Poucos líderes do Taleban aceitam mudar de lado no Afeganistão

Há estimados 40 mil militantes da milícia islâmica no país asiático, mas apenas 1,7 mil desertaram do grupo

The New York Times |

Toor Jan, que costumava matar americanos e canadenses no Afeganistão, não quer muito do governo afegão. Uma casa. Um trabalho. E, sim, oito guardas de segurança.

Ele precisa deles. Como um dos poucos comandantes da milícia islâmica do Taleban que mudaram de lado, ele é um alvo fácil. Em uma rara entrevista, o homem de 28 anos, alto, magro e de barba preta, é sombrio sobre o passo que tomou, embora seja uma das histórias de sucesso do maior e mais bem financiado programa de paz do governo, que tem o objetivo de trazer combatentes do Taleban para o lado do governo, minando a força da insurgência.

"Quando decidi mudar de lado, estava farto de lutar", disse. "Não posso mais puxar o gatilho. Estou cansado disso.”

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Toor Jan, um dos poucos comandantes do Taleban que mudaram de lado no conflito, conversa com vizinhos em Kandahar, Afeganistão
A mudança de Toor Jan pode representar um sinal de esperança para o plano do governo de reintegrar os membros do Taleban na sociedade afegã –, mas também é uma raridade. Dos 1,7 mil combatentes que se inscreveram no programa de dez meses de idade, apenas um punhado é composto de comandantes de nível médio e dois terços são do norte, onde a insurgência é muito mais fraca do que no sul, disse o major general Phil Jones, diretor de uma unidade da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) que acompanha o programa.

Esse total é apenas uma fração dos 20 mil a 40 mil militantes do Taleban, e muitos dos insurgentes que têm aproveitado o programa podem nem mesmo ser do Taleban, apenas homens com armas.

Mas os governos ocidentais estão comprometidos com o plano. Ele é bem financiado, com algo entre US$140 milhões e US$150 milhões prometidos por governos ocidentais, em grande parte pelos EUA e Japão, já nas contas do Afeganistão, segundo um oficial militar ocidental.

O dinheiro fornece uma pequena bolsa de curto prazo para os militantes que mudam de lado e depois recompensa suas comunidades com generosos programas de desenvolvimento e trabalho – em vez de distribuir dinheiro ou empregos para os lutadores. Os incentivos foram projetados para prevenir abusos de programas anteriores, em que os insurgentes se mudaram de lado com as estações, coletando dinheiro no inverno para em seguida retomar a luta na primavera ou no verão.

Jones disse que o programa tem crescido mais lentamente no sul e leste, porque muitos insurgentes temem que, se abandonarem as armas, o Taleban se vingue neles ou em suas famílias. Os líderes do Taleban, a maioria dos quais está no Paquistão, ainda têm de abraçar a reconciliação.

O secretário de Defesa RobertGates reconheceu publicamente no domingo que os EUA começaram negociações de reconciliação preliminares com membros do Taleban , mas ele expressou ceticismo sobre os resultados. Outros diplomatas disseram que um número significativo de combatentes do Taleban não mudará de lado a menos que tais negociações avancem.

"Só vamos ver muitos insurgentes mudar de lado quando houver um pouco mais de progresso no caminho político", disse um diplomata ocidental que está familiarizado com as negociações. "E, para que isso aconteça, é importante ver como o Paquistão responderá", disse.

Mesmo assim, autoridades ocidentais dizem esperar que os insurgentes locais que têm queixas possam ser persuadidos a se inscrever no programa. "Você tem de olhar para a motivação das pessoas que participam do combate", disse um diplomata ocidental em Cabul. “Muitos se envolveram por causa de disputas locais por terra, poder e honra de família.”

“Você não precisa de um acordo com a liderança do Taleban para resolver esses problemas", disse o oficial. "O Taleban é uma bandeira de conveniência para eles.”

O crescimento relativamente lento do programa revela um série de dificuldades, de acordo com entrevistas com os governadores do Afeganistão, oficiais da Otan, membros do Conselho de Paz e de alta Reintegração e diplomatas ocidentais.

Existem problemas de logística: cada província deve ter uma comissão de paz e reconciliação para servir como intermediária entre os comandantes e o governo. Contas bancárias especiais precisam ser criada para manter o controle do dinheiro enviado aos governadores provinciais para executar o programa. Autoridades afegãs e da Otan também têm dificuldade em confirmar as identidades daqueles que dizem querer mudar de lado.

Na Província de Kunduz, muitos dos 400 militantes que mudaram de lado nos últimos meses voltaram às suas aldeias para formar grupos armados conhecidos localmente como arbakai, de acordo com o líder da comissão de paz e reconciliação local. "Alguns receberam armas para proteger suas próprias aldeias depois que recebemos garantias dos anciãos da aldeia sobre a sua honestidade e lealdade com o governo", disse o líder do comitê, Asadullah Omerkhel.

Alguns desses insurgentes são acusados de cobrar impostos das pessoas locais, armar esquemas de proteção e até de estupro, levantando dúvidas sobre eles serem apenas criminosos.

Toor Jan não é o único comandante do Taleban no sul do país a mudar para o lado do governo. Mas o outro comandante proeminente da região pode não ser quem ele diz. Esse comandante, Maulavi Noorullah Aziz, disse que queria fazer a mudança em abril e procurou a ajuda de um amigo de infância, Haji Fazaluddin Agha, que agora é o governador do distrito de Panjwai, na Província de Kandahar. Agha o patrocinou e apresentou ao governador provincial, Wesa Toorylai, que realizou uma cerimônia para receber a ele e pelo menos 30 de seus seguidores.

Como prova de sua identidade, ele ofereceu uma carta que o nomeava como o vice-governador do Taleban de Kunduz. A mensagem tinha o carimbo da Shura Quetta, o grupo de liderança do Taleban. Mas algumas de suas alegações não foram confirmadas. Por exemplo, embora ele tenha dito que controlava um distrito na Província de Helmand, há anciãos que dizem que nunca ouviram falar dele.

Agora, oficiais de inteligência ocidentais questionam sua história, embora ainda pensem que ele provavelmente é, ou foi, um militante Taleban. Nesse meio tempo, Aziz esteve de olho em um trabalho no governo e recebeu uma casa, dinheiro e proteção para uma comitiva que inclui sua família e a maioria de seus homens.

Toor Jan disse que levou um ano e meio para chegar à decisão de deixar o Taleban, em que ingressou em 2002. Ele fez isso porque havia perdido amigos na luta, visto civis afegãos morrerem quando bombas de seus homens detonaram acidentalmente e, em dezembro, descoberto que as forças dos Estados Unidos prenderam seu irmão, que segundo ele não fez nada de errado.

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Soldado americano é visto após questionar habitante de vila em Naka, na Província de Paktika, Afeganistão (12/04/2011)
Ele chegou, exausto e com 12 homens, em fevereiro, na esperança de que o governo cumpriria sua promessa de protegê-lo, dar empregos a seus combatentes e assegurar a libertação de seu irmão. Suas negociações foram feitas com o chefe do departamento de inteligência de Kandahar, que conhecia desde a infância e que concordou em pagar US$120 por mês para cada um dos homens de Toor Jan e US$ 150 por mês para ele mesmo – o valor padrão para um Taleban que decida mudar de lado. Ele está vivendo em uma base abandonada e decrépita do Exército russo.

Seu irmão foi libertado em abril, animando Toor Jan, mas seus homens ainda estão à espera de empregos. "Há cinco ou seis outros comandantes do Taleban que estão dispostos a mudar para o lado do governo, com quem eu falo, mas não posso prometer-lhes que eles devem fazer isso porque o governo não cumpre suas promessas", disse.

"Um bom exemplo é a minha deserção: nos últimos cinco meses não recebi nada do que eles prometeram: não tenho salário, não tenho boas acomodações. Aqueles que estão lutando agora dizem: ‘Seus homens estão desempregados. O que você tem conseguido?’”

* Por Alissa J. Rubin

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