Paul Krugman: agarrando-se a um estereótipo

Irá a declaração ¿amarga¿ de Barack Obama desempenhar um grande papel na política norte-americana? Francamente, não tenho a menor idéia.

The New York Times |

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  • Mas aqui vai uma pergunta diferente: Obama estava certo?

    Os comentários de Obama combinaram afirmações sobre economia, sociologia e comportamento dos eleitores. Em cada caso, suas afirmações estavam em grande parte, senão totalmente, erradas.

    Economia

    Começou pela economia. Obama: você vai para estas pequenas cidades da Pensilvânia e, como uma série de localidades no meio-oeste, os empregos sumiram há 25 anos e nada os substituiu. Ao contrário, caíram ainda mais no governo Clinton e Bush.

    De fato, existem pequenas cidades onde fábricas foram fechadas durante os anos 80 e nada as substituiu. Mas a sugestão de que a área central dos Estados Unidos sofreu igualmente durante os governos Clinton e Bush é profundamente equivocada.

    Na realidade, os anos Clinton foram muito bons para trabalhadores norte-americanos do meio-oeste, onde a classe média contou com um aumento das rendas, após uma forte queda registrada depois do ano 2000.

    Podemos argumentar sobre o crédito que Bill Clinton merece por este acontecimento. Mas se eu fosse um líder do Partido Democrata, eu pediria que Obama parasse de manchar a distinção entre a prosperidade da era Clinton e o desastre econômico do governo Bush.

    Sociologia

    Próximo, a sociologia: E não há nenhuma surpresa no fato de se transformarem em pessoas amargas, se apegarem às armas, religião ou antipatia contra pessoas que não são como eles.

    A palavra-chave aqui não é amarga, mas apegar. A dificuldade econômica leva as pessoas às armas de fogo, Deus ou xenofobia?

    É verdade que a população de Estados mais pobres freqüenta mais regularmente a Igreja do que pessoas de lugares com uma renda mais elevada. Isso poderia indicar que a fé é de fato a resposta para adversidades econômicas.

    Mas este resultado reflete em grande parte o fato que Estados sulistas são pobres e religiosos; alguns Estados fora do sul, como Maine e Montana, são na verdade menos religiosos que Connecticut. Fora isto, dentro de Estados pobres, a população de baixa renda tem menos tendência a freqüentar a igreja que pessoas com um alto salário. (A correlação é oposta em Estados ricos).

    No geral, nenhuma dessas afirmações sugere que pessoas procuram Deus quando passam por problemas econômicos.

    Eleitores

    Finalmente, Obama, durante declarações posteriores, afirmou que as pessoas das quais falava não votam em problemas econômicos, e ao contrário, são motivadas por questões que envolvem armas e casamento gay.

    Há uma famosa teoria política elaborada pelo livro de Thomas Frank "What's the Matter With Kansas?", que aponta que questões que envolvem valores fazem com que a classe trabalhadora norte-americana atue contra seus próprios interesses e vote nos republicanos. Aparentemente, Obama sugeriu que este era o motivo pelo qual apoiavam Hillary Clinton.

    Quando o livro de Frank foi lançado, fiquei impressionado com a obra. Mas meu companheiro de Princeton, Larry Bartels, que escreveu um editorial no The Times na última quinta-feira, me convenceu de que Frank estava errado.

    Em seu editorial, Bartels citou dados de uma pequena cidade, cuja classe trabalhadora era na realidade menos apta a votar sob as perspectivas de religião e valores sociais que residentes de alta renda de grandes metrópoles. E nem os eleitores trabalhadores se inclinaram a votar em republicanos; ao contrário, democratas tem um melhor desempenho com essa camada de eleitores atualmente que nos anos 60.

    É verdade que americanos freqüentadores de igreja regularmente tendem a votar em candidatos do partido republicano. Mas ao contrário do estereótipo, esse tipo de relação é frágil nos grupos de renda inferior e mais forte entre a população mais rica. Isto significa que, apensar da religião ajudar os republicanos, isto não convence a classe baixa a votar contra seus próprios interesses, mas por produzir supermaiorias entre evangélicos de renda elevada.

    Mas então, por que republicanos venceram tantas eleições? Em seu livro, "Unequal Democracy, Bartels mostra que a mudança do controle de um sul sólido, de democratas para republicanos, logo após o movimento pelos direitos civis explica tudo, literalmente tudo, sobre a história de sucesso do Partido Republicano.

    Será que o fato de Obama ter abraçado uma teoria incorreta sobre as motivações da classe trabalhadora realmente importa? Sua campanha certamente não se baseia no livro de Frank, com chamadas para um foco renovado nas questões econômicas, como um meio para ganhar novamente a simpatia da classe trabalhadora.

    De fato, o livro conclui com um ataque contra democratas, que satisfazem à parcela rica de colarinho branco da sociedade, que são liberais em questões sociais, ao passo que abandonam o discurso da classe, característica que por um momento os distinguia dos republicanos. Isso não soa um pouco como a campanha de Obama?

    De qualquer modo, o ponto importante é que a classe trabalhadora norte-americana vota sim em questões econômicas ¿ e pode ser tensionada por um político que ofereça respostas reais a seus problemas.

    E mais uma coisa: vamos esperar que, assim que Obama não estiver mais concorrendo com alguém que se chama Clinton, ele pare de denegrir o bom recorde econômico de um dos únicos governos democratas que de fato grande parte da população se recorda.

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