Pelo bem da privacidade, garotas correm riscos para acabar com a gravidez

NOVA YORK ¿ Amalia Dominguez tem 18 anos e estava desesperada, sabia exatamente o que pedir na pequena e familiar farmácia no centro de Washington Heights, no próspero território dominicano no norte de Manhattan. ¿Eu preciso menstruar¿, ela disse em espanhol, usando um eufemismo que o farmacêutico entendeu instantaneamente.

The New York Times |

Foi há 12 anos, mas a lembrança permanece viva: ela recebeu uma caixa de comprimidos. Eram pequenos e brancos, US$ 30 por 12. Dominguez, grávida de dois ou três meses, foi ao apartamento de um amigo e tomou as pílulas uma por uma com malta, extrato de uma substância vendida em qualquer mercearia da vizinhança.

A cólica começou algumas horas depois, fazendo Domingues se contorcer, aumentando cada vez mais até que oito horas e meia depois ela se trancou no banheiro e soltou um feto sem vida no vaso sanitário para então dar a descarga.

As pílulas eram de misoprostol, remédio aprovado pela Administração de Alimento e Remédio para reduzir úlceras gástricas e as quais os pesquisadores dizem que é comumente, embora ilegalmente, usada pela comunidade dominicana para induzir o aborto.

Dois novos estudos de provedores de saúde reprodutiva lembram que o uso impróprio de tais drogas é apenas mais um de diversos métodos, incluindo questionáveis poções caseiras, frequentemente empregadas em tentativas de acabar com a gravidez, por mulheres de culturas extremamente anti-aborto, embora haja diversas clínicas e hospitais nos quais se pode fazer um aborto seguro, legal e acessível.

Métodos incomuns

Um estudo avaliou 1.000 mulheres, a maioria latina, em Nova York, Boston e São Francisco e espera-se que ele seja divulgado no meio do ano; o outro, feito pela Planned Parenthood (maternidade planejada), envolveu uma séria de grupos focais com 32 mulheres dominicanas em Nova York e Santo Domingo. Juntos, eles encontraram relatos de mulheres que misturaram bebidas alcoólicas com aspirina, sal ou noz moscada; se jogaram de escadas ou pediram para pessoas darem socos em sua barriga; e tomaram chás de folha de abacate, madeira de pinheiro, casca de carvalho e casca de mamon (fruta exótica dominicana).

Entrevistas com diversos líderes de comunidade e mulheres individuais em Washington Heights mostraram descobertas e revelaram ainda mais métodos não convencionais como suco de jeans, uma mistura nociva feita de um pedaço de tecido grosso fervido.

Algumas mulheres preferem uma experiência mais particular em seu aborto, o que claro é compreensível, disse Dr. Daniel Grossman, obstetra do Íbis Reproductive Health em São Francisco, que se uniu ao Gynuity Health Projects em Nova York para levar adiante o extenso estudo. As coisas que elas mencionam são é mais fácil. Foi recomendado por um amigo ou membro da família.

Preocupação

Dr. Carolyn Westhoff, obstetra do New York Presbyterian e do Centro Médico da Universidade de Columbia, disse que a tendência se encaixa em um contexto mais amplo de dominicanos procurando remédios caseiros, ao invés de procurar a ajuda de médicos e hospitais, em parte por causa da falta de plano de saúde, mas principalmente por causa da falta de confiança no sistema de saúde. Não é apenas uma cultura de indução ao aborto, disse ela. É uma cultura na qual você vai até a farmácia e consegue o remédio que precisa.

Físicos dizem que mulheres podem obter as pílulas tanto em farmácias que quebram as regras ao fornecer remédios sem receita médica ou conseguir que elas sejam trazidas por navio.

