Polícia de Chicago aprende a escrever mais que boletins de ocorrência

Departamento de Polícia de Chicago oferece uma oficina voluntária de redação para policiais que queiram contar suas histórias

The New York Times |

Dentro das salas de aula da Academia de Polícia de Chicago, futuros formandos normalmente aprendem a executar prisões, procurar drogas, entender gírias e terminologias de gangues e como proceder diante de uma cena de crime.

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Romancista Jonathan Eig (esq) conversa com Ray Cox, policial de Chicago, depois de oficina de redação

Mas uma das aulas parecia sair um pouco desses padrões: fileiras repletas de policiais já uniformizados escutavam em silêncio os ensinamentos de um professor um tanto quanto diferente - um romancista.

"Não evitem a questão da raça, não evitem a questão do sexo, não evitem a questão da guerra contra as drogas quando as pessoas lhes disserem que os traficantes estão ganhando e vocês que lidam com estas situações na rua sabem que não estão", disse Charlie Newton, o escritor, que demonstrava sua paixão batendo sobre a mesa enquanto fazia o seu discurso.

"Vocês tem que falar a respeito dessas coisas. Se você não está disposto a lidar com isso, então está perdendo seu tempo falando comigo. Eu posso lhe mostrar o caminho. Eu sou realmente bom nisso, mas não posso pegar vocês pela mão e fazê-los atravessar o rio se não estão dispostos a se arriscar".

Para alguns dos policiais presentes, essa não era uma situação com a qual têm de lidar todos os dias. Também não era parecida com nenhum outro seminário. Nenhum desses policiais, na verdade, era obrigado a estar ali. Uma vez que os escritores profissionais que escrevem sobre a vida de um policial muitas vezes nem sequer passaram um dia numa patrulha, o Departamento da Polícia de Chicago começou uma oficina voluntária para policiais que desejam escrever suas próprias histórias.

Até agora, 25 policiais participam da oficina. Certamente, já existiram policiais que foram bem sucedidos como autores e existe até mesmo uma Associação dos Escritores da Segurança Pública. Mas as organizações policiais nacionais dizem que é extremamente incomum para um departamento de polícia tomar a iniciativa de criar uma oficina como esta, já que os policiais precisam aprender a escrever apenas boletins de ocorrência e relatórios de incidentes.

Entre esses oficiais, nem todos sonham em escrever romances policiais. Alguns querem escrever os mais variados gêneros, como histórias infantis, guias de auto-ajuda, biografias, contos de casos estranhos, e etc. - um deles quer modernizar as histórias da Bíblia ao fazer uma ligação entre elas e os incidentes que acontecem em seu trabalho como policial.

"Todo policial já falou alguma vez em sua vida que quer escrever um livro”, disse a sargenta Cynthia Schumann, uma policial veterana que trabalha no Departamento de Polícia de Chicago há 26 anos e disse que vem fazendo suas próprias anotações - apenas algumas ideias e palavras - já faz um bom tempo. "As pessoas não acreditam nas coisas que presenciamos – e elas são impossíveis de se inventar. Já passamos por situações muito engraçadas, mas também por momentos devastadores e trágicos."

Martin Preib, um policial que participou do seminário mesmo já tendo publicado um livro, disse que um esforço para ajudar os policiais a contarem suas próprias histórias era essencial – e deveria ter sido feito há muito tempo.

"Eu acho que agora é o momento para que o mundo editorial leia as histórias que a polícia tem para contar", disse Preib, um veterano, que descreveu sua obra como algo entre a ficção e a não ficção. "Há uma riqueza de possibilidades literárias que nós absorvemos no trabalho, mas as pessoas no mundo literário são muito politicamente corretas e arrogantes. Elas geralmente não querem saber sobre o que a polícia tem para dizer ou até mesmo descartam o seu ponto de vista para favorecer clichês sobre a polícia.”

Mesmo assim, o processo – planejar, escrever e editar - não será nada fácil, alertou Newton, cujo segundo romance policial, "Start Shooting" (Começe a Atirar, em tradução literal), foi lançado recentemente. Seu companheiro instrutor, Jonathan Eig, autor de um livro recentemente chamado "Get Capone" (Pegue Capone, em tradução literal) , descreveu-se como o "bom tira" em comparação a Newton.

O primeiro passo, segundo Newton, é “matar” o crítico interno e decidir que não, ele não irá influenciar na hora de lidarmos com questões sensíveis independente do desconforto que possam gerar. "Será que vocês se permitem contar a verdade?", ele perguntou para os policiais. "Se você acha que não consegue, desista agora."

Alguns policiais mais tarde demonstraram estar preocupados com o conflito que suas criações podem gerar quando deparados com as regras do departamento ou até mesmo no que seus patrões podem pensar deles por escreverem à respeito de seu trabalho. Como muitos outros departamentos da polícia, Chicago algumas vezes entrou em confronto com escritores sobre quais informações poderiam ser expostas ao público e quais não.

"Eu acho que o maior problema que tenho comigo mesma é de me dar permissão para realmente lidar com um crime", disse Sara Sotgiu, policial do departamento há 12 anos. Ela disse que talvez escreva sobre um líder de gangue, quase da mesma idade dela, que prendeu na sua primeira semana como policial por esmurrar um motorista de táxi.

"Eu me lembro de ter pensado: como é que eu estou onde estou e ele está onde está?", disse. "Como é que nossas vidas se intercalaram sendo que somos de mundos completamente diferentes?"

A tenente Maureen C. Biggane, comandante do Gabinete do Departamento de Assuntos de Imprensa que ajudou a criar o programa de escrita depois que Newton e Eig se ofereceram para dar aulas, disse que não estava preocupada com o fato de que policiais podem estar propensos a violar protocolos em suas histórias. O departamento decidiu continuar com o programa por uma razão simples: para ajudar os policiais a perseguirem os seus interesses além do seu trabalho do dia-a-dia.

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Charlie Newton (esq) e Jonathan Eig dão aula de redação a polícias no Departamento de Chicago

Ainda não se sabe se muitos alunos dessa primeira turma irão sobreviver aos encontros presenciais, as perguntas constantes realizadas por email com os autores, ou até mesmo em fazer o dever de casa. Os policiais devem escrever um texto de 25 ou menos palavras sobre o tema de seus futuros livros - palavras que, ao serem revisadas e reescritas algumas vezes, servirão para mantê-los focados no tema na hora de escrever o livro.

Ray Cox, um veterano que trabalha na seção de evidências, no meio de armas, drogas e kits de estupro, escreveu: "Um policial, amargo e divorciado, cansado de testemunhar a discórdia e o desespero nas ruas de Chicago. Se esforçava para encontrar um equilíbrio até que três senhoras entraram para mudar sua vida."

Os autores devolveram seu texto, o elogiaram - e fizeram algumas anotações com ideias para que ele revisasse o texto.

"Minha impressão é que eles estão lidando com temas fortes e histórias fantásticas, mas para conseguir expressar a essência do que querem dizer vai demorar um pouco e eles precisarão reescrever suas histórias diversas vezes", disse Eig a respeito dos alunos. "É como a psicoterapia, e o primeiro impulso para esses e outros escritores é resistir."

Por Monica Davey

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