Perguntas para Enrique Penalosa: Um homem com um plano

O antigo prefeito de Bogotá, Colômbia, fala sobre as cidades mais bem desenhadas do mundo, o problema com praias privativas e porque calçadas são essenciais para a democracia.

The New York Times |

Q: Como antigo prefeito de Bogotá, na Colômbia, que foi amplamente aclamado por ter feito da cidade um modelo de planejamento esclarecido, você tem sido, ultimamente, contratado por órgãos oficiais na construção de cidades notórias, especialmente na Ásia e nos países em desenvolvimento. O que é a primeira coisa que diz a eles?

R: Em cidades de países em desenvolvimento, a maioria das pessoas não tem carro, então eu direi, quando construírem uma boa calçada vocês estarão construindo democracia. A calçada é um símbolo de igualdade.

Q: Eu não achava que calçadas fossem uma prioridade no topo da lista nos países em desenvolvimento.

R: É a última das prioridades. Porque a prioridade é fazer auto-estradas e estradas secundárias. Nós estamos desenhando cidades para carros, carros, carros, carros, carros. Não para pessoas. Carros são uma invenção muito recente. O século 20 foi um retrocesso horrível na evolução do habitat humano. Nós estamos construindo muito mais para a mobilidade dos carros do que para a felicidade das crianças.

Q: Mesmo em pais onde a maioria da população não tem meios para possuir carros? 

R: As pessoas de alta renda nos países em desenvolvimento nunca andam. Elas vêem a cidade como um espaço ameaçador, e eles podem passar meses sem andar por um quarteirão.

Q: Isso não é verdade também nos Estados Unidos?

R: Não em Manhattan, mas existem muitos subúrbios onde não há calçadas, o que é um mau sinal de falta de respeito à dignidade humana. As pessoas nem mesmo questionam isso. É o mesmo que na França pré-revolucionária. As pessoas achavam a sociedade normal assim como hoje acham normal que a beira da praia em Long Island Sound seja privativa.

Q: Você está comparando pessoas com casas com vista para Long Island Sound com aristocratas franceses corruptos?

R: Se a democracia prevalece, o bem estar público prevalece sobre os interesses privados. A questão é: a maioria da população seria mais feliz com uma beira de praia pública em Long Island Sound ou não? Todas as crianças devem ter acesso à beira da praia sendo ou não membros de um clube de campo. 

Q: A maioria dos 6 bilhões de pessoas do mundo vive em cidades ou no campo?

R: Nesse momento um pouco mais delas no campo. Nós estamos em processo de sermos mais urbanos. Nos países em desenvolvimento, mais da metade das cidades, especialmente na Ásia e na África, ainda estão para serem criadas.

Q: Quais são as cidades mais bem desenhadas do mundo?

R: As cidades mais bem desenhadas do mundo estão na Europa do norte, com as cidades holandesas e dinamarquesas.    

Q: Como prefeito de Bogotá, você exigiu calçadas para pedestres, extinguindo os estacionamentos em calçadas, seu feito mais famoso.

R: O mais famoso e o mais controverso. Mas nós começamos por construir ciclovias, e agora cinco por cento da população, mais de trezentos e cinqüenta mil pessoas, para o trabalho de bicicleta.

Q: Porque você acha que perdeu a sua recente candidatura a prefeito no ano passado?

R: Eu tive algumas grandes brigas quando eu era prefeito. Eu quase sofri impeachment por ter tirado os carros das calçadas.

Q: Você tem um carro?    

R: Sim, uma perua blindada. 

Q: Você quer dizer, a prova de balas?

R: Sim. Nós tivemos alguns problemas.

Q: Atiraram em você?

R: Não, nunca atiraram em mim, mas, nunca se sabe. Qualquer político na Colômbia corre o risco.

Q: Onde você estudou?  

R: Eu fui para Duke. Eu, na verdade, me diplomei em economia e história.

Q: Você provavelmente era o único socialista em Duke.

R: No final das contas eu percebi que, claro, o socialismo era um fracasso no sistema econômico. Ainda assim a igualdade não está morta. O socialismo está morto, mas a igualdade é um objetivo que não está.       

Q: Você se vê como um planejador de cidade ou um político?

R: De coração o que eu realmente sou é um político mas, um mau político porque eu perco eleições.       

(Entrevista conduzida, condensada e editada por Deborah Solomon, uma escritora que contribui com a revista The New York Times.)

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