Partido anti-imigração perde espaço em cidade na Suécia

Apesar da taxa de desemprego de 10,6%, um terço dos moradores da cidade de Landskrona é de imigrantes ou descendentes

The New York Times |

Michael Ahlgren, que perdeu seu emprego como guarda de segurança na Cruz Vermelha pouco antes do Natal, tem uma tatuagem da bandeira sueca em seu ombro e votou no Democratas da Suécia, partido nacionalista que chocou o país ao conquistar quase um quarto dos votos para o conselho municipal em 2006.

Ele e sua esposa são sinceros em seu ressentimento: o governo gasta dinheiro com os refugiados, eles dizem, mas o almoço de suas filhas na escola não têm quase nenhuma verdura e, para acomodar a prática religiosa muçulmana, deixou de oferecer salsichas de porco. "Eles têm muito mais consideração com os estrangeiros", disse Ahlgren.

No entanto, os eleitores da cidade de Landskrona que ajudaram a tornar visível a potência do sentimento anti-imigrante começaram a se afastar do partido – em parte porque os partidos tradicionais começaram a adotar alguns dos temas do Democratas da Suécia.

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Michael Ahlgren, que perdeu seu emprego como segurança da Cruz Vermelha, com sua filha e mulher na cidade de Landskrona, na Suécia
Há muito um campo de batalha entre a Suécia e a Dinamarca, Landskrona, que celebrará seu aniversário de 600 anos em 2013, está agora na linha de frente na luta sobre o futuro do país. A cidade tem estado durante anos na vanguarda das tendências que afetam as comunidades de ambos os lados do Atlântico: uma população cada vez mais velha, uma porcentagem crescente de imigrantes com seus filhos e uma base industrial perto do fim. No processo, o modelo sueco mundialmente famoso de um Estado de bem-estar aberto e generoso está em perigo.

Neste ano, o partido Democratas da Suécia conquistou seus primeiros 20 lugares no Parlamento da Suécia, adotando não apenas temas como a raiva pelo desemprego, mas também o colapso no sentido de comunidade, o aumento da criminalidade e o sentimento entre alguns suecos de que, na tentativa de acomodar os imigrantes e refugiados, o país foi longe demais. Um terço dos moradores da cidade são imigrantes ou seus filhos.

Em junho, a taxa de desemprego em Landskrona foi de 10,6%, enquanto a média nacional foi de 6%. E a cidade tem a segunda maior quantidade de pessoas em assistência pública na região.

Quando Tapio Salonen, um professor de trabalho social na Universidade Linnaeus, estava procurando uma cidade na qual realizar um abrangente estudo de três anos, envolvendo 20 pesquisadores, os do qual ele publicou recentemente, ele escolheu Landskrona. "Os problemas de se sair da era industrial para a era pós-industrial e todos os problemas de transição diante de toda a Europa Ocidental estão em plena exposição aqui", disse ele. "É o futuro."

O estaleiro Oresund da cidade, que empregava 3,5 mil pessoas no início de 1970, notificou seus últimos funcionários em 1981. Conforme os moradores lentamente deixaram a cidade para procurar emprego, o enorme excedente de apartamentos vazio foi preenchido lentamente com os refugiados da guerra na Iugoslávia na década de 90 e, mais recentemente, com os que fugiram do Iraque.

Muçulmanos

O partido Democratas da Suécia abordou nacionalmente os temores sobre os imigrantes muçulmanos na última eleição. O partido gastou cerca de US$ 160 mil para produzir uma campanha de propaganda extremamente sombria mostrando mulheres com burcas passando na frente de uma idosa sueca na fila para reivindicar pensão pública. A propaganda era tão inflamatória que a emissora TV4 proibiu sua veiculação até ser reeditada.

Os assassinatos em massa na Noruega no mês passado abalaram os europeus para a crescente influência anti-imigrantes em todo o continente, particularmente na Escandinávia. Um membro do partido Democratas da Suécia causou alvoroço ao dizer que as mortes não teriam acontecido "em uma Noruega norueguesa". Ele foi punido pelo partido.

"Achamos esses atos condenáveis", disse Bjorn Soder, secretário do partido em uma recente entrevista na sua sede, em Kristianstad. Após isso, grafites nas paredes do prédio declararam: "Nós nos lembramos da Noruega" e "Acabem com o Nacionalismo."

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Bjorn Soder, secretário do partido Democratas da Suécia, em Kristianstad
O líder do partido até 1995, Anders Klarstrom, tinha um passado neonazista, assim como outros membros. Soder foi um dos quatro estudantes da Universidade de Lund, incluindo o atual líder do partido Jimmie Akesson, que começaram a reformar o partido uma década atrás. O Democratas da Suécia adotou uma postura mais progressista em relação aos direitos dos homossexuais, retirou seu apoio à pena de morte e acabou com sua oposição à adoção estrangeira.

Sentado em um sofá com um alfinete na lapela do terno azul mostrando uma pequena flor Blasippa, símbolo do Democratas da Suécia, Soder defendeu a oposição do partido sobre as mesquitas e sua exigência de que os imigrantes integrem a sociedade sueca. Ele rejeitou a caracterização comum do novo apoio ao Democratas da Suécia como um voto de protesto de uma classe média em dificuldades.

"Pesquisas mostram que temos eleitores muito leais, apoiadores que simpatizam com a nossa plataforma", disse Soder. "Ousamos apontar os problemas que outros partidos não tratam."

Em Landskrona, o presidente do conselho municipal Torkild Strandberg contratou engajou o Democratas da Suécia em questões pequenas, como a sua proposta de criação de um ombudsman para os idosos, aprovada pelo conselho, ao mesmo tempo distanciando-se deles em questões como a imigração. Ele adotou a mensagem do Democratas da Suécia sobre a criminalidade e com isso ampliou a base eleitoral do seu Partido Liberal do Povo na eleição.

"A maneira de lidar com eles foi quase sempre mecanicamente dizer não a todas as suas sugestões", disse Strandberg. Essa abordagem criou um apelo de partido “diferente”.

"As pessoas dizem: 'Todo mundo está com muito medo desse partido. Eles irritam o estabelecimento. Vamos votar neles’", disse Niklas Orrenius, um repórter do jornal diário Sydsvenskan que cobriu o partido por uma década e escreveu um livro sobre ele. "Strandberg diminuiu seu apelo."

Strandberg agiu mais agressivamente sobre a segurança pública. O aumento da criminalidade é emblemático para muitos suecos de um amplo colapso da sua comunidade e sociedade. Ex-membro da comissão de justiça no Parlamento, Strandberg fez lobby por mais policiais nas ruas e contratou agentes de segurança particulares no mesmo período. Suas ações conquistaram forte aprovação do público, embora alguns, como Salonen, o tenham criticado por se aproximar demais da retórica de “eles contra nós” dos nacionalistas.

O partido Democratas da Suécia perdeu três cadeiras no conselho municipal de Landskrona na eleição de setembro de 2010. A parcela do partido dos votos locais caiu de 22,2% em 2006 para 15,8%. O partido dobrou seu total de votos nas eleições nacionais no mesmo período.

Há um sentimento entre os eleitores de que, mesmo que ainda haja muito a ser corrigido, pelo menos suas vozes estão sendo ouvidas. "As pessoas estão escutando mais agora", disse Bengt Persson, um gerente de construção em Landskrona. "