Presidente da Nicarágua se apropria da mídia nacional

Para analistas, controle de Daniel Ortega e sua família sobre a imprensa o ajudou a conseguir terceiro mandato

The New York Times |

A eleição de novembro na Nicarágua, na qual o presidente Daniel Ortega conquistou um terceiro mandato e uma maioria absoluta no Congresso, pode ter sido marcada por irregularidades. A missão eleitoral da União Europeia chamou o resultado da votação de "opaco e arbitrário" e os observadores foram impedidos de monitorar algumas urnas, as coisas parecerem diferentes na maioria dos canais de notícias locais.

Vídeos de apoiadores de Ortega acenando bandeiras nas ruas e disparando fogos de artifício caseiros tomaram conta das telas. Uma âncora de televisão chamou a eleição de uma "vitória retumbante", à medida que as festividades eram veiculadas ao som do hino do partido, uma recriação da música "Stand by Me", usada apesar da alegação de violação de direitos autorais feita pela da Sony. "A Nicarágua é livre e quer apenas empregos e paz", diz o refrão.

As imagens de júbilo refletem uma das maiores realizações de Ortega nos cinco anos desde que voltou ao poder: seu rígido controle sobre a imprensa.

AFP
O presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, durante comício em setembro

Ele reforçou o investimento nos tradicionais veículos do Partido Sandinista como a rede de televisão Multinoticias e Rádio Ya, ao mesmo tempo em que cortou a publicidade do governo em canais não-sandinistas. O ex-revolucionário agora controla quase metade das emissoras da televisão da Nicarágua: seus filhos são responsáveis pelo Multinoticias e pelos Canais 8 e 13, e o Canal 6 é estatal. Ele também abriu dois sites de notícias.

Analistas políticos dizem que o poder da mídia tem dado a Ortega uma ferramenta para desacreditar os críticos, e que a exposição positiva o ajudou a ganhar 63% dos votos, de acordo com dados oficiais, um aumento significativo em relação aos 38% registrados em 2006.

"Houve uma mudança fundamental na imagem de Ortega ao longo dos últimos cinco anos, e pode-se argumentar que entre os fatores que contribuíram para isso está a sua maior presença na mídia", disse Arturo Cruz, um analista político da Escola de Administração INCAE, que serviu como embaixador da Nicarágua em Washington no segundo mandato de Ortega.

Aliados de Ortega são responsáveis pelo conselho eleitoral (que supervisiona as eleições) e dominam os tribunais de justiça, e a eleição deste mês quase dobrou o número de cadeiras de seu partido no Congresso, agora totalizando 62, uma maioria suficiente para reescrever a Constituição e mudar os limites da reeleição que ele já questionou no Judiciário.

Com a mídia agora como um dos últimos bastiões da oposição, segundo Robert J. Callahan, que deixou seu cargo de embaixador nos Estados Unidos em julho, a crescente influência da família de Ortega lembra a forma como Anastasio Somoza usou o nepotismo para controlar a economia antes dos sandinistas de Ortega derrubem sua ditadura, em 1979.

"Os nicaraguenses chamam isso de 'Somozismo sem Somoza'", disse Callahan, usando um termo que se refere ao estilo de governar através de favoritismo adotado por Somoza.

A porta-voz de Ortega, que é sua mulher, Rosario Murillo, não respondeu a um pedido de comentário.

Ortega disse que os "oligarcas" da direita ainda tem grande poder sobre a mídia, apesar de seus avanços. "As forças do capitalismo selvagem têm estações de TV e um monopólio sobre os jornais", disse ele em um discurso em março.

Ele teve menos sucesso em conquistar o controle de jornais, que têm uma audiência menor do que a TV e o rádio, especialmente entre a metade da população da Nicarágua que vive na pobreza e aqueles que lutam contra o analfabetismo.

Mas não foi por falta de tentativa. A mulher de Ortega tentou comprar partes do El Nuevo Diario, um dos maiores jornais do país, depois de cortar a publicidade do governo no veículo, que era responsável por um quarto da sua receita publicitária. Negociações fracassaram quando outro comprador entrou na briga.

Muitos suspeitam que ajuda venezuelana está por trás da tomada sandinista da mídia local. O gerente da Albanisa, uma joint venture entre as companhias estatais de petróleo da Nicarágua e da Venezuela, foi enviado de volta à Venezuela depois que disse a repórteres que a empresa havia comprado o Canal 8 no ano passado por US$ 10 milhões. A empresa negou os comentários. O rastreamento do dinheiro venezuelano é difícil porque Ortega se recusou a incluir um pacote de ajuda venezuelano de cinco anos e US$ 1,6 bilhão no orçamento, que passaria pela supervisão do Congresso.

Os veículos de Ortega o retratam em uma luz que é benigna, ou pelo menos inócua. Quando Ortega votou, repórteres não-sandinistas foram isolados, enquanto os de canais como o Multinoticias puderam participar e fazer perguntas.

Em veículos favorecidos pelos sandinistas, a primeira-dama divulga comunicados poéticos e relatos exclusivos debocham dos críticos de Ortega. Uma notícia mostrou que os adversários feministas de uma proibição ao aborto apoiada por Ortega foram pegas dirigindo bêbadas depois de uma festa na praia. Manchetes descrevem seus rivais políticos como "parasitas" e "promotores da morte”.

Jornalistas não-sandinistas podem enfrentar ameaças pela sua cobertura do governo. A jornalista Silvia Gonzalez fugiu do país em setembro, dizendo que havia recebido ameaças de morte depois de relatar para o El Nuevo Diario que soldados podem ter matado um rebelde que se opunha à reeleição de Ortega no norte da Nicarágua.

A família Chamorro, inimigos de longa data de Ortega, passou por escrutínio pesado na mídia.

O Chamorros são donos do El Nuevo Diario e do La Prensa, e a ex-editora do La Prensa, Violeta Chamorro, derrotou Ortega na corrida presidencial de 1990. O governo de Ortega investigou o filho mais novo de Chamorro, Carlos Fernando, com acusações de lavagem de dinheiro e comprou no ano passado a estação de televisão que veiculava o seu programa "Esta Semana", que muitas vezes investigava denúncias de corrupção sandinista.

Na busca por um outro canal para transmitir seu programa, Chamorro descobriu que outros veículos - incluindo aqueles pertencentes a Angel Gonzalez, um magnata da mídia mexicana cujas estações são conhecidas por tratar o governo de maneira gentil - não o aceitaram.
O Canal 12 concordou em veicular o programa. "Existem veículos que não são controlados pela família Ortega, mas no entanto são coniventes com eles", disse Chamorro, uma ex-sandinista que se tornou jornalista depois que homens armados de Somoza assassinaram seu pai, o editor do La Prensa, em 1978. "Todos os espaços para o jornalismo crítico estão diminuindo drasticamente na Nicarágua."

Por Blake Schmidt

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