Por falta de inimigos externos, Polônia se volta contra si mesma

Ao buscar proteção para próprio país, poloneses buscam inimigos dentro de casa, como economia e conflitos políticos

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Eram 21h30 e Varsóvia estava debaixo de uma fria e constante chuva. O palácio presidencial brilhava intensamente ao fundo de uma multidão de homens e mulheres amontoados sob guarda-chuvas, rezando enquanto seguravam pequenas cruzes de madeira contra seus corpos, diante de uma grande imagem de Jesus Cristo e uma estátua iluminada da Virgem Maria.

Eles se reuniram para protestar contra o presidente, Bronislaw Komorowski, e o primeiro-ministro, Donald Tusk, em uma vigília que começou nos primeiros dias após um acidente de avião em abril, que matou o então presidente, Lech Kaczynski, sua esposa e dezenas de líderes políticos e militares poloneses

Enquanto os dias se transformaram em semanas e meses, suas manifestações passaram de manter a cruz diante do Palácio Presidencial à construção de um monumento permanente e à substituição do presidente. A vigília noturna se tornou uma representação das profundas divisões sociais e políticas que ameaçam tirar do eixo uma das grandes histórias de sucesso do ex-bloco soviético.

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Manifestante segura quadro com retrato de Jesus, em Varsóvia, capital da Polônia
Os poloneses têm realmente boas razões para comemorar: têm navegado a traiçoeira transição do comunismo ao capitalismo melhor que a maioria dos países satélites da antiga União Soviética, e seu país é o único da Europa a ter evitado uma recessão durante a crise financeira.

Mas, em vez disso, eles estão se sentindo inseguros, pessimistas e incertos sobre o futuro, e se voltaram contra si mesmos. "Nós temos um rosto bonito em tempos difíceis, mas em tempos normais estamos perdidos", disse Jan Oldakowski, um membro da oposição do Parlamento, que foi um dos vários membros a deixar o partido de oposição Lei e Justiça para formar uma coalizão mais ao centro. "Com a liberdade, os poloneses não sabem como cooperar uns com os outros".

A liderança política está em guerra consigo mesma. Ataques pessoais e insultos são trocados o tempo todo. Os políticos trocaram acusações de abuso de drogas, doenças mentais, colaboração com os nazistas e espionagem em nome de Moscou. Eles disseram uns aos outros que estariam melhor mortos. O ex-primeiro ministro, Jaroslaw Kaczynski, que perdeu a oferta de se tornar presidente depois que seu irmão gêmeo morreu no acidente, recusou-se a apertar a mão de Tusk, recusou-se a comparecer à principal cerimônia fúnebre pelo acidente neste ano e voltou-se contra alguns de seus aliados mais próximos, levando-os a abandonar o Partido Lei e Justiça, que os irmãos Kaczynski fundaram em 2001.

"Os poloneses sempre acham que precisam ter um inimigo", disse Urszula Slawinska, 38 anos, uma cidadã não envolvida em política, mas muito consciente do que ocorre ao seu redor. "Por causa da nossa história, nós nos definimos acreditando que ser polonês é proteger o nosso país. Portanto, agora que não temos de nos proteger, ainda precisamos encontrar um inimigo".

Inevitavelmente, no país de maioria conservadora e católica, a Igreja também se vê envolta nas disputas internas. Sua liderança está dividida, com alguns clérigos abertamente apoiando a oposição, enquanto outros estão tentando afastar a instituição da política partidária. Há um forte movimento antirreligioso e no seio da comunidade religiosa há um crescente temor de que a Polônia se torne uma sociedade mais secular, como grande parte da Europa.

"Estou muito pessimista", disse o reverendo Maciej Antoni Zieba, um padre popular de Varsóvia. "É um momento providencial para a Polônia. A vida política é horrível. Para mim, como um padre católico, também não é bom".

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Acidente de avião em abril matou o presidente Lech Kaczynski, a esposa e políticos (foto de arquivo)
Disputa

A disputa tem tido pouco impacto sobre a ainda forte economia da Polônia, que mantém previsão de crescimento de 4% para o próximo ano. Mas alguns economistas advertem que a menos que questões importantes sejam abordadas, a Polônia caminha para problemas. Economistas disseram que uma vez que o investimento para desenvolvimento da União Europeia diminuir em 2012, o país chegará ao seu limite de endividamento constitucional. Isso vai exigir cortes de gastos, aumento de impostos ou apreendimento do sistema de aposentadoria. Eles também advertem que a Polônia poderá enfrentar uma escassez de energia que em alguns anos poderia causar apagões.

