Plano de retirada pode ir contra interesses de EUA e Iraque

Autoridades dos dois países defendem presença americana em território iraquiano, mas mudança de estratégia oferece risco político

The New York Times |

Em um recente discurso, o presidente Barack Obama disse que iria cumprir a promessa de encerrar a missão oficial de combate no Iraque de acordo com o cronograma , e prometeu cumprir o próximo prazo: retirar todas as forças americanas do solo iraquiano até o final de 2011.

“Como acordado com o governo iraquiano, vamos manter uma força de transição até que todas as tropas sejam retiradas do Iraque, no final do próximo ano”, disse o presidente.

A realidade no Iraque pode desafiar esse prazo, porque muitos oficiais americanos e iraquianos consideram que a presença americana é do interesse de ambos os países.

“Por um longo período vamos estar no país, mesmo que seja apenas para oferecer suporte a seus sistemas de armas americanos”, disse Ryan C. Crocker, embaixador americano em Bagdá até 2009 e responsável por negociar acordos entre os dois países e os mandatos para que todas as tropas americanas deixem o país até o final de 2011.

Segundo ele, mesmo quando esse prazo foi negociado, uma presença duradoura - embora significamente menor - das forças americanas sempre foi considerada provável.

No momento, cinco meses após as eleições nacionais, ainda não há um governo iraquiano com o qual falar sobre o que qualquer acordo pós-2011 pode acarretar. Mas muitos oficiais iraquianos julgam a presença necessária em várias frentes: o Iraque está comprando armas americanas cada vez mais sofisticadas, como tanques e aviões, e irá precisar de americanos aqui para sua manutenção. Ao mesmo tempo, a formação do exército do Iraque está sendo intensificada para que aprendam não apenas como confronttar insurgentes internos, mas também a proteger as suas fronteiras nacionais – um projeto que vai levar muitos anos.

E muitos americanos, principalmente o vice-presidente Joe Biden, têm sustentado que não é do interesse dos Estados Unidos uma retirada completa – mesmo que Obama tenha alcançado proeminência nacional por sua oposição à guerra do Iraque e concorrido à presidência prometendo acabar com ela.

A decisão terá repercussão direta no que os Estados Unidos irão colher de todo o sangue derramado – mais de 4 mil vidas americanas perdidas -, sob a forma de um aliado democrático em uma região volátil que seria um cheque no poder do Irã e ofereceria aos americanos acesso às vastas reservas de petróleo do Iraque.

Uma presença americana prolongada, a um custo relativamente baixo, pode impedir que o Iraque, um país com uma história longa e violenta de golpes e tirania, retorne à guerra civil.

Mas a decisão pode ser politicamente arriscada para ambos os lados. Para Obama, um compromisso com o aprofundamento de um conflito a que se opôs poderia alienar os simpatizantes que o ajudaram a conquistar a presidência, especialmente conforme o seu partido lentamente o abandona na questão da guerra no Afeganistão.

Os líderes iraquianos enfrentam um público que deseja se ver livre da influência dos militares americanos, mas as deficiências das forças armadas do país são evidentes.

“Nosso país não será capaz de se defender contra a agressão estrangeira por muito tempo”, disse Zebari, ministro de Assuntos Externos do Iraque. Mas ele evitou a questão da permanência dos americanos: “Cabe ao governo decidir se há tal necessidade”.

Quando o acordo de segurança foi negociado em 2008, era politicamente essencial para as autoridades iraquianas estabelecer a soberania de seu país, fixando um prazo para a retirada americana, ainda que tenha sido amplamente reconhecido que o acordo poderia ser alterado posteriormente.

“A ideia durante o final de 2008 era a concepção iraquiana de que não haveria necessidade de uma presença militar americana no país por um período prolongado de tempo, mas sim que a ocupação americana fosse encerrada imediatamente”, disse Crocker.

Apesar de soldados iraquianos e policiais estarem morrendo nas mãos dos insurgentes, o foco da missão americana mudará para a preparação das defesas do Iraque. Centenas de milhares de iraquianos morreram na guerra com o Irã na década de 1980.

“O que iremos fazer ao longo dos próximos 17 meses será muito mais oferecer o treinamento que nós pensamos que eles precisam para se proteger”, disse o general Ray Odierno, comandante americano no Iraque.

Além dos tanques, os iraquianos compraram dos Estados Unidos rifles M-16 e navios da Marinha, além de estarem planejando a compra de jatos de caça F-16. As compras podem exigir que contingentes de tropas americanas e empresas privadas permaneçam no país além de 2011 como instrutores e conselheiros.

Em meio ao calor escaldante em uma base do Exército iraquiano no sul de Bagdá, em uma área antigamente conhecida como triângulo da morte, uma pequena unidade de soldados americanos está treinando soldados iraquianos em uma missão que estará longe de ser concluída até o final do próximo ano: a preparação do país para enfrentar inimigos estrangeiros.

As forças americanas continuam a deixar o país, para atingir o objetivo do presidente de estar abaixo de 50 mil soldados até setembro. É um processo que tem acontecido durante todo o verão em um cenário de paralisia política e o reconhecimento por parte da classe política do Iraque que Obama está cada vez mais investido na guerra no Afeganistão.

Entretanto, o legado da guerra e o futuro das relações entre Estados Unidos e Iraque são incertos.

“Todo mundo considera que no 1º de setembro, iremos abandonar o Iraque”, disse Odierno. “Nós não estamos abandonando o Iraque. Estamos mudando o nosso compromisso liderado por militares para um compromisso liderado por civis. Que é o que eu acho que eles precisam mais”.

Por Tim Arango

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