Paul Krugman: democratas e o estado de confusão

Após a derrota de Barack Obama na Pensilvânia, David Axelrod, administrador de sua campanha, afirmou: ¿nada mudou na base física da corrida esta noite¿.

The New York Times |

Ele até pode estar certo ¿ mas que retrocesso. Há meses atrás, a campanha de Obama falava em transcendência. Agora fala sobre matemática. O Yes we can ( Sim, nós podemos), se transformou em No she can´t (Não, ela não pode).

Essa não era a forma como as coisas deveriam se encaminhar.

Barack Obama era uma figura transcendental, com uma habilidade quase magia em passar sobre diferenças de partido e unificar a nação. Uma vez que caiu no gosto popular ¿ e acabou com a vantagem inicial de Hillary em termos econômicos e organizacionais ¿ era esperado que ele pudesse levar facilmente a indicação partidária, e depois marchar rumo a uma forte vitória em novembro.

Bem, agora ele possui uma impressionante vantagem de fundos de campanha e conta com o apoio de grande parte dos democratas. Ainda assim, o senador não parece ser o favorito entre grandes parcelas de eleitores democratas, especialmente entre a população trabalhadora branca.

Como resultado, ele continua a perder em grandes Estados. E pesquisas de opinião sugerem ainda que Obama perderia para John McCain nas eleições gerais.

Afinal, o que há de errado?

De acordo com simpatizantes de Obama, a culpa é toda de Hillary. Se ela não tivesse lançado os inúmeros bombardeios contra seu herói, e simplesmente se retirasse de cena, a atmosfera do candidato estaria intacta, e sua missão de unificar a América permaneceria nos trilhos.

Mas, de fato, quão negativa seria a influência de Hillary Clinton? Sim, a campanha incluiu em sua lista de ataques montagens de Osama Bin Laden, a Grande Depressão e o Furacão Katrina. Ouvindo alguns especialistas, você acharia que esta propaganda era praticamente a mesma que o famoso marketing republicano acusando Max Cleland de ser fraco em relação à segurança nacional.

Não era. Os ataques da campanha de Hillary é apenas água com açúcar perto do turbilhão de ataques que republicanos irão realizar em novembro. Se a disputa, relativamente suave, já foi suficiente para chutar Obama de seu pedestal, o que se pode esperar de sua sobrevivência nas eleições gerais?

Permita-me oferecer uma sugestão alternativa: talvez sua campanha de transformação não esteja conquistando a classe trabalhadora, uma vez que a transformação pode não ser aquilo que ela está procurando.

Desde o início, eu me perguntei o que a retórica de Obama, seus diálogos sobre uma nova política e declarações como nós somos aqueles que estávamos esperando ( esperando para fazer o quê, exatamente?) significariam para famílias com salários atrasados, sem segurança trabalhista e com medo de perder a cobertura de saúde. A resposta, de Ohio à Pensilvânia, parece clara: não muito. Hillary Clinton teve a possibilidade de permanecer na corrida principalmente devido ao seu estilo consciente, seu interesse nos detalhes da política, que atingiram muitos eleitores de um modo que Obama não conseguiu.

Sim, eu sei que existem várias propostas políticas no site de Barack Obama. Mas fixar os problemas reais da sociedade trabalhadora americana não é o tema central da campanha.

De forma impressionante, a campanha de Obama colocou mais energia nos ataques à proposta sobre os planos de saúde de Hillary que focou sua própria idéia de cobertura universal.

Durante os últimos dias da disputa na Pensilvânia, a campanha de Obama engatou uma campanha da televisão repetindo as conseqüências do projeto de Clinton, que segundo ele, forçaria as pessoas a adquirirem planos de saúde pelos quais não podem pagar. Sua iniciativa foi tão negativa quando qualquer ataque de Hillary ¿ mas talvez ainda mais importante, foi uma amostra de medo às pessoas que acham que não necessitam de plano de saúde, ao invés de uma segurança para famílias que tentam obter cobertura ou têm medo de perdê-la.

Durante os últimos dias de campanha na Pensilvânia, o comitê eleitoral de Obama veiculou uma propaganda de TV repetindo a acusação desonesta de que o plano de Hillary forçaria as pessoas a comprarem planos de saúde pelos quais não poderiam pagar. Foi tão negativa quanto qualquer propaganda veiculada por Hillary -mas talvez mais importante, foi uma fomentação de medo voltada a pessoas que não acham que precisam de seguro saúde, em vez de uma garantia para as famílias que estão tentando obter cobertura ou têm medo de perdê-la.

Logo, não é de se estranhar que democratas mais velhos continuem preferindo Hillary.

A questão que democratas, de dentro e fora da campanha de Obama, deveriam perguntar a si próprios é: agora que a magia se dissipou, qual o objetivo da campanha? Mais genericamente, qual é o papel dos democratas nesta eleição?

Esta deveria ser uma questão de fácil resposta. Democratas poderiam justamente se mostrar como o partido da segurança econômica, o partido que criou a Social Security e a Medicare e que defendeu ainda programas contra os ataques republicanos ¿ e finalmente, o partido que pode trazer assistência médica para todos os norte-americanos.

Democratas ainda poderiam se autodenominar o partido da prosperidade; o contraste entre a economia de Clinton e a de Bush é a melhor propaganda que democratas poderiam utilizar desde Herbert Hoover.

Mas a mensagem de forte tradição que democratas estão preparados para continuar não combina com os discursos de uma nova política e com a retórica que atribuiu a culpa da atual conjuntura do país a ambos os partidos.

A menos que democratas possam superar esse estado de confusão gerado por eles próprios, há uma boa chance que agarrem a derrota das garras da vitória nas eleições gerais de novembro.

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