Políticas para a Aids se provam mortais na África do Sul

JOANESBURGO ¿ Um novo estudo feito por pesquisadores de Harvard estima que o governo da África do Sul poderia ter evitado 365 mil mortes prematuras nesta década se tivesse fornecido drogas anti-retrovirais a pacientes com Aids e amplamente administrado drogas para ajudar a evitar que mulheres grávidas infectassem seus bebês.

The New York Times |

Acordo Ortográfico

O estudo de Harvard concluiu que as políticas são resultados da negação pelo presidente Thabo Mbeki do consenso científico sobre a causa viral da Aids e do papel essencial das drogas retro-virais no tratamento da doença.

Apresentado após a queda de Mbeki, depois de uma disputa de poder dentro do seu partido, o Congresso Nacional Africano (CNA), o relatório reascendeu perguntas sobre por que Mbeki, um homem de grande perspicácia, foi tão influenciado pelos que negam a Aids.

Outra pergunta que surgiu foi por que seus colegas de partido não desafiaram sua resistência em aceitar métodos de tratamento e prevenção da Aids.  

Alho, suco de limão e raiz de beterraba

Getty Images
Mbeki: políticas desastrosas
Avaliando o legado de tais políticas, o sucessor de Mbeki, Kgalema Montlanthe, agiu no seu primeiro dia de mandato há dois meses, e destituiu o ministro da Saúde, Manto Tshabalala-Msimang, que propôs alho, suco de limão e raiz de beterraba como remédios para a Aids.

Ele foi substituído por Barbara Hogan, que decididamente trouxe a África do Sul ¿ o país mais poderoso em uma região localizada no epicentro da epidemia da Aids ¿ de volta ao primeiro escalão.   

Eu me sinto envergonha por ter que confessar o que Harvard está dizendo, disse Hogan, uma partidária do CNA que ficou presa durante uma década durante o movimento contra o apartheid, em uma recente entrevista. A era da negação acabou definitivamente na África do Sul.

Durante anos, o governo da África do Sul fracassou em fornecer drogas anti-retrovirais, mesmo em Botsuana e Namibia, países vizinhos com epidemias semelhantes, agiam, disse o estudo de Harvard.

3,8 milhões de anos de vida

Os pesquisadores de Harvard quantificaram o custo humano desse fracasso ao comprar o número de pessoas que de fato receberam drogas anti-retrovirais na África do Sul entre 2000 e 2005 com o número que o governo poderia ter atingido caso implantasse um programa viável de tratamento e prevenção de Aids.

Eles estimam que em 2005, a África do sul poderia ter ajudado 50% das pessoas que precisavam de ajuda, mas ajudou de fato apenas 23% delas. Em comparação, Botsuana já fornecia tratamento para 85% dos  que precisavam, e Namíbia, 71%.

Os 330 mil sul-africanos que morreram por falta de tratamento e os 35 mil bebês que morreram por estarem infectados com HIV somam 3,8 milhões de vida, concluiu o estudo.

Epidemiologistas e bioestatísticos que revisaram o estudo para o The New York Times, disseram que os pesquisadores basearam suas estimativas em concepções conservadoras e usaram metodologias sólidas.

Eles utilizaram estimativas conservadoras para os cálculos do estudo, e eu consideraria seus números lógicos, disse James Chin, professor de epidemiologia na Escola da Saúde Pública da Universidade da Califórnia em Berkeley, em uma mensagem via e-mail.

O estudo foi divulgado on-line em outubro e será publicado na segunda-feira no Journal of Acquired Immune Deficiency Syndromes (Jornal da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, em tradução literal).

Max Essex, o virologista que comandou o programa de pesquisa da Aids da Escola de Saúde Pública nos últimos 20 anos e quem fiscalizou o estudo, chamou a política para a Aids do governo de Mbeki de um caso de saúde pública ruim, ou mesmo perversa.

Silêncio

Mbeki manteve o silêncio sobre seu legado desde que foi forçado a renunciar. Seu porta-voz, Mukoni Ratshitanga, disse que Mbeki, não iria discutir seu pensamento sobre HIV e Aids, explicando que as decisões políticas foram feitas em conjunto com o minstério, portanto, as perguntas podem ser dirigidas ao governo.

O novo governo está tentando apressar a ampliação dos tratamentos. A questão é urgente. A África do Sul hoje abriga 5,7 milhões de pessoas infectadas pela Aids ¿ mais que qualquer outra nação, quase um em cada cinco adultos. Mais de 900 pessoas morrem da doença por dia no país, estima as Nações Unidas.

Por CELIA W. DUGGER

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