Presidente de Honduras deposto recebe forte apoio internacional

TEGUCIGALPA - Manuel Zelaya estava perto de entrar para os livros de história de Honduras como o ex-presidente com ideias tão grandes quanto a marca Stetson de seu chapéu, mas nada próximo o suficiente do consenso político para refazer esse país problemático.

The New York Times |

Então, ele foi deposto de seu cargo, e saiu do papel de um líder mal e tolo para um nível de proeminência internacional, que ele provavelmente nunca teria tido antes. Isso tornou-o um símbolo ¿ desmerecido, insistem seus diversos críticos ¿ de um presidente cujo mandato democrático lhe foi tirado.

Nesta terça-feira, a descoberta da relevância de Zelaya o conduziu a um dos maiores palcos mundiais, o púlpito da Assembleia Geral da ONU, onde retratou a si mesmo como uma vítima da crueldade, da elite sedenta de poder, que se recusou a dividi-lo com os muitos pobres de seu país.

Um crime foi cometido, um crime contra a humanidade, um crime o qual todos nós rejeitamos, disse ele. Sempre que forças brutas prevalecerem em detrimento da razão, a humanidade retorna a seu estágio primitivo, a era do estrangulamento, onde tudo é reduzido a força.

Uma resolução de uma página ¿ financiada por países frequentemente idiotas, incluindo os EUA e a Venezuela ¿ aprovada com aplausos após mais aplausos dos 192 integrantes do corpo. O documento condena a deposição de Zelaya como um golpe e exige sua restauração imediata e incondicional como presidente.

Em seguinda, Zelaya foi à Organização dos Estados Americanos, em Washington, e a um encontro, no Departamento de Estado, com Thomas A. Shannon Jr., assistente da secretária de Estado. Não havia planos para se encontrar com o presidente Barack Obama, que pediu sua volta ao poder, mas um oficial da administração não rejeitou a possibilidade de um encontro.

População hondurenha

Apesar disso, quanto a seu lar, o país está dividido com sua deposição ¿ e seus registros. Milhares de seus oponentes denunciaram-no, nesta terça-feira, como ditador, que planejou ilegalmente a subversão da constituição quanto ao final do limite do primeiro mandato dos presidentes.

No dia anterior, os apoiadores de Zelaya o elogiaram como um presidente da classe operária, que pretendia aumentar o salário deles, como também o poder político. Ele falou da construção de uma nova Honduras, com o crime e a corrupção sob observação e um padrão melhor de vida para as massas, embora sua administração não tenha chegado a fornecer isso.

Espera-se que esse golpe amargo contra Zelaya alcance um desfecho na quinta-feira, quando ele deve voltar ao país para retomar a presidência que lhe foi tirada, após soldados atacarem sua casa durante a madrugada de domingo e o mandaram em um avião presidencial para a Costa Rica.

Durante uma coletiva de imprensa na ONU, Zelaya disse que inúmeros outros líderes lhe ofereceram escoltá-lo para casa, incluindo Miguel d´Escoto Brockmann, de Nicarágua, presidente da Assembleia Geral; a presidente Cristina Fernandez Kirchner da Argentina, o presidente Rafael Correa do Equador; e Jose Miguel Insulza, o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos.

Ameaças

O presidente interino nomeado pelo congressista hondurenho, Roberto Micheletti, ameaçou Zelaya de prisão caso retornasse, dizendo que ele desafiou ilegalmente a Corte Suprema ao forçar um referendo que mudasse a constituição. Alberto Rubi, procurador-geral, disse nesta terça que as acusações incluem traição e abuso de autoridade, o que poderia colocar Zelaya atrás das grades por ao menos 20 anos.

O novo ministro do Exterior no cargo, Enrique Ortez, foi mais longe em uma entrevista na televisão, acusando Zelaya de permitir traficantes de drogas a usarem Hondura como base para contrabandear cocaína da América do Sul para os EUA, uma acusação que Zelaya chamou de uma história exagerada para caluniá-lo.

Retirando a noção de que a deposição do presidente foi um golpe, Micheletti apareceu na terça em um comício, para dizer que as eleições continuariam a ocorrer em novembro e que o novo presidente tomaria posse em janeiro, quando Zelaya seria forçado a sair do cargo. Entregaremos o poder presidencial a quem o povo escolher, disse ele.

Um dos maiores assistentes de Zelaya, Enrique Flores Lanza, disse que o retorno do presidente colocaria o exército a postos, forçando os soldados a permitir o homem reconhecido por governos mundiais com o verdadeiro presidente de Honduras a voltar ou prendê-lo. Seja o que decidirem, de acordo com Flores, haverá grandes multidões de seguidores de Zelaya no aeroporto, para saudá-lo.

Flores falou de uma casa abandonada na capital hondurenha, onde ele concordou em encontrar, após uma série de telefonemas clandestinos, as medidas que ele considera necessário em sua busca para evitar a prisão.

Outro ministro do governo deposto estava escondido da mesma forma, embora ele tenha dito que o próprio Micheletti ligou em seu celular para dizer que ninguém o perseguia. Até que ele recebesse isso por escrito, o ministro disse que ficaria em silêncio.

Mandato

Muito permanece em discussão no país. Zelaya, que tomou posse em 2006, se moveu persistentemente para a esquerda durante sua presidência, levantando-se com frequência contra as elites hondurenhas, a qual ele diz se opor à sua política de inclusão.

Os críticos acusam Zelaya, que vem de uma rica família proprietária de terras, de um populismo grosseiro e de distribuir dinheiro para tentar solidificar uma instável base política.

Estou bem com o aumento do salário mínimo, mas o aumentou mais de 50% de um dia para outro, e os empresários tiveram de cortar a folha de pagamento devido a esse salto repentino, disse Fernando Castillo, negociador de bens imobiliários que se ocuparam de protestos contra Zelaya, nesta terça. Ele acabou prejudicando os pobres.

Zelaya gastou a maior parte de seu mandato fazendo o tipo de sessões de conversa rurais com eleitores, que o presidente Hugo Chavez tornou popular na Venezuela. É a relação próxima de Zelaya e Chávez, primeiro ao adotar ligações econômicas e, então, seguindo aspectos de um modelo político, que causou um alarme entre muitos hondurenhos ricos e de classe média.

Ele mudou, disse Juan Ferreira, que fez parte do governo anterior de Zelaya. Ele se tornou outra pessoa.

O apoio público do presidente deposto estava caindo, e havia um debate sobre se ele teria ganhado o referendo planejado, mesmo se o Congresso e os tribunais permitissem a votação. Mas seus oponentes decidiram agir primeiro, uma decisão que alguns analistas veem como um erro de cálculo.

Se eles tivesse deixado acontecer, seria fácil pará-lo, disse John Carey, um especialista em política da América Latina da Universidade de Dartmouth. Ele parece ter despertado a única coisa que poderia salvá-lo.


Por MARC LACEY


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