Poucos crimes são registrados durante a Copa do Mundo

Temida onda de crimes violentos não se tornou realidade no Mundial da África do Sul

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Foram principalmente coisas pequenas. Um suíço jogou um copo de uísque contra uma equipe de filmagem holandesa. Um sem-teto sul-africano roubou um cobertor de dentro de um carro deixado aberto por um turista. Um amigo de Paris Hilton foi pego com maconha. A equipe de limpeza de um hotel roubou as roupas de baixo do time de futebol inglês.

Mas aquela onda de crimes violentos na África do Sul, que causava medo entre tantas pessoas em relação a esta Copa do Mundo, simplesmente não aconteceu. Nenhuma onda, quase nem uma marola. Os criminosos adotaram uma postura mais indiferente até mesmo do que a dos jogadores franceses.

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Homem acusado de roubo espera sentença em tribunal especial para acusações relacionadas à Copa

"Com o aumento da atividade policial por toda parte, os criminosos têm medo de sair", disse um porta-voz da polícia, o coronel Eugene Opperman, alegando que muitos infratores podem simplesmente ter abandonado suas práticas para assistir aos jogos.

Por "toda parte", ele quer dizer na verdade a região frequentada por turistas: os estádios, as boates, os shoppings de luxo - o foco de 44 mil policiais.

"Quem dizia que os criminosos iriam arruinar a Copa do Mundo está engolindo isso com humildade agora", disse Mthunzi Mhaga, porta-voz da autoridade nacional de ação penal. Ele deixou de lado a evidência de que a África do Sul é normalmente um país atormentado pelo crime. "Esse é um problema universal", disse.

Com a sua imagem na linha de fogo, o governo introduziu um programa chamado "Justiça na Bola", uma ala temática do sistema judiciário designada para lidar com ofensas que tivessem envolvimento com o campeonato.

Para lidar rapidamente com os casos esperados - satisfazer os roubados, os enganados - 54 tribunais foram preparados para a ação diária das 8h30 às 23h, com 110 juízes, 260 promotores, 1140 oficiais de justiça e 200 tradutores.

Mas apenas 172 casos chegaram aos tribunais da Copa do Mundo, um barulho que não foi páreo para as vuvuzelas. De acordo com o registro do Ministério da Justiça, até o dia 5 de julho foram 104 condenações, sete absolvições, 28 queixas retiradas ou abandonadas, 33 pendentes.

O caso da Copa do Mundo que mais chamou a atenção não chega a ser um escândalo. Duas mulheres holandesas foram acusadas de propaganda ilegal depois de terem entrado num estádio vestindo minivestidos laranja e coordenando outras cerca de 30 mulheres vestidas exatamente iguais. No barra do vestido, visível na parte superior da coxa, o pequeno logotipo roxo da cervejaria Bavaria.

A FIFA vendeu os direitos exclusivos para a Budweiser como cerveja oficial da Copa do Mundo, portanto os chefões do futebol exigiam que os tribunais reprimissem as anunciantes de duas pernas até que, uma semana depois, perceberam que a companhia estava recebendo publicidade gratuita devido ao caso, enquanto eles estavam levando a fama de vilões.

Antes que o caso fosse abandonado, um trocadilho obsceno com a sigla FIFA já havia se tornado slogan de camisetas e os comentaristas estavam acusando o grupo de sequestrar a constituição do país.

"A FIFA manda em tudo", disse Naren Sewnarain, juiz de um tribunal da Copa do Mundo na região de Randburg, em Joanesburgo. "Eles até mesmo aprovam a lista de juízes que estão de plantão e em que momento".

O tribunal 11, na Corte de Magistrados de Randburg foi umo dos 54 designados para os crimes da Copa do Mundo. Mas dia após dia, noite após noite, o lugar permaneceu tranquilo.

Tarde da noite, na semana passada, os promotores de um gabinete passavam uma pasta de mãos em mãos, avaliando se deveriam prosseguir com um caso de roubo.

Em 11 de junho, Paul Clark, um cidadão britânico, havia esquecido a bolsa de seu laptop no chão de um táxi, um lapso lamentável, especialmente uma vez que junto com o aparelho se encontrava cerca de US$ 2.400 em dinheiro.

Horas mais tarde, quando se lembrou que o tinha esquecido, ele telefonou para o taxista, Tom Tsepe, que havia lhe dado seu cartão de visitas. O motorista localizou a bolsa, mas o dinheiro não estava mais lá. Clark afirmou que havia sido roubado.

Mas o caso tinha falhas incômodas, a principal delas que todos os passageiros que vieram depois no táxi poderiam ter espiado dentro da bolsa e embolsado o dinheiro.

"Nós demos continuação para não parecer que agimos de maneira tendenciosa contra um de nossos hóspedes estrangeiros", disse Pieter Erasmus, um promotor, o que demonstra o tipo de atenção que foi mostrada aos visitantes no mês passado.

Tsepe, 49, é um dos principais taxistas de um ponto diante de um centro comercial de luxo. Ele nunca foi preso antes. A perspectiva de prisão o assustava. Ele tem quatro filhos para sustentar. "Mesmo se você sabe que não é culpado, ainda pode acabar na cadeia", disse.

Testemunhando contra o motorista, Clark, analista da agência de bilheteria da Copa do Mundo, admite que não foi apenas descuidado com seu dinheiro, mas casual com suas acusações. "Sim, acho que um de meus amigos pode ter pego o dinheiro", disse irritado com o interrogatório. "Ouça, eu só quero meu dinheiro de volta."

O magistrado não julgou Tsepe culpado e, após o julgamento, o motorista de táxi e seu acusador se viram diante um do outro no corredor vazio do tribunal.

Tsepe tinha toda razões para estar bravo com Clark. Após ser preso, ele passou cinco horas em uma cela. Ele se sentiu compelido a contratar um advogado e perdeu um dia inteiro de trabalho. Ele estima que o caso lhe custou mais de US$ 1.000.

Mas agora é a hora da Copa do Mundo e seu país está no centro das atenções do mundo. A maioria dos sul-africanos, criminosos ou não, está em seu melhor comportamento.

O motorista disse ao estrangeiro: "Meu amigo, eu sinto muito que você tenha perdido o seu dinheiro".

Por Barry Bearak

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