Política ilusionista de Berlusconi pode não escapar desta vez

Aprofundamento de crise política na Itália e falta de apoio de aliados parecem prestes a derrubar governo de premiê italiano

The New York Times |

Ao longo dos anos, o primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, tem maravilhado os italianos com seus poderes à la Houdini (Harry Houdini, ilusionista húngaro) que usou para escapar das mais difíceis armadilhas políticas e ressurgir quando todas as apostas estavam contra ele.

Mas desta vez, com um aprofundamento da crise política que parece prestes a derrubar o governo em algumas semanas, algo está notavelmente diferente na Itália. E como perceber isso?

AFP
Apoiadores de Berlusconi sentem fraqueza política de líder (foto de 17/11/2010)

Seus ex-apoiadores, que não o abandonaram quando ele perdeu o poder em 2006, mas que sentem fraqueza política como um cão fareja o medo, têm visivelmente começado a se reposicionar para o próximo capítulo – quando Berlusconi provavelmente não estará na liderança.

"É uma antiga tradição italiana o tenor ser idolatrado até que as pessoas comecem a vaiá-lo", disse Beppe Severgnini, um crítico de longa data de Berlusconi cujo mais recente livro tenta explicar o líder italiano para estrangeiros.

As vaias tiveram início neste mês. Tudo começou no topo, com Gianfranco Fini, o co-fundador do partido de centro-direita Povo da Liberdade, que retirou quatro membros do gabinete na segunda-feira. Essa medida formalizou uma crise que começou quando Berlusconi o expulsou da coalizão, em julho, custando-lhe a maioria parlamentar.

Mas todos os dias, as deserções – ou deserções aparentes – se multiplicam.

Na semana passada, Vittorio Feltri, leal a Berlusconi há muito tempo e editor do Il Giornale, um jornal de propriedade do irmão de Berlusconi, deu uma entrevista peculiar a uma publicação rival na qual criticou Berlusconi. "Ele está cansado e confuso", Feltri disse em uma entrevista ao Il Fatto Quotidiano, um novo jornal de esquerda. "Ele não fez um monte de coisas que deveria ter feito".

Críticos à sombra

Durante anos, os críticos de Berlusconi se mantiveram nas sombras, preocupados em comprometer seu futuro em uma sociedade na qual o bilionário Berlusconi é o principal patrono. Esse medo atingiu o governo, onde o primeiro-ministro rotineiramente acusava Fini e outros que chamavam a atenção para os problemas de deslealdade da Itália.

Isso também começou a mudar. Hoje, políticos e outras figuras públicas que até este mês estavam misteriosamente silenciosos sobre a falta de competitividade, a baixa produtividade, o alto endividamento, a fuga e evasão fiscal da Itália, entre muitos outros problemas, começaram a falar abertamente.

"Dentro do PDL (partido do premiê) há uma sensação generalizada de que Berlusconi chegou ao fim da linha", disse Pier Ferdinando Casini, líder do União Democrata-Cristã, um partido católico centrista que foi aliado de Berlusconi em governos passados, mas não no atual.

"Um império é um império, mas Júlio César é diferente de Calígula", acrescentou Casini, fazendo uma referência irônica aos muitos escândalos sexuais de Berlusconi. Ele acrescentou que Berlusconi não cumpriu uma série de reformas, incluindo a do sistema judicial da Itália, de sua infra-estrutura e saúde.

Casini está sendo cortejado tanto por Fini quanto pelo partido de centro-esquerda Democrata. Ambos querem seus votos – estimados em 5,8% em uma pesquisa recente do jornal Corriere della Sera – para ajudar a formar uma maioria.

De fato, ainda que haja um sentimento crescente de que Berlusconi está chegando ao fim, ninguém, incluindo analistas políticos veteranos, consegue ver quem o substituirá, fazendo de sua queda o momento mais dinâmico e incerto da política italiana em 20 anos.

Política de personalidades

Desde que Berlusconi foi eleito primeiro-ministro pela primeira vez em 1994, ele ajudou a tornar a política italiana voltada a personalidades, com uma direita que orbitavam em torno dele e uma esquerda que, inevitavelmente, parecia dividida por não ter um equivalente a Berlusconi.

Berlusconi também ajudou a criar uma ilusão de que a Itália tinha um sistema bipartidário, com a ajuda de uma mudança na lei eleitoral implementada em 2005 que permitiu que uma coalizão que receba menos de 50% do voto popular tenha maioria parlamentar, fazendo com que os muitos partidos menores da Itália perdessem peso.

Casini e outros querem mudar a lei para criar um novo grupo centrista, muito provavelmente com Fini, Francesco Rutelli, um popular ex-prefeito de Roma e, possivelmente, Luca Cordero di Montezemolo, presidente da Ferrari e ex-presidente da Associação Italiana de Industrialistas.

Prova

O momento da verdade para Berlusconi virá em meados de dezembro. Ambas as casas do Parlamento devem votar, e provavelmente aprovar, o orçamento de 2011 no dia 10 de dezembro. Berlusconi irá aparecer diante das casas do Parlamento no dia 13 de dezembro – e vai enfrentar um voto de confiança em ambas no dia 14 do mesmo mês, o que pode derrubar o governo.

No mesmo dia, a Corte Constitucional da Itália deverá pronunciar-se sobre uma lei que lhe concede imunidade judicial ser constitucional.

Mas em um país onde a política de poder é jogada no mais alto nível, com tanta ginga e lesões fingidas quanto na Copa do Mundo, o jogo não acabou.

"Quem pensa que Berlusconi está morto e enterrado está completamente equivocado", disse Casini. "Se essa crise colocar Berlusconi no centro e permitir que ele se faça de vítima, Berlusconi é capaz de se recuperar ", acrescentou. Mas ressaltou: "Ele estará em apuros quando as pessoas o responsabilizarem pelo que fez".

*Por Rachel Donadio

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