Presidente ainda tem de cumprir promessas a sul-africanos

Jacob Zuma estimula as esperanças dos despossuídos, mas ainda não oferece a vida melhor que a população da África do Sul deseja

The New York Times |

O presidente Jacob Zuma, filho de uma empregada doméstica viúva, tentou argumentar com a barulhenta multidão na inquieta cidade de Siyathemba, na África do Sul. Ele estava ali para consertar seus falidos serviços públicos, garantiu, mas o povo continuava a rejeitá-lo.

Por fim, como um patriarca irritado, ele os repreendeu e ameaçou partir. "Isso significa que vocês viverão para sempre na pobreza", alertou. "Se não ouvirmos uns aos outros, como poderemos consertar qualquer coisa?"

De repente, a multidão se aquietou. Houve um coro de desculpas. Uma voz gritou, "Desculpe, Baba!" Então, todos pediram que o presidente cantasse sua famosa música de protesto ao apartheid, "Bring Me My Machine Gun" (Traga-me Minha Metralhadora, em tradução livre).

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População comemora presença de presidente sul-africano, Jacob Zuma, em estádio no município de Siyathemba
"Vocês querem?", ele perguntou. "Sim!", eles gritaram. E, como um velho artista famoso que agrada a multidão com um sucesso antigo, Zuma, de 68 anos, cantou e dançou sobre o palanque.

O momento registrou a promessa e o potencial não realizado de Zuma, que estimulou esperança entre os pobres, mas ainda não ofereceu a vida melhor que prometeu. Apesar de persistentes acusações de corrupção e da mancha de casos extraconjugais, ele é um sobrevivente político que chegou ao poder para liderar a maior potência do continente africano e logo estará no centro dos holofotes mundiais conforme a África do Sul sedia sua primeira Copa do Mundo.

Com sua risada solta e o hábito de dançar no palanque, Zuma tem o dom de se conectar com a maioria negra e pobre do país, que está impaciente para a vida melhor prometida com a chegada da democracia, há 16 anos. "Nunca vi um presidente na África em diálogo direto com seus cidadãos como Zuma", disse Zakhele Maia, de 26 anos, ativista de Siyathemba que, como a maioria das pessoas desse município, está desempregado.

Mas essa conexão não reprime o descontentamento. Após uma visita anterior no ano passado, Zuma ordenou que o governo melhorasse o sistema de saúde e moradia do município, mas a frustração continuou a aumentar. Em fevereiro, os moradores queimaram a biblioteca. Os livros agora não passam de restos de cinzas, a biblioteca é uma pilha de escombros.

Após o primeiro de seus cinco anos de mandato, Zuma recentemente assinou contratos de desempenho com os seus ministros, que estabeleciam resultados concretos que devem atingir. Mas os analistas incentivam a ação, não aspirações, em relação aos principais problemas da África do Sul: um sistema educacional fracassado, alarmantes níveis de desemprego e o aumento da desigualdade entre ricos e pobres. Já há especulação aberta sobre a possibilidade de seu partido, o Congresso Nacional Africano (CNA), no poder desde o fim do apartheid, escolhê-lo para um segundo mandato.

"Até 2013, a pergunta será: Quem vai governar depois de 2014?", disse Trevor Manuel, que dirige a Comissão de Planejamento Nacional no gabinete de Zuma e foi ministro das Finanças nos últimos 13 anos. "E o período intenso tem de ser 2011, 2012, até 2013. Esses são os anos do prazo médio de governo, e acho que a base já foi criada (para ação). Agora é preciso fazer mudanças."

O estilo de Zuma, altamente pessoal e construído à base de consenso, ajudou-o a conduzir importantes novos ataques à aids quase uma década depois do fracasso da liderança de seu antecessor, Thabo Mbeki. Mas mesmo alguns políticos de seu partido dizem que lidar com os profundos problemas econômicos da nação provavelmente exigirá controvérsias com aliados que o ajudaram a chegar ao cargo, especialmente a Cosatu - poderosa federação sindical que faz parte da aliança governamental - e a ala jovem do partido CNA (conduzida pelo incendiário Julius Malema, de 29 anos, considerado por muitos como um demagogo que usa antagonismos de raça; recentemente ele foi obrigado pelo partido a fazer aulas de controle de raiva).

O ressentimento existe. O número de desempregados cresceu em mais de um milhão nos últimos 18 meses e a África do Sul, com sua população de 49 milhões, já tinha uma das mais altas taxas de desemprego crônico do mundo. Mais de um terço da força de trabalho, incluindo aqueles desencorajados demais para procurar emprego, está desempregada. Estudos revelaram que a maioria dos desempregados nunca sequer teve um trabalho.

Zuma anunciou em fevereiro que propostas seriam apresentadas para subsidiar os salários dos trabalhadores inexperientes para ajudar os iniciantes. Mas a Cosatu, ou Congresso dos Sindicatos da África do Sul, que representa aqueles que já têm postos de trabalho, opõe-se à ideia - e o debate no seio do governo continua.

Outro ponto da tensão é a educação. No ano passado, Zuma disse que professores e diretores - cujo sindicato também é parte da Cosatu - devem ser responsabilizados por comparecer ou não para fazer o seu trabalho. Em uma entrevista, Zuma reiterou a necessidade de tal medida e disse que ela será tomada até ao final do seu segundo ano de mandato. "Nenhum professor se esconderá atrás da escola", disse.

Mas críticos questionam se Zuma tem o apoio necessário para dar andamento a essas difíceis decisões, a visão para comandar os intimidantes desafios do país ou a posição para acabar com a corrupção. Os temores foram aprofundados quando foi revelado que Zuma, que já teve três mulheres e uma noiva, havia concebido uma criança, sua vigésima, fora do casamento com a filha de uma família amiga.

"O maior perigo que enfrentamos como país é o uso do gabinete para benefício pessoal e isso está acontecendo de maneira natural e ninguém está sendo preso", disse Mondli Makhanya, editor do jornal cujo repórter revelou a história sobre o filho de Zuma, o The Sunday Times. "Ele não tem força de liderança neste momento para se voltar contra pessoas que o apoiaram, e ele não tem autoridade moral para dizer, 'Não, você não pode fazer isso'."

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Presidente sul-africano, Jacob Zuma (centro), dança em cerimônia religiosa em Zamdela
Mais fundamentalmente, fazer escolhas que dividiriam a aliança governante vai contra os instintos de Zuma, que é um tradicionalista africano que procura pôr fim aos conflitos reunindo sua coligação sob uma metafórica árvore para debater ao longo de dias e semanas até que se chegue a um consenso, disse Allister Sparks, comentarista veterano do país. "A ação morre no processo de eterno debate", disse Sparks.

Manuel, o antigo ministro das Finanças, afirma que o estilo do presidente é manter todos na tenda, recordando seus esforços em mediar uma complexa guerra civil em Burundi. "Ele se senta em Dar es Salaam por dezenas de dias, e tem a mais notável paciência para fazer esse tipo de coisa", disse Manuel.

"Então talvez ele precise da ajuda dos ministros que vão tentar fazer as coisas." Sobre questões que incluem a prestação de contas dos professores, Manuel disse: "Instintivamente, tomaria uma postura muito mais firme em algumas dessas questões."

A resistência política de Zuma não pode ser subestimada. Após uma década como um prisioneiro político, ele passou a conduzir a inteligência secreta do CNA durante o processo de luta contra o apartheid. Como presidente, colocou pessoas leais em importantes cargos da polícia e procuradoria, o que torna pouco provável que seja acusado de corrupção.

Em uma entrevista, contou uma história que sugeriu as raízes do cálculo frio por trás do seu estilo amável. "Se você está irritado, não pode pensar direito e os outros meninos vão bater em você", disse sobre quando aprendeu a lutar com meninos zulus. "Você precisa estar centrado para que possa se defender e também machucar o outro."

Conforme o debate sobre Zuma continua, o homem se diverte no palanque. Ele recentemente se deleitou com a adulação de uma grande multidão reunida em um estádio do Estado Livre para uma oração pela Copa do Mundo, patrocinada pelo CNA. O evento foi uma mistura de esporte, religião e política que não estaria fora de lugar no Texas.

Milhares de fiéis faziam barulhos com os lábios em homenagem a Zuma e a seleção sul-africana, conhecida como Bafana Bafana. "Viva Jacob Zuma", gritou um homem. "Viva!", respondeu a multidão. Um pequeno sorriso relampejou pelos lábios de Zuma quando o governador do Estado Livre afirmou: "Não estamos falando em sucessão. Estamos afirmando que o presidente deveria ser presidente novamente e novamente e novamente!"

Dignitários brancos subiram ao palanque. Uma bandeira da África do Sul foi colocado no chão. Zuma se ajoelhou sobre ela e os pastores colocaram as mãos sobre sua cabeça. As pessoas se reuniram ao redor e ergueram as mãos a Deus, em uma imagem de harmonia racial.

"Vamos receber os nossos visitantes de modo carinhoso e com amor", Zuma disse sobre o campeonato mundial. "Vamos acolhê-los." E, de maneira travessa, acrescentou: "Aqueles que nem sempre são bons, que o façam por apenas quatro semanas."

* Por Celia W. Dugger

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