Preocupada com agitação no Egito, China censura a rede

Principais sites chineses bloqueiam buscas da palavra 'Egito'; jornais citam confusão sem falar de protestos contrários ao governo

The New York Times |

Em outra época, os líderes da China teriam permitido que os debates sobre os protestos no Egito flutuassem entre os seus cidadãos até que desaparecessem.

Mas os desafios a governos autoritários ao redor do globo e as violentas revoltas da própria China nos últimos anos tornaram as autoridades chinesas cada vez mais receosas de deixar tal debate acontecer livremente, especialmente na internet, meio que alguns oficiais veem como essencial para atiçar o fogo da agitação.

Por isso, os árbitros do discurso entraram em ação no fim de semana. O Sina.com e o Netease.com - dois dos maiores portais do país – bloquearam buscas da palavra ''Egito", apesar dos protestos em massa estarem sendo discutidos em algumas salas de bate-papo na segunda-feira. O uso da palavra "Egito” também foi bloqueado no Weibo, o equivalente chinês do Twitter.

A censura na internet não é uma abordagem única. O governo chinês também tentou sair à frente da discussão, falando sobre os protestos egípcios em poucos editoriais e artigos publicados em veículos de notícias controlados pelo Estado como um caso caótico que revela as armadilhas de se tentar plantar a democracia em países que ainda não estão prontos para ela – uma linha mantida há muito tempo pelos líderes da China.

Algumas organizações de notícias chinesas também aproveitaram a reação ambivalente dos Estados Unidos sobre a agitação no Egito para ressaltar a hipocrisia do país em apoiar os ditadores, por vezes, contra a democracia. Eles argumentaram que aqueles que parecem ser os maiores defensores da democracia, por vezes, têm sentimentos conflitantes sobre a sua disseminação, especialmente no Oriente Médio, onde os Estados Unidos temem a proliferação populista do islã radical. O jornal China Youth Daily observou em um editorial no domingo que ''a crise no Egito está causando uma ‘dor de cabeça' crescente para quem toma as decisão em Washington”.

Algumas das cobertura de notícias do Egito, que tem aparecido no People's Daily, o principal jornal do Partido Comunista, e na Xinhua, a agência de notícias oficial, tem sido centrada nas tentativas da China em retirar seus cidadãos do país, simplesmente deixando de fora o descontentamento político na raiz da agitação. Xiao Qiang, professor adjunto da Universidade da Califórnia, Berkeley, e um especialista em censura à internet na China, disse que os oficiais da propaganda ordenaram recentemente que organizações de notícias e sites chineses sigam rigorosamente a Xinhua ao relatar os acontecimentos no Egito.

Mas Xiao disse que alguns fóruns na internet têm acompanhado de perto os acontecimentos no Egito. ''Eu consigo ver a história do Egito ser acompanhada e discutida pelos internautas ativos em todo lugar – blogs, fóruns, redes sociais como Kaixin e RenRen", disse ele. "A informação só não está na primeira página dos sites mais importantes”.

Esforços

Os esforços das autoridades chinesas em censurar e moldar as notícia na internet têm evoluído ao longo dos últimos anos, conforme elas lidaram com os distúrbios no Tibete em 2008 e os protestos contra a Tocha Olímpica. As autoridades iniciaram uma operação contra a pornografia e outras “informações prejudiciais'', incluindo o fechamento de um fórum liberal muito popular, logo após o lançamento da Carta 08, um manifesto online pedindo reformas democráticas graduais que reuniu milhares de assinaturas por email.

Mas os controles sobre a internet aumentaram no fim de 2009, quando os oficiais observaram como sites de redes sociais e outros fóruns ajudaram a inflamar protestos e distúrbios independentes no Irã e em Xinjiang, a região rebelde no oeste da China.

Em um artigo de agosto de 2009 sobre os protestos no Irã, um jornal mensal publicado pelo departamento de propaganda central alertou para o desafio representado por sites como o Twitter e o Facebook, que as autoridades haviam bloqueado dias após os distúrbios em Xinjiang. Em janeiro de 2010, após a secretária de Estado Hillary Rodham Clinton anunciar uma nova política Americana para combater a censura online no exterior, um editorial publicado pelo Diário do Povo denunciou os Estados Unidos por usar a internet – YouTube e Twitter, em particular – para atiçar uma 'guerra online” contra Mahmoud Ahmadinejad, o presidente iraniano.

A influência da internet sobre os voláteis eventos no Irã e em Xinjiang ''impactou a liderança como um terremoto”, disse um investidor em mídia com elos de alto nível com as entidades reguladoras da China, que falou sob a condição de anonimato por medo de danificar essas relações.

Impulso

O fato de sites de redes sociais terem impulsionado os protestos no Egito, sem dúvida irá estimular os oficiais chineses a continuar analisando tais sites. E eles podem estar certos de prestar atenção: Zhao Jing, um blogueiro liberal chinês que atende pelo nome de Michael Anti, disse que ''foi surpreendente ver que os internautas no Twitter se preocupavam tanto com o Egito” que muitos começaram a traçar um paralelo entre o país e a China. O presidente Hosni Mubarak do Egito estava sendo chamado de Muxiaoping, uma referência a Deng Xiaoping, que reprimiu os protestos de 1989, em Pequim, enquanto a Praça Tahrir, no Cairo, estava sendo comparada à Praça da Paz Celestial.

No entanto, existem intelectuais em Pequim descrentes de quaisquer protestos similares acontecerem na China, principalmente porque a dinâmica economia do país tem dado esperança de uma vida melhor a muitos chineses. ''Eu não acho que a divulgação de tais notícias poderia causar distúrbios na China", disse Jia Qingguo, reitor adjunto de relações internacionais na Universidade de Pequim. "O Egito vive um outro tipo de regime político. Também não são um país socialista e têm seus próprios problemas”.

*Por Edward Wong e David Barboza, com colaboração de Jonathan Ansfield e Chen Xiaoduan

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