"Em dois ou três anos, poderíamos enfrentar um desastre", disse o economista Krzystof Rybinski, que afirmou que disputas políticas internas têm desviado o debate de questões públicas para o sarcasmo. "Nossa sociedade não entende os desafios que enfrenta. A força motriz agora é a política e as relações públicas".

Estrutura

Segundo Rybinski, há questões estruturais que precisam ser abordadas, como uma burocracia que desencoraja o empreendedorismo e que em cinco anos passou de 100 mil trabalhadores para um total de 430 mil, cerca de 1% da população.

A combinação de sucesso e medo criou dissonância na Polônia. As pessoas entendem o quão longe alcançaram em apenas duas décadas, mas também sentem que estão atoladas na lama da política, incapaz de resolver problemas que advém do gasto social e das finanças públicas.

"Estamos falando em reformas, mas não estamos fazendo nada", disse Lukasz Turski, físico da Universidade Cardeal Wyszynski. "Todas as reformas terminaram nos anos 90".

Logo depois da tragédia que matou o então presidente, o país se uniu em estado de choque e tristeza. Mas a tragédia expôs divisões profundas na sociedade, acentuando o vão que existe entre as classes políticas, diferentes segmentos da sociedade (em especial entre as cidades grandes, pequenas e aldeias), e a distância entre quase todos e o clero.

O conflito que se desenvolveu sobre a permanência da cruz diante do palácio não foi apenas um choque sobre valores e símbolos religiosos. "As pessoas diante do Palácio Presidencial não estavam lutando pela cruz ou pela Igreja", disse Janusz Palikot, um membro do Parlamento que começou seu próprio partido político. "Há duas visões da Polônia em luta para coexistir".

A cruz colocada diante do palácio tornou-se uma declaração política, uma demonstração de apoio a uma Polônia mais conservadora, mais religiosa, mais nacionalista, comandada pelos irmãos Kaczynski, segundo muitos cientistas políticos, líderes religiosos e manifestantes.

A outra visão para a Polônia, defendida pelo partido do governo de Tusk e Komorowski, está mais concentrada na Europa, na adoção do euro, no fim da presença militar da Polônia no Afeganistão e em um Estado no qual a religião seria mais pessoal e menos institucional.

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Malgorzata Zwierzchowska fez vigílias noturnas em frente ao palácio presidencial de Varsóvia
A liderança da Igreja adotou uma posição oficial de manter silêncio sobre o assunto, o que apenas irritou ambos os lados. "A igreja não teve culpa. Esse era um conflito entre os dois partidos", disse Antoni Zieba. "Mas os vencedores são os políticos. Quem foi o perdedor? A igreja".

Conspiração

Em uma manhã de setembro, um assessor presidencial saiu do palácio e removeu a cruz. Por alguns dias, parecia ser o fim da disputa e, em seguida, os manifestantes retornaram, furiosos. Os manifestantes dizem agora ver a retirada da cruz como parte de uma conspiração para encobrir as verdadeiras causas da queda do avião, que ocorreu quando os oficiais chegavam em Smolensk, na Rússia, para um evento em homenagem a 22 mil oficiais polacos assassinados na Floresta Katyn pelos soviéticos em 1940. Os manifestantes acreditam que os russos, e talvez pessoas em seu próprio governo, estiveram por trás do acidente.

"Eu sinto como um tapa na cara o fato do presidente não saber o que realmente aconteceu na tragédia de Smolensk", gritou Andrzej Hadacz, 49 anos, batendo as mãos contro o rosto.

Os manifestantes continuam a se reunir e especialistas políticos dizem que o governo continua evitar decisões difíceis em um esforço para preservar a sua popularidade em um ambiente político difícil, segundo cientistas políticos.

O ex-presidente, Aleksander Kwasniewski, que ficou no poder por 10 anos, disse que a melhor maneira de descrever a Polônia hoje estava em uma pequena história: “Um grupo de crianças dizem a um rabino, 'Por favor diga-nos em poucas palavras qual é a situação”, e o rabino responde “boa”, contou. "As crianças dizem: 'Talvez você possa usar algumas palavras a mais', e o rabino responde: ‘não é boa’”. O ex-presidente riu, mas depois disse que a história não era engraçada.

*Por Michael Slackman

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