Passado turbulento espreita um sereno lago suíço

FAULENSEE - Kurt Klopfenstein pesca nas águas do lago em sua vila montanhosa há mais de 30 anos, mas o objeto que ele capturou em suas redes há pouco tempo - entre vários peixes brancos, percas, trutas e lúcios - não era nada parecido com algo que ele já tinha pescado. Uma granada manual cheia de lodo, mas mesmo assim reconhecível. ¿Cuidadosamente, eu a joguei de volta nas águas¿, disse ele, arrumando suas redes para fora de seu barco a remo, em uma tarde recente.

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Barco de Klopfenstein no Lago Thun, onde estão milhares de munições da 2ª Guerra

Todos imaginam que pegar algo como o que Klopfenstein pegou não acontece com frequência por aqui. Nas décadas posteriores à 2ª Guerra Mundial, os suíços jogaram fora mais de nove mil toneladas de munições no Lago Thun, cujas águas chegam aos poucos nessa vila montanhosa.

Como país neutro, a Suíça estocou matéria-prima das munições ¿ armas de artilharia, granadas manuais, projéteis simples e canhões -, durante a guerra, no caso de nazistas alemães ou fascistas da Itália invadirem o país, o que nunca chegou a acontecer. Algumas delas incluíam materiais capturados de trens que iam da Alemanha para a Itália, violando os acordos de neutralidade.

Nos anos anteriores a 1964, eles descartavam as munições simplesmente jogando-as em ao menos quatro lagos das montanhas. Dentre os locais havia o Lago Thun, uma extensão de água de cerca de 18 km, com 213 metros de profundidade em algumas áreas, que recebeu a maior parte das munições, cerca de nove mil toneladas.

Há quatro anos, uma integrante local do parlamento nacional, Úrsula Haller, entrou com uma moção que, se aceita, forçaria o governo federal a removê-los. Há uma preocupação com o que poderia acontecer se houvesse uma corrosão, pois o material poderia intoxicar a água", disse Haller, 60. Ela acrescentou que os lagos onde estão imersas as munições, incluindo o Lago Thun, fornecem água para cerca de 700 mil pessoas.

Mas os oficiais do Departamento de Defesa, próximo à capital Bern, argumentaram que se o método usado envolvesse levantar os sedimentos sobre as munições para então congelá-las em blocos de gelo e retirá-las do lago, removê-las poderia ser muito perigoso e custoso.

Em 2006, o parlamento rejeitou a moção de Haller e, desde então, aplica uma política de espera e observação. Mesmo Haller passou a preferir evitar o assunto. É uma região linda, disse ela. Seria uma pena prejudicar essa imagem.

A Suíça não é o único país europeu que tem munições em suas águas. A Suécia, que também é neutra, estocou matéria-prima de armas durante a guerra de maneira parecida. E quando parou, em 1969, jogou mais de 6.500 bombas em um de seus maiores lagos, que estão lá até hoje. Os EUA, a Grã-Bretanha e a União Soviética jogaram mais de 300 mil toneladas de munições no Mar Báltico, incluindo estoques de gás mostarda confiscados da Alemanha, que também permanecem submersos. Mas para a Suíça, que se recusa a tomar atitudes inadequadas, as munições no Lago Thun são como algo errado escondido sob o carpete nacional.

Nunca houve uma explosão e os especialistas concordam que as águas do lago são as mais limpas da Suíça. Ainda assim as munições estão sob os olhos dos moradores próximos ao Lago Thun por outra razão. Cerca de uma década atrás, um pescador comercial começou a perceber a deformação de órgãos reprodutivos de peixes brancos, que por gerações têm sido um ganha pão.

Alguns especularam que os componentes químicos das munições submersas foram a causa da redução do tamanho dos órgãos. Outros atribuem a essas substâncias a explosão de um túnel que passava pelos Alpes e desembocava no lago.

Christoph Kung, especialista da Inspeção de Pescaria do governo, disse que a maioria dos estudos recentes mostra que o plâncton do lago, do qual o peixe branco se alimenta, está causando deformidades nos animais. Contudo, essas pesquisas não mostram o que está afetando o plâncton. Fizemos um projeto separado sobre as munições, acrescentou ele, mas nenhum efeito negativo foi provado.

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Klopf­enste­in, em seu barco, pesca há 30 anos no Lago Thun

Pergunte aos pescadores locais sobre bombas submersas e eles logo mudarão de assunto e falarão sobre o tratamento de plantas no esgoto, que suporta os resíduos de doze ou mais vilas e cidades que ficam na costa do Lago Thun.

O que pegamos no lago é apenas 10% do que conseguíamos no fim dos anos 1970, antes de o tratamento de plantas ser criado", disse Klopfenstein 61, que pesca no lago com sua esposa, Edith. Antes disso, quando os restaurantes faziam faxina, todos os molhos e massas iam para o lago, disse ele. Os peixes adoravam!

Apesar de ter pescado a granada, ele prefere que as munições sejam deixadas no local. Com certeza não são um perigo, disse ele. Elas ficam no fundo e a cada ano mais sedimentos as cobrem.

Mas assim como muitas pessoas do lugar, ele também vê os objetos como um sintoma da crescente preocupação com a vida do lago. Com uma população em expansão e com a habitação se estendendo, surgem novas casas, contemporâneas ou, em sua maioria, cópias dos chalés tradicionais, que vão se espalhando pelas montanhas nas margens das praias.

Toda a modernização dos Alpes talvez seja uma contribuição, disse Markus A. Jegerlehner, dono de uma loja de fotografia - cuja família tem uma casa no lago há gerações -, ao ser questionado sobre o lago, os peixes e as munições.

Há alguns quilômetros da costa de Faulensee, Hans Sieber, 48, concorda com o pensamento de Klopfenstein. Nos velhos tempos, todos os açougueiros da vila juntavam sangue e partes dos animais e os jogavam nas águas que fluíam para o lago. Esse lixo, não mais disponível, era uma comida que os peixes gostavam, disse. Antes, ao menos 40 pescadores trabalhavam no lago, agora ele é um de apenas seis.

Sieber desistiu de sua carreira como chef de cozinha há 30 anos e partiu para o ramo da pescaria. Ele não deseja o fim do tratamento de plantas do esgoto nem a retirada das munições. De acordo com ele, agora há mais pessoas vivendo perto do lago do que antes, quando o esgoto era tratado. Ele acrescentou que muito mais químicos ¿ detergentes, produtos de limpeza, cremes ¿ fazem parte do lixo atual da vila.

Ainda assim, além de pescar ele também tem uma criação que chega a ter cerca de oito milhões de filhotes de peixe por ano, para ajudar a natureza a repor os animais. Esse mistério que ronda os peixes deformados o deixa muito preocupado. A única coisa certa é que o peixe branco se tornou uma das espécies mais estudadas em todos os lugares, disse ele. Já fizemos até estudos genéticos.

Por enquanto, o fornecimento de peixe é suficiente e os peixes brancos deformados podem ser comidos com segurança. As vísceras não são comidas, disse Sieber.

Por JOHN TAGLIABUE


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