Pierre Cardin recupera vila francesa e atrai raiva de moradores locais

LACOSTE - O Marquês de Sade viveu neste celeiro do protestantismo, uma cidade atordoante construída com pedras da cor do café-au-lait, que se impõe das alturas do vale do Rio Luberon, evitando os orgulhosos católicos de Bonnieux. Ele foi preso e processado depois que os moradores da cidade contestaram suas visões sexuais e políticas. Em 1789 seu castelo foi saqueado.

The New York Times |

Pierre Cardin, 87 anos, parece um herdeiro estranho. Mas depois que comprou as ruínas do castelo, há nove anos, e estabeleceu um festival de música de verão no local, alguns dos 450 moradores de Lacoste, vila que vota na esquerda política, começaram a tratá-lo como um nobre odiado e representante do capitalismo mundial. Também não ajudou que ele tenha continuado a comprar propriedades na cidade, mesmo que a preço justo.


Vila francesa rejeita o crescimento / NYT

Agora ele diz possuir 42 edifícios nesta vila que parece ter sido tirada de um cartão postal, e não nenhuma paciência para os habitantes que pensam ele está destruindo a cidade. Ao invés disso, tendo investido quase US$ 30 milhões em Lacoste, empregando 80 pessoas durante o verão, ele acredita ter resgatado o local.

"Eu não entendo este ódio de recém-chegados", ele disse em uma entrevista. "As pessoas não haviam feito nada por esta vila. Aqui não havia esgoto, luz à noite, nada", ele disse. "A cidade não havia mudado desde os anos 1930".

Bruno Pitot, 25, acaba de conseguir um emprego na cozinha do Café de Sade de Cardin. Para ele, a presença de Cardin "tem aspectos positivos e negativos". "Eu acho que as pessoas têm inveja. Ele tem muito dinheiro e começou a comprar todas estas casas. Nós temos medo que ele feche a vila!".

Ainda assim, Pitot disse que não tinha mais como viver em Lacoste, por causa do aumento nos valores das propriedades, e quando seus parentes morreram ele teve que vender sua casa para pagar os impostos sobre a herança.

Mas o que transtorna muitos aqui é a idade avançada de Cardin. "Afinal de contas, ele tem 87 anos, e nós não sabemos o que acontecerá quando se for", disse Pitot. "Eu lhe desejo uma vida longa, é claro. Mas Cardin é uma pessoa que anda depressa demais, e ele tem pouco tempo. Algumas pessoas querem que ele se lembre que é preciso respeitar as tradições".

Depois da Segunda Guerra Mundial, Lacoste (que não tem nenhuma relação com o jogador de tênis e suas camisas de crocodilo) estava quase vazia, com menos de 30 pessoas nos registros eleitorais. A vila foi uma base de resistência francesa e muitas das estruturas do século 15 e 16 estavam em ruínas.

Em 1958, o pintor americano, Bernard Pfriem, veio para cá e se apaixonou pelo local. Ele comprou uma casa por muito pouco dinheiro, depois comprou outras mais e começou a restaurá-las. Ele era muito querido pelos moradores locais.

Em 1970 ele inaugurou a Escola de Artes de Lacoste, que depois teve ligação com a Faculdade Sarah Lawrence de Nova York. Mas em 2002, todo o complexo de 31 edifícios foi comprado pela Universidade Savannah, baseada na Geórgia. O campus de Lacoste tem cerca de 60 estudantes para aulas de oito semanas e funciona o ano todo, trazendo alguma vida para a cidade durante os severos meses de inverno, quando a população local cai para menos de 100.

Mary Scarvalone é a diretora do campus de Lacoste que tomou conta de pelo menos mais dois edifícios depois de um cuidadoso trabalho de restauração. "A escola coexiste bem com a cidade", ela disse, e faz um esforço para trazer os moradores para atividades dentro do campus, como em aulas de desenho. Também mantém boas relações com Cardin cujos eventos de verão custam apenas 10 euros, cerca de US$ 14, para estudantes e qualquer um com menos de 26 anos.

E todo o mundo tenta manter boas relações com Aristide, o mendigo trilíngüe que é conhecido por gostar de beber e gritar: "eu não sou um travesti!".

Mas há uma real subcorrente de raiva, também. Colette Truphemus vive em Lacoste há 40 anos com seu marido, um nativo. "Com Cardin e a escola, nós não estamos mais em casa", ela disse. "Lacoste não é mais Lacoste. As casas estão caras demais e os jovens não conseguem continuar aqui".

Os turistas estrangeiros e visitantes parisienses, bem como os estudantes de arte, principalmente americanos, se juntam em grupos, enquanto bagunçam na cidade. "Nós só os vemos à noite, quando eles nos acordam", ela disse. "É uma vergonha".

Cardin disse: "A cidade agora está melhor. Nós tivemos que esperar oito anos! Eu tive momentos difíceis nos quais pensei em desistir. Eu fiz isto por Lacoste, não por mim. Eu nem mesmo posso viver em todas as minhas casas!"

Cardin disse que o festival e seus projetos irão continuar após sua morte.

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