Pré-candidatos republicanos mantêm relacionamentos complicados

Debates e bastidores revelam amizades e ressentimentos entre nomes do Partido Republicano que disputam candidatura à presidência

The New York Times |

Momentos antes do início de um recente debate na Faculdade de Dartmouth, no Estado de New Hampshire, os pré-candidatos republicanos à presidência Mitt Romney e Herman Cain escancararam as portas de suas minúsculas salas de preparação e encontraram Newt Gingrich.

"Oh, meu Deus", disse Gingrich maravilhado. "Vejo a cédula impressa diante dos meus olhos."

E acrescentou, em tom de piada: "Só não sei como você vai se sentir como vice-presidente, governador Romney”.

Tratava-se de uma brincadeira entre amigos? Zombaria? Ou Gingrich estava mesmo atacando Romney, contra quem ele está agora lutando pela vitória, segundo as pesquisas?

Seja em momentos privados como este, narrado por uma testemunha, ou na frente de milhões de telespectadores em debates, os candidatos se encontram com anos de história comum, relações - ou rancores - subjacentes.

AP
Mitt Romney (esq) e Rick Perry participam de debate entre pré-candidatos republicanos à presidência dos EUA (07/09)

Então, nem sempre acredite no que você vê. Os políticos são políticos, e seu charme muitas vezes é mais influenciado pela conveniência e pela ambição do quê pela amizade verdadeira. Mas saber como os candidatos se relacionam entre si pode oferecer pistas sobre o futuro - especialmente se um deles for eleito presidente.

Em 2007 o senador Joe Biden disse que o então senador Barack Obama ainda não estava pronto para a presidência. Um ano mais tarde, Obama pronunciou os dois grandes amigos na Comissão de Relações Exteriores e o escolheu como seu companheiro de chapa. Será que aquela escolha foi baseada na amizade, em cálculo político ou em algum tipo de combinação entre os dois?

Veja uma análise sobre os relacionamentos republicanos:

Perry e Hunstman: amigos de verdade

Quando esperavam para subir ao palco de um debate em um Washington na semana passada, o governador do Texas, Rick Perry, apareceu na sala de preparo de Jon M. Huntsman Jr. com algumas palavras de encorajamento. "Vamos, rapaz!", gritou Perry.

Perry e Huntsman são talvez mais próximos do que os outros candidatos. Eles se conheceram quando Huntsman, ex-governador de Utah, liderou a Associação de Governadores do Ocidente. Eles trabalharam juntos em questões como o fornecimento de água e a segurança das fronteiras, muitas vezes jantando e convivendo em reuniões da associação.

Uma vez no palco, a sua camaradagem era percebida durante os comerciais. No terceiro intervalo Perry foi até Huntsman e acariciou sua barriga. Então, os dois homens se abraçaram e caminharam pelo local.

Gingrich: o amigo de todos

Como presidente da Câmara, Gingrich ficou conhecido como uma das figuras mais polêmica de Washington. Mas talvez por ter mantido uma posição de proeminência no partido por muito tempo, ele parece ter desenvolvido relacionamentos com todos os candidatos. Ele desempenha o papel de professor, muitas vezes devolvendo as perguntas dos moderadores dos debates ao invés de atacar seus colegas republicanos.

Gingrich, aliás, chegou a escrever o prefácio ao livro de Perry: "Fed Up!" Ele também conhece o ex-senado Rick Santorum, da Pensilvânia, há duas décadas e trabalhou com ele no Congresso na reforma da previdência. Ele e Romney muitas vezes se encontraram socialmente com suas mulheres.

Cain, que era um empresário em Atlanta quando Gingrich era um congressista da Geórgia, é talvez o candidato mais próximo a ele. Quando Cain chegou a Washington como lobista da Associação Nacional de Restaurantes, em 1996, Gingrich estava apenas começando sua ascensão como presidente da Câmara.

No debate mais recente, em Washington, os dois homens fizeram piadas privadas quando os outros candidatos estavam falando. Sua amizade tem se revelado politicamente conveniente a Cain, que muitas vezes luta com questões de política de peso e tem, por vezes, usado Gingrich como referência.

Em um debate no início do mês, quando Gingrich terminou uma resposta, Cain disse, aos risos: "Neste momento tenho um minuto para discordar de algo que ele disse, mas não discordo."

