Polêmica sobre centro islâmico alimenta campanha republicana

O republicano e candidato a governador Rick A. Lazio aproveita a memória viva do 11 de Setembro para ganhar eleitores

The New York Times |

Em um complexo de escritórios na antiga cidade industrial de Poughkeepsie, Nova York, o ex-congressista de Long Island e candidato a governador, Rick A. Lazio, sofreu uma série de ataques comuns sobre a disfunção política em Albany e o alto custo dos impostos antes de ganhar força com a multidão.

A polêmica que usou para isso não foi sobre economia, ou mesmo ataques a seu rivais, mas sim o centro da comunidade muçulmana e planejada mesquita no bairro de Lower Manhattan. “Nós não acreditamos em dar as costas às vítimas do 11 de Setembro”, ele disse, sob aplausos entusiasmados.

Conforme se aproxima a primária republicana para a disputa do governo, Lazio está fazendo da forte oposição ao projeto a peça central de sua candidatura, atacando-o na campanha eleitoral, testemunhando contra ele em audiências públicas, denunciando-o em comerciais de televisão e até mesmo criando uma petição online que exige uma investigação sobre o centro e seus organizadores. “Defenda Nova York”, diz o enorme título acima da petição em seu site.

Oposição implacável

Como a principal voz de Nova York contra o centro, Lazio tem atraído grande atenção do público para uma campanha que não tinha muito motivo para ganhar impulso, ofuscada pelo dinheiro e força de seu rival democrata, o procurador-geral Andrew M. Cuomo.

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Candidato a governador, o republicano Rick A. Lazio é a principal voz de Nova York contra o centro islâmico
A oposição implacável de Lazio ao projeto – ele chegou a atacar o imã durante participação no programa de domingo "Meet the Press", na emissora NBC – acontece, acima de tudo, em vista da opinião dos eleitores e das primárias republicanas, dizem analistas. Mas ele corre o risco de alienar os moderados que poderiam ser cruciais em uma eleição geral.

Certamente está irritando muitos líderes muçulmanos, que dizem que Lazio está atacando os piores receios dos eleitores e provocando uma reação de algumas vozes influentes na comunidade de 11 de Setembro entre as equipes de emergência, que dizem que ele está explorando a tragédia.

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Lazio, no entanto, está seguindo adiante com a estratégia, chegando a romper com uma regra não escrita da política de Nova York, de que não se deve usar imagens do 11 de Setembro em publicidade de campanha.

Na semana passada, ele veiculou uma campanha na internet criticando a mesquita com equipes de resgate do 11 de Setembro e um comercial de televisão no qual ele aparece diante de fotos de um World Trade Center tomado por fumaça. Além disso, questiona de onde virá o dinheiro para o centro muçulmano e declara que Cuomo, que defendeu os direitos dos organizadores do projeto, “está muito, muito errado”.

Em entrevista, Lazio defendeu seu foco no centro muçulmano dizendo que, para muitos nova-iorquinos, a memória do 11 de Setembro se manteve extremamente viva e que, para eles, propor um prédio de 13 andares para um centro muçulmano a poucos quarteirões do Marco Zero é algo insensível e até mesmo ofensivo.

“Muitos de nós já avançaram desde 2001, mas para outras pessoas as lembranças são muito vívidas e muito reais”, ele disse. “E há uma incrível conexão emocional com as pessoas que tiveram essa experiência: maridos, esposas, filhos, pais, as vítimas, todos os quais foram vítimas”.

Ofensivo

Os sindicatos que representam os bombeiros e policiais da cidade imediatamente exigiram que Lazio removesse sua propaganda mais recente, chamando-a de uma afronta. Ed Mullins, diretor do sindicato dos sargentos da polícia da cidade, qualificou as propagandas de "tão irresponsáveis quanto condenáveis”.

De sua parte, grupos muçulmanos se opuseram vigorosamente à caracterização de Lazio do imã do centro, Feisal Abdul Rauf, a quem ele chama de “simpatizante de terrorista”.

Alguns analistas políticos e consultores dizem que a crítica de Lazio ao projeto acontece, em grande parte, para afastar seu concorrente Carl Paladino, um conservador rico do interior do Estado que se manifestou contra o projeto em linguagem ainda mais direta do que Lazio. Em seu próprio comercial, Paladino prometeu que, se eleito, iria usar o poder do governo para forçar os idealizadores do centro a encontrar um outro local.

No entanto, como qualquer controvérsia que queima com emoção – atiçada pela televisão a cabo, jornais e programas de rádio – a chama pode perder o interesse dos eleitores que estão mais preocupados com o próprio bolso.

Ataque

No domingo, como convidado no programa "Meet the Press", Lazio atacou o líder espiritual do projeto, Abdul Rauf. “Há milhões de bons muçulmanos nos Estados Unidos”, ele disse. “Este imã, Rauf, não é um deles”.

A crítica de Lazio ao projeto incluiu também ataques diretos a Cuomo, que, segundo ele, não foi capaz de investigar o financiamento por trás dos US$100 milhões previstos para centro, que terá uma mesquita, um restaurante, uma piscina e outros espaços de recreação comunitária. “Eu não sei porque ele não está mais curioso a respeito de onde vem o dinheiro”, disse Lazio no programa. “Ele é o principal agente de execução da lei deste Estado”.

Cuomo não quis comentar para este artigo, mas assessores disseram que como os desenvolvedores arrecadaram tão pouco dinheiro não há nada a investigar.

*Por Michael Barbaro

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