Presidente do Brasil assume silenciosamente a liderança da América Latina

CARACAS, Venezuela - O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, e o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, aplaudiram quando funcionários da petrolífera estatal local ergueram os punhos e vociferaram slogans socialistas diante das câmeras durante um encontro no mês passado.

The New York Times |

Em outros tempos essa imagem de solidariedade teria alarmado Washington, que via a posição dos Estados Unidos prejudicada pela mudança da liderança da região na última década, agora nas mãos de líderes de esquerda com inclinações populistas.

Mas esse evento cuidadosamente orquestrado camuflava uma mudança recente na América Latina que representa novas oportunidades para os Estados Unidos: Lula se afastou cada vez mais do líder venezuelano e silenciosamente o substituiu, colocando o Brasil na posição de grande potência regional.

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Hugo Chávez (D) recebe o
Lula no Palácio de Miraflores, em Caracas

Os dois líderes, geralmente parceiros mas muitas vezes vistos como rivais, oferecem caminhos completamente diferentes em direção ao desenvolvimento e é a postura mais centrada e pragmática do Brasil que parece crescer. Em meio ao declínio da influência americana na região, o presidente brasileiro discretamente sobrepuja Chávez em todos os momentos em que há uma disputa pela liderança da América do Sul.

Chávez nacionalizou companhias estrangeiras e tentou criar um bloco de nações anti-americanas. No entanto, suas credenciais regionais sofreram na semana passada quando seu rival ideológico, o presidente Álvaro Uribe da Colômbia, organizou o resgate dramático de 15 reféns mantidos na selva por rebeldes colombianos.

Lula diversificou a já forte base industrial brasileira e criou uma coalização política ampla com quase uma dezena de vizinhos. A enorme descoberta de petróleo em águas brasileiras permitiu que ele impedisse que a Venezuela usasse suas próprias reservas para ganhar influência. A economia da Venezuela mostra sinais de paradas e sua dependência dos negócios com o Brasil aumentou.

Estratégia brasileira

A chave para o sucesso do Brasil é a feliz confluência das tendências econômicas globais, como o aumento da demanda por mercadorias como o etanol à base de soja ou cana-de-açúcar, mas também o silencioso comando do ex-metalúrgico Lula. Ele mudou a importância do Brasil na região em parte ao adotar a estratégia de aceitação em relação à Chávez, ao contrário da postura de confronto adotada pelos Estados Unidos.

Ao invés de trocar farpas publicamente com Chávez, mesmo quando ele ameaçou interesses brasileiros, Lula optou por conquistar a esquerda e recebeu muitos elogios. Lula chegou a descrever Chávez recentemente como o "melhor presidente da Venezuela em um século", em entrevista à revista alemã Der Spiegel.

"O lado pragmático de Lula, o líder de sindicato que sempre foi um negociador, compensou", disse Kenneth Maxwell, historiador da Universidade de Harvard e colunista do jornal Folha de S. Paulo.

"Ainda que Chávez esteja nas manchetes, o debate sobre o Brasil se tornar uma potência regional já teve início", ele disse. "O Brasil já está nessa posição, mas isso foi conquistado de forma não bombástica".

Enquanto o alto preço dos combustíveis ampliou a teatralidade das políticas dissidentes de Chávez, a influência da Venezuela permanece limitada a uma pequena porção das nações mais pobres da região (Bolívia, Cuba, República Dominicana e Nicarágua) que são membros da Alba, uma aliança de negócios posta em prática por ele. Outro aliado de Chávez, o Equador, não é membro. Enquanto isso, a inesperada adoção das idéias mercadologicamente amigáveis iniciadas por seu predecessor, Fernando Henrique Cardoso, por Lula enfatiza o quanto o pensamento político se tornou heterogêneo na América Latina, mesmo pela esquerda.

Publicamente, o presidente brasileiro é rápido em defender Chávez, mesmo que privadamente busque temperar as afirmações inflamatórias do presidente venezuelano.

Em uma entrevista realizada em setembro, Lula disse que a retórica "funciona na realidade da política venezuelana" e que o anti-americanismo de Chávez está enraizado na crença do líder venezuelano de que a administração Bush esteve por trás do golpe de Estado contra ele em 2002. "Ele tem seus motivos", disse Lula.

Mas enquanto Chávez se virou radicalmente para a esquerda depois de sua breve saída do poder em 2002, Lula se moveu para o centro depois que assumiu o poder, surpreendendo os céticos. Sua nova postura facilitou a aceitação do Brasil em países tão diversos como Cuba, o bastião socialista ao qual a Venezuela fornece petróleo subsidiado, e a Colômbia, um dos principais aliados militares dos Estados Unidos cujas relações com a Venezuela esfriaram nos últimos meses.

Em junho, o ministro do exterior do Brasil, Celso Amorim, declarou durante uma visita à Havana que o Brasil planeja ampliar os créditos para a importação de produtos agrícolas brasileiros na esperança de ultrapassar a Venezuela e se tornar o principal aliado de Cuba.

Brasil na liderança

Na Colômbia, investidores brasileiros recentemente assumiram o controle da Avianca, a principal companhia aérea do país. Autoridades colombianas se inspiram na Petrobras, a petrolífera estatal brasileira, ao remodelar sua própria companhia de extração de petróleo para que seja exposta às forças do mercado.

A própria Venezuela se tornou mais economicamente dependente do Brasil. No mês passado, agronegócios brasileiros firmaram acordos para exportar mais alimentos para a Venezuela, explorando as persistentes falhas econômicas venezuelanas causadas pelo mal gerenciamento e controle dos preços.

Companhias brasileiras conquistaram contratos para projetos na Venezuela como a expansão do sistema de metrô de Caracas e a construção de uma ponte sobre o Rio Orinoco. Recentemente o Brasil ultrapassou a Colômbia e se tornou o principal parceiro de negócios da Venezuela depois dos Estados Unidos.

Em alguns países onde a Venezuela e o Brasil são vistos como rivais, como a Bolívia, Chávez ainda tem vantagem. A Bolívia, principal fornecedor de gás natural do Brasil, chocou o País em 2006 ao nacionalizar o setor energético, com a ajuda a Venezuela. Em Dezembro, Lula tentou melhorar a posição do Brasil na Bolívia, o país mais pobre da América do Sul, ao ampliar uma linha de crédito de US$600 milhões para projetos de infraestrutura.

Enquanto isso, o excedente dos negócios do Brasil com os outros 11 países da Associação de Integração da América Latina aumentou para US$16 bilhões em 2007 de US$1.7 bilhões em 2002, com essas nações comprando cerca de um quarto de tudo que o Brasil vendeu no exterior.

As tentativas da Venezuela em criar uma aliança de países permanece limitada à Alba. Mas o Brasil recebeu 12 líderes de nações sul-americanas em maio para criar a Unasul, um bloco continental nos modelos da União Européia que une os principais grupos da região, o Mercosul e a Comunidade Andina.

O Brasil muitas vezes elogia publicamente os esforços de Chávez em unificar a América do Sul, enquanto sutilmente fortalece instituições que servem como freio para ambiciosos negócios apoiados pela Venezuela, como dutos de gás que atravessariam o continente ou o Banco do Sul, uma instituição de desenvolvimento que competiria com o Banco Mundial.

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Lula e Chavez conversam durante
encontro para tratar de acordos bilaterais

O Banco do Sul permanece pouco mais do que uma idéia grandiosa. Em dezembro, nove dias depois que Chávez anunciou a criação do banco, que o Brasil deveria apoiar, Lula participou de um evento pequeno no Uruguai para inaugurar uma nova filial do banco de desenvolvimento do Brasil, o BNDES.

O Banco do Sul teria dificuldade em alcançar o BNDES, que financiou US$4.2 bilhões em investimentos por todo o mundo no ano passado, incluindo empréstimos para a expansão do metrô de Caracas.

As descobertas energéticas do Brasil também desafiam o poder da Venezuela. Chávez pareceu particularmente perturbado com a descoberta da Petrobras em novembro de um enorme campo de petróleo na costa brasileira, conhecido como campo Tupi, cuidadosamente repreendendo Lula por se tornar um "barão do petróleo".

A questão do petróleo

Hoje o Brasil se vê a um passo de estar junto das potências petrolíferas e a descoberta do campo Tupi fez com que Lula anunciasse sua intenção em colocar o Brasil na Opep em alguns anos. A Venezuela até o momento é o principal representante da América Latina na organização.

A Petrobras tem produzido muito, explorando petróleo na África e nos Estados Unidos, assim como no Brasil. A companhia petrolífera estatal da Venezuela, por sua vez, estagnou sua produção desde que Chávez demitiu diversos executivos da companhia por achá-los desleais.

Ainda que certas decisões apontem para uma cooperação maior entre os dois países, como um acordo realizado no mês passado para considerar o envio de gás natural de navio da Venezuela ao Brasil, eles também ressaltam a capacidade do Brasil em prejudicar os projetos políticos de Chávez, como o duto de 8,000km.

"Não se sabe se o transporte de gás da Venezuela algum dia chegará ao Brasil, uma vez que os brasileiros podem conseguir isso de fontes mais confiáveis como Trinidade", disse Pietro Pitts, analista de fontes energéticas responsável pela revista LatinPetroleum. "O Brasil sagazmente colocou outra pedra sobre o plano dos dutos de Chávez".

Na questão da segurança, Chávez foi sobrepujado pelos militares colombianos que executaram um elaborado resgate de 15 reféns, entre eles três americanos e Ingrid Betancourt, ex-candidata presidencial colombiana que era considerada a principal barganha do grupo rebelde conhecido como Farc.

O líder venezuelano negociou bem-sucedidamente com as Farc para a libertação de seis reféns desde janeiro. Mas seus próprios elos com o grupo passaram por escrutínio e ele teve que pedir que as forças guerrilheiras abandonem a luta armada.

Lula pareceu roubar a cena de Chávez em março, quando o Brasil propôs um conselho de defesa da América do Sul que serviria como uma versão sulista da Otan. Chávez elogiou a idéia, apesar de seus próprios esforços em criar tal aliança em 1999 não ter dado em nada.

A secretária de Estado Condoleezza Rice demonstrou apoio à idéia durante uma passagem recente pelo Brasil, dizendo que confia na liderança brasileira na realização do projeto. O Brasil também lidera a principal missão de paz da ONU na região, no Haiti, onde tem mais de 1,200 soldados.

Apesar de todas as conquistas do Brasil ao sair na frente da Venezuela na América Latina, Lula se recusa a ser rotulado como o líder da região.

"Nós não estamos procurando um líder na América Latina", ele disse em setembro. "Não precisamos de um líder. Eu não estou preocupado em ser o líder de nada. O que eu quero é governar meu País bem..."

Por SIMON ROMERO e ALEXEI BARRIONUEVO

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