Persistência de palestino resulta em celebrado documentário

Com ajuda de cineasta israelense, fazendeiro faz retrato da vida na Cisjordânia que compete no festival de Sundance

The New York Times |

Emad Burnat nasceu para mexer com a terra. Como outras gerações de sua família na aldeia de Bilin, localizada nas montanhas da Cisjordânia, ganhava a vida modestamente trabalhando o solo rochoso da região. Mas há seis anos, no nascimento de um de seus filhos, ele ganhou uma câmera de vídeo e inesperadamente se tornou o documentarista da aldeia.

Havia muita coisa para ser registrada. Israel estava construindo uma barreira de separação em terras da aldeia, algo que chegou a afetar a sua própria família. A lógica por trás da construção era impedir ataques terroristas, mas com isso acabaram confiscando a maior parte das terras aráveis da aldeia e permitiram a expansão de um enorme assentamento israelense.

Tratores destruíram centenas de oliveiras que tinham sido plantadas há muito tempo, enquanto os novos habitantes da região chegavam com móveis e trailers. Aldeões bloqueavam as passagens, mas os soldados os prendiam. Burnat estava lá dia sim, dia não, filmando tudo com sua nova câmera.

NYT
Emad Burnat, fazendeiro e agora cineasta, abraça o filho Gibreel perto do muro de separação da Cisjordânia (20/01

Burnat, que está trabalhando junto com um cineasta israelense, Guy Davidi, conseguiu fazer com que todos os anos de filmagem se tornassem um relato sobre suas experiências pessoais. O filme "Five Broken Cameras" (Cinco Câmeras Quebradas, em tradução literal) ganhou dois prêmios em novembro no Festival Internacional de Documentários de Amsterdã, incluindo o Prêmio do Público, e está concorrendo no Festival de Sundance, na categoria de Melhor Documentário Estrangeiro.

À medida que Bilin se tornava o marco zero da resistência popular palestina – com manifestações semanais acompanhadas por ativistas israelenses e estrangeiros, e uma vitória parcial no Supremo que forçou a barreira a ser movida -, as imagens capturadas por Burnat tornaram-se cruciais. Elas não apenas foram utilizadas por jornalistas como também por pessoas lutando contra acusações em tribunais militares israelenses. Questões muitas vezes foram resolvidas da seguinte maneira: “Vamos recorrer às imagens de Emad.”

O novo documentário intercala cenas de moradores se opondo a barreira com as primeiras palavras do filho de Burnat, Gibreel ("cartucho", "exército"), agentes israelenses prendendo amigos e parentes e a esposa de Burnat, Soraya, implorando-lhe para que dê atenção a sua família e desista de focar em assuntos políticos. Nos últimos seis anos, Burnat teve cinco câmeras, e cada uma delas foi quebrada no decorrer das filmagens - entre outras coisas, pelas balas dos soldados e por um morador israelense irritado.

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No início do filme, Burnat coloca as câmeras em fileira em cima de uma mesa. Elas formam os capítulos da história e criam um tema para o drama - o poder de testemunhar. Burnat nunca deixa de lado sua câmera e isso deixa seus adversários loucos.

"Diga-lhe que se ele continuar filmando, vou quebrar seus ossos!", diz um israelense a um soldado. Burnat continua filmando. O morador se aproxima dele e, enquanto a câmera continua ligada, ele a joga no chão, quebrando-a. A tela fica em branco.
“Quando estou filmando, sinto que a câmera está me protegendo", diz Burnat em seu tom de voz suave, durante a narração do filme, tocando num assunto que é familiar para muitos jornalistas. "Mas é uma ilusão."

Em uma cena, os soldados chegam à casa de Burnat ("Agora é minha vez", ele diz para a câmera) para prendê-lo sob a acusação de atirar pedras e agredir um soldado - acusações que ele negou e das quais mais tarde foi exonerado, de acordo com um porta-voz do Exército. Ele filma a entrada dos soldados em sua casa e escuta que deve desligar a câmera pois está em uma "zona militar fechada". "Estou na minha própria casa", responde. Ele passa três semanas preso e seis semanas sob prisão domiciliar. O caso foi desconsiderado depois de três anos.

Um tema indireto do filme é o ativismo de dois amigos próximos de Burnat, Adeeb e Bassem Abu Rahma, que eram primos. Bassem foi apelidado de "Phil", a palavra árabe para elefante. Os dois eram brincalhões e estavam na linha de frente das manifestações. Phil foi morto em uma manifestação em 2009 e, originalmente, Burnat tinha pensado em fazer o filme à respeito dele.

Mas Davidi e uma organização israelense chamada Greenhouse, que une cineastas locais com mentores europeus e é financiada pela União Europeia, convenceu Burnat a colocar-se no centro da sua história.

Foi uma jogada crucial que deu ao filme o seu poder e sua intimidade. Mas tudo isso não aconteceu de uma forma muito natural. "Foi muito difícil tomar a decisão de fazer um filme tão íntimo assim", disse Burnat, 40, ao se sentar no jardim de sua casa. Gibreel, agora com seia anos, e seus irmãos mais velhos ficavam entrando e saindo da casa, e o assentamento Modiin Illit podia ser visto à distância. "Não me sentia muito confortável em mostrar imagens de minha esposa. Isto pode ser normal na Europa, mas aqui na Palestina isso pode fazer com que você tenha que responder muitas perguntas. Tenho evitado até hoje que o filme seja exibido aqui no país."

Davidi, 33, o co-diretor israelense, foi a Bilin em 2005 para filmar um documentário sobre os palestinos que trabalham na construção civil no assentamento, e foi aí que conheceu Burnat. "Queríamos que nosso filme fosse visto de uma maneira mais sutil, não como provocativo ou combativo", disse Davidi.

O estilo pessoal do filme não é a única questão que vem trazendo problemas para Burnat. Trabalhar com um cineasta israelense e ter a ajuda da Greenhouse tem causado controvérsias. O movimento palestino tem cada vez mais promovido um boicote de todas as coisas que são de Israel com a ideia de que este tipo de postura serve para "normalizar" as relações, que devem ser cortadas até que haja progresso à respeito do fim da ocupação.

"Quando mostramos o filme em Amsterdã, palestinos e árabes vieram até mim e me perguntaram porque eu estava trabalhando com os israelenses", disse Burnat. "Mas desde o início a luta por Bilin tem envolvido ativistas israelenses."

A Greenhouse, que patrocinou 15 filmes e reuniu cem cineastas de Israel, Líbano, Turquia, Egito, Argélia, Jordânia, Marrocos, Tunísia e territórios palestinos, está ciente de que muitos no Oriente Médio não apoiam o trabalho que eles fazem.

Sigal Yehuda, diretora-executiva da Greenhouse, disse que o assunto é discutido abertamente nos seminários que o grupo patrocina em diversos lugares do mundo.

"Coexistir é um dos frutos mais importantes do que fazemos", disse ela. "Estas pessoas, que são inteligentes e influentes, já comeram, beberam e até dançaram com os israelenses.”

Para Burnat, a questão de coexistir é bem delicada. No final de 2008, ele acidentalmente bateu um caminhão que dirigia na barreira de separação e ficou gravemente ferido. Uma ambulância palestina chegou ao mesmo tempo que os soldados israelenses, que viram que ele estava ferido e o levaram para um hospital de Israel.

"Se tivesse sido levado a um hospital palestino", disse Burnat, “provavelmente não teria sobrevivido."

Ele ficou inconsciente durante 20 dias. Três meses depois, estava de volta filmando com seu filho Gibreel quase sempre atrás dele.

"A única proteção que posso oferecer a ele", disse Burnat sobre Gibreel, naquele momento do filme no qual parece estar falando com cronistas do mundo todo, "é de lhe permitir ver tudo com seus próprios olhos, para que possa enfrentar o quão vulnerável a vida é."

Semanas depois, uma granada de gás lacrimogêneo de Israel atingiu seu amigo Phil no peito e o matou.

Por Ethan Bronner

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