É impossível saber quantas mulheres em Nova York ou no país inteiro tentam acabar com a gravidez por conta própria, mas nas vizinhanças dominicanas vibrantes e socialmente conservadoras no alto de Manhattan, a variedade de métodos são passados como antigos segredos culturais. Em um estudo com 610 mulheres feito em três clínicas de Nova York em grandes vizinhanças dominicanas, há oito anos, 5% disse que tomaram misoprostol por conta própria e 37% disse que sabiam que era uma droga para induzir o aborto. Médicos e líderes de comunidade disseram que não perceberam nenhum sinal de que o fenômeno está desaparecendo, o que eles consideram preocupante por causa dos efeitos que a droga pode causar ou possíveis efeitos colaterais.

Indústria farmacêutica

Vendido com o nome de Cytotec, o misoprostol é aprovado para induzir o aborto quando tomado com mifepristone ou RU-486; médicos também usam algumas vezes para induzir o parto, embora não seja aprovado para esse uso. Um porta-voz da Pfizer, que fabrica o Cytotec, se recusou a falar além de sua declaração de que a companhia não apoia esse tipo de uso do produto e aponta que o rótulo inclui A Administração de Alimento e Remédio adverte que o produto não deve ser usado por mulheres grávidas.

Essa advertência, em letras maiúsculas, também lembra que a droga pode causar aborto.

Incerteza

Mas nem sempre causa, não apenas porque as noções de uso variam entre inserir diversas pílulas na vagina ou deixá-las dissolver embaixo da língua. Os efeitos colaterais podem ser sérios e inclui o rompimento do útero, hemorragia e choque.

Nós nos preocupamos porque não sabemos onde as mulheres estão conseguindo informação, disse Jessica Gonzáles-Rojas do Instituto Nacional Latino de Saúde
Reprodutiva, que também é parceiro no estudo do Ibis. Nós imaginamos que há informações incorretas em como tomá-lo, o que pode dar certo ou errado.

Em 2007, em Massachussets, uma imigrante dominicana de 18 anos chamada Amber Abreu tomou misprostol na sua 25ª semana de gravidez e deu luz a uma criança que morreu quatro dias depois; um juíz a julgou em junho amenizando a sentença sob certas condições e exigiu que ela fizesse terapia. Em fevereiro, na Carolina do Sul, uma emigrante mexicana que trabalha no campo, Gabriela Flores, foi considerada culpada por fazer um aborto ilegal e foi sentenciada a 90 dias de prisão por tomar misosprotol com quatro meses de gravidez em 2004. Um homem da Virgínia, Daniel Riase, está cumprindo uma sentença de cinco anos de prisão após ser considerado culpado em 2007 por colocar pílulas de dormir no copo de leite de sua namorada grávida.

Razões

Pesquisadores que estudam o fenômeno citam diversos fatores que levam as dominicanas e outras imigrantes a experimentar drogas abortivas: falta de confiança no sistema de saúde, medo de cirurgia, preocupação com a deportação, preocupação que a clínica proteste, custo e vergonha.

Isso torna o aborto um processo natural e o faz parecer motivo de culpa, disse Dr. Mark Rosing, obstetra no Hospital St. Barnabas no Bronx que conduziu o estudo 2000, publicado no Diário da Associação Médica de Mulheres. Para pessoas que não têm acesso ao aborto por razões sociais, financeiras ou de imigração, não parece ser algo tão terrível.

No caso de Dominguez, ela disse não ter plano de saúde ou dinheiro para pagar um aborto e poderia tentar conseguir um por medo de sua mãe descobrir. Uma de suas amigas gastou US$ 1.200 em um aborto que a deixou com infecção urinária e outra amiga agüentou o procedimento sem anestesia, disse ela. Além disso, Washington Heights é uma comunidade pequena e unida onde o aborto ¿ assim como métodos contraceptivos ¿ evitado; se Dominguez fosse vista entrando em uma clínica, rumores poderiam se espalhar.

Há momentos de susto e você tem um amigo ao seu lado, disse Dominguez, agora com 30 anos e mãe de quatro filhos. É barato, mas perigoso. Algumas pessoas são mais frágeis do que outras. Mas depois de tudo. Eu me senti aliviada.


Por JENNIFER 8. LEE e CARA BUCKLEY

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