64. "Mas já está ficando cansativo ter de ouvir toda semana a mesma coisa."

Correa disse que continuaria a pressionar seus adversários através da mídia.

"Se continuarmos a ser dominados pelas mesmas potências, vamos continuar a ter os mesmos resultados: as pessoas continuarão mais ricas do que nos Estados Unidos e mais pobres do que na África", disse.

Por William Neuman

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