Policiais mexicanos ganham imagem romanceada em série de TV

Distante da realidade, El Equipo traz rotina de agentes mexicanos heróis, à la programas de sucesso como o americano Law & Order

The New York Times |

Em um país onde ninguém confia na polícia, será que uma série policial tem chance de suceso?

O horário nobre mexicano está cheio de melodramas e comédias, programas de auditório e minisséries históricas. Mas até o mês passado uma produção nacional de drama policial não tinha espaço na grade de programação.

Embora velha, a fórmula funciona bem. Agentes honestos – seja na Grã-Bretanha, na Suécia ou na Espanha – reúnem provas, interrogam testemunhas e, sobretudo, encontram o bandido (ou bandida). Até mesmo a Rússia tem o seu próprio remake de Law & Order. No México, porém, a ideia de um policial íntegro ser o protagonista de uma série parece tão longe da realidade que nada parecido vinha sendo produzido no país.

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Série de TV El Equipo é criticada por não condizer com a realidade
Mas em maio a versão mexicana finalmente chegou. O programa El Equipo (A Equipe, em tradução livre) não tenta resolver a contradição entre o que os cidadãos locais pensam da sua polícia – na melhor das hipóteses, que é uma força incompetente, enquanto que na pior, colabora com o sistema criminoso – e o que não passa de um simpático retrato na telinha. Em vez disso, a série opta pela arrogância no melhor estilo de 24 horas. O espetáculo gira em torno das façanhas dos membros de uma equipe de elite de combate ao crime tão heróica que seus membros não precisam nem mesmo de sobrenomes.

O trabalho da equipe é dividido entre a ação dos "operativos" e a busca por informação no que seria uma espécie de central de inteligência mexicana, mas que mais parece uma sala de conferências em um hotel de Acapulco nos anos 1960, com eletrônicos mais elegantes. "Se há uma mensagem que queríamos transmitir, é que nas forças policiais há tecnologia, há inteligência, há homens comprometidos, pessoas de carne e osso que vão ao trabalho todos os dias", disse Pedro Torres, que produziu a série da emissora Televisa, a maior do México. "Eu acho que existem muitos heróis e muitas pessoas muito honestas dentro da Polícia Federal”.

A série, que foi ao ar todas as noite durante as últimas três semanas, começará transmitida nos Estados Unidos pela rede de língua espanhola Univisión. Nenhuma decisão foi feita a respeito de uma segunda temporada.

Assim que a série começou a ser transmitida no México, ela entrou em conflito com a vida real de luta diária contra o narcotráfico. Um dos pontos centrais da estratégia do presidente mexicano, Felipe Calderón, contra o crime organizado é a criação de uma polícia nacional eficaz para assumir o fardo dos militares. O homem encarregado da Polícia Federal mexicana, Genaro García Luna, atual secretário de Segurança Pública, tornou-se uma figura polarizadora na guerra às drogas conforme o número de mortos cresce e a violência se espalha para Estados que antes eram pacíficos.

A imprensa mexicana imediatamente chamou El Equipo de um infomercial para a Polícia Federal, que deu a Torres amplo acesso às suas instalações para gravar a série. Os legisladores no Congresso exigiram que García Luna preste contas de como o dinheiro da polícia foi gasto para apoiar as filmagens e quantas horas oficiais de verdade trabalharam como extras.

Teatral

García Luna gosta do lado teatral do seu trabalho. Em um caso famoso em 2005, quando ele era o chefe da Polícia Federal, admitiu ter encenado a prisão de uma quadrilha de sequestradores para que os noticiários da manhã pudessem mostrar a ação policial "ao vivo". Além disso, depois da prisão de um operador de alto escalão de um cartel, Edgar Valdez Villarreal, conhecido como La Barbie, o ministério da segurança pública circulou DVDs do interrogatório. Ele foi transmitido na televisão local, mas não ajudou em nada na investigação legal.

Nos círculos políticos não era nenhum segredo que García Luna queria ver uma série policial na televisão inspirada em uma série de longa duração na Espanha, a El Comisario (O Comissário, em tradução livre). Mas Torres disse que o ímpeto para El Equipo veio de sua própria vontade. Fanático por dramas policiais, Torres disse que queria romper com as novelas que dominam o horário nobre do México.

"Essa série não foi encomendada", disse ele, em resposta às acusações. "Mas dissemos desde o início que ela não teria acontecido sem o apoio da Polícia Federal. Queríamos ver suas instalações, ter acesso aos seus diferentes equipamentos, como helicópteros, viaturas, armas. Queríamos que fosse uma série ao estilo americano, onde você vê carros e helicópteros da polícia reais”

Quando se trata de dramas policiais americanos, que são vistos nas emissoras locais diariamente, os mexicanos não parecem tão descrentes. Mas quando a ação é mais perto de casa, a polícia na TV claramente parece causar uma certa irritação.

"Em princípio não há problema com uma instituição promover a si mesma", disse Ernesto Lopez Portillo, um dos maiores especialistas sobre a reforma da polícia do México. "Mas a imagem e a realidade não coincidem. Eu acho que é um excesso".

*Por Elisabeth Malkin

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