Romney: não mais um “outsider”

Na disputa republicana há quatro anos, Romney se viu condenado ao ostracismo e ignorado em meio a um grupo de senadores e falcões da segurança nacional liderado pelo senador John McCain. Apesar de agora ser visto por muitos como o candidato a ser vencido, ele não é mais o homem ímpar, de fora. Em debates, Romney faz questão de apertar as mãos de todos quando se preparam para subir ao palco.

"Ao contrário da última vez, ele se sente mais perto de todos na multidão", disse Ron Kaufman, um assessor de Romney. No entanto, alguns amigos-inimigos - comumente apelidados de frenemies, um cruzamento entre as palavras amigo e inimigo em inglês - permanecem.

Não é nenhum segredo que há pouco amor entre Perry e Romney, o ex-governador de Massachusetts. Embora eles tenham atuado como governadores ao mesmo tempo, Perry não endossou Romney em sua campanha presidencial há quatro anos, uma afronta que Romney não esqueceu. E Perry, um ex-escoteiro, continua irritado com o que ele acredita ter sido uma recusa de Romney de deixar os escoteiros participarem das Olimpíadas de Salt Lake City, em 2002.

Além disso, quando Perry entrou na disputa, ele o fez como uma alternativa clara a Romney, contra quem os conservadores permaneceram hesitantes.

Em um debate na Califórnia em setembro, a estreia de Perry no palco da campanha, houve mais espera do que o habitual e os candidatos foram divididos em pequenos grupos. Perry e Romney se olharam com cautela, marcando seu território a cada passo.

Há também pouco calor entre Romney e Huntsman, ambos filhos de famílias ricas e mórmons. Quando Romney concorreu à presidência em 2008, Huntsman endossou seu rival, McCain, uma afronta que ainda é sentida. Agora, os dois homens são educados um com o outro, oferecendo e aceitando apertos de mão e nada mais.

Romney e Pawlenty: o amigo saudoso

O verdadeiro amigo de Romney é Tim Pawlenty, o ex-governador de Minnesota que não está mais na disputa. Mas só porque os dois homens são próximos não significa que eles estavam acima de uma dose saudável de jogos mentais.

Em um debate na Faculdade de St. Anselm, em New Hampshire, assessores de Pawlenty planejaram um ataque particularmente pungente a Romney – usar o rótulo de "Obamneycare" para sugerir que o plano de saúde implementado em Massachusetts por Romney havia inspirado uma revisão semelhante por Obama.

Mas, intencionalmente ou não, Romney pode ter feito um ataque precoce na sala de preparo. À espera de subir ao palco, ele cumprimentou Pawlenty como o bom amigo que é, desejando-lhe calorosamente sorte no debate. Pawlenty nunca usou sua estratégia depois disso e mais tarde seus assessores disseram que, no futuro, ele preferirá passar menos tempo misturando-se com seus adversários antes dos debates.

Santorum e Hunstman: companheiros no frio

Nada une dois candidatos como estar nas últimas posições. Santorum e Huntsman têm lutado tanto pela atenção da mídia quanto pela atenção do eleitor, e durante os debates eles são muitas vezes relegados para a periferia do palco, recebendo menos perguntas e tempo para responder do que os seus colegas candidatos.

"Pode ser um pouco solitário aqui na Sibéria de vez em quando", brincou Huntsman de uma extremidade do palco em debate recente na Carolina do Sul. "E eu não sei?", respondeu Santorum, do outro lado.

Na maioria dos debates, quando um candidato usa o nome de um concorrente, o rival então tem 30 segundos para responder; Huntsman e Santorum têm brincado de mencionar um ao outro em suas respostas, em um esforço para conseguir mais tempo na telinha.

Mas isso sempre funciona? "Não, nem sempre", disse Santorum com uma risada.

O calor dos debates também pode ter o efeito não intencional de forjar camaradas até mesmo entre os “frenemies” mais fervorosos.

Quando Perry teve seu famoso "deslize" - quando teve dificuldade em citar o nome da terceira agência do governo que eliminaria - foi Romney quem o ajudou, sugerindo a Agência de Proteção Ambiental. Depois, Romney explicou a um assessor que ver Perry falhar no palco foi como assistir a um acidente de carro: ele só queria tirá-lo do carro o mais rápido possível.

No debate seguinte, Perry ainda foi capaz de fazer piadas sobre o seu acidente de memória. "Se hoje eu precisar de uma tábua de salvação, esó vou olhar para você, OK?", disse ele a Santorum, rindo.

Por Ashley Parker

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