Por guerra ou paz, não há saída fácil do Afeganistão

Negociação real pela paz ainda não acontece no país onde uma guerra parece impossível de ser vencida

The New York Times |

"Não há como matarmos para abrir caminho para nossa saída do Afeganistão", afirmou o comandante norte-americano General Stanley A. McChrystal. Agora isso já se tornou um mantra.

"Uma coisa que todos nós temos escutado, e iremos ouvir especialmente entre agora e o próximo ano, é que não há solução militar para este conflito", disse Staffan de Mistura, o novo representante especial do Secretário-Geral das Nações Unidas para o Afeganistão. "O Taleban não vai ganhar a guerra, mas por outro lado, os americanos também não".

Assim, todos falam sobre a paz, mas até agora ninguém está realmente falando de paz. Os obstáculos para isso são profundos e de muitas maneiras tão assustadores como a perspectiva de uma solução militar.

Externamente, parece haver movimento na frente da paz. O governo realizou o que chamou de uma jirga, ou conselho, de paz de três dias no início de junho e recomendou a formação de um alto conselho de paz como uma instância para negociação, retirando a liderança do Taleban de uma lista negra das Nações Unidas e libertando os insurgentes detidos sem julgamento. Agindo com rapidez incomum, uma delegação do Conselho de Segurança começou a rever a lista negra, e o Taleban respondeu com algumas conversas preliminares.

A jirga de paz, no entanto, não chegou a ser uma negociação para paz. Os insurgentes não foram convidados e muitos afegãos se queixaram que o presidente Hamid Karzai a lotou com seus próprios partidários. Remover o Taleban da lista negra e libertar os detidos são medidas comparativamente mais fáceis, que foram discutidas há um ano ou mais. O Taleban ressaltou isso em sua denúncia oficial da jirga, que foi acompanhada por um ataque com foguetes.

No entanto, mesmo essas medidas não serão realmente fáceis. Foram precisos meses de negociações antes que o Conselho de Segurança concordasse em retirar os nomes de 142 militantes Taleban da lista negra - qualquer um dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança pode vetar esta medida, a Rússia e a China já ameaçaram fazê-lo. Os Estados Unidos não devem apoiar a eliminação de todos os principais nomes, especialmente quando confrontados por uma insurgência cada vez maior.

AP
Obama e Karzai durante encontro em Washington: um longo caminho para a paz no Afeganistão

Opositores políticos do presidente Karzai também são susceptíveis de se opor fortemente a qualquer libertação de prisioneiros, como aqueles no próprio governo de Karzai, temendo que muitos dos libertados voltarão ao combate. Essa foi a posição de seu chefe de inteligência e ministro do Interior, que foram forçados a pedir demissão após a jirga - aparentemente por causa da falha de segurança que permitiu o ataque com foguetes, mas também porque, muitos acreditam, eles também se opuseram à libertação indiscriminada de presos.

Mesmo que estes obstáculos sejam superados, outros maiores se aproximam. Ambos os lados têm exigências que tornam as negociações aparentemente impossíveis. A posição oficial do Taleban é que todas as forças estrangeiras devem deixar o país antes que qualquer negociação possa começar, e deve haver abertura para a possibilidade de alterações constitucionais. O governo insiste que o Taleban Afegão deve primeiro renunciar a qualquer ligação com a Al Qaeda e concordar em aceitar a constituição. (Por "constituição" entende-se os direitos das mulheres - um anátema para o Taleban e um pré-requisito para os adeptos ocidentais do Afeganistão).

Adiante, há preocupações reais sobre quem vai representar o Taleban e quão influenciado o grupo será pelo Paquistão. A liderança política do Taleban Afegão é a sua face mais envelhecida, moderado e nacionalista. Não inclui muitos jovens comandantes militares, que muitas vezes parecem funcionar independentemente da liderança do Quetta Shura, batizado em homenagem à cidade paquistanesa onde se refugiam.

Por sua vez, não está claro quão independente é a liderança. Quando o Paquistão prendeu Mullah Baradur, o segundo na hierarquia de comando do Taleban, no início deste ano, o país removeu um importante canal para a retomada das negociações que supostamente aconteciam diretamente com o presidente Karzai. Seria justo questionar se o Paquistão realmente deseja a paz no Afeganistão.

Nenhum destes obstáculos são necessariamente intransponíveis, como pode ser visto pelo fato de que tanto o presidente afegão e as Nações Unidas têm engajado em negociações secretas com o Taleban.

A grande questão é saber se os problemas podem ser superados antes do prazo dado pelo presidente Obama para início da retirada das tropas de combate americanas do país em julho de 2011. Esse prazo será discutido na revisão formal do progresso militar em dezembro.

Até lá, segundo os planos, uma nova onda de tropas terá livrado o sul do Afeganistão do controle Taleban, tornando o grupo mais receptivo à negociação da paz. Marja, a primeira área a ser subjugada sob este plano, foi descrita pelo general McChrystal como uma "úlcera hemorrágica" - uma segunda fase, a tomada de Kandahar, pode não ser concluída até o inverno.

Autoridades militares enfatizam a natureza fungível do prazo do presidente Obama. Em uma reunião realizada no dia 11 de maio entre militares dos Estados Unidos e Afeganistão, o secretário de imprensa do Pentágono, Geoff Morrell, disse que todos concordaram que "julho de 2011 será o início de um processo baseado em condições".

"Mas mesmo conforme o processo evolua", ele disse, "vamos desfrutar de uma parceria robusta entre militares no futuro".

Essa promessa pode muito bem entrar em conflito com as duras realidades da política, uma vez que a temporada de campanha presidencial americana começará pouco depois. Karzai, por exemplo, não parece convencido de que os americanos vão permanecer no curso.

O prazo de julho 2011 destina-se, entre outras coisas, a forçar Karzai a resolver problemas urgentes, como a corrupção e a ineficácia governamental, que as pesquisas mostram que são os principais motivos que levaram os afegãos a apoiar a insurgência. Mas o prazo pode ter o efeito contrário e convencer o presidente Karzai de que em um ano ele estará sozinho.

O Taleban, por sua vez, pode acreditar que só precisa esperar a inevitável partida da coalizão. "Eles lêem os jornais", disse um oficial da Otan em Kandahar. "Eles ouvem os discursos do presidente Obama, eles sabem qual é o calendário para os Estados Unidos e a coalizão".

A única coisa certa sobre as perspectivas para a paz é que, após 31 anos de guerra quase contínua, quase todos os afegãos são a favor dela. Isso dá ao menos alguma esperança de que os protagonistas do país poderão transcender seus problemas e encontrar uma solução política. Esperar que façam isso até julho de 2011, no entanto, pode vir a ser outro exemplo de confundir uma esperança com uma política.

Por Rod Nordland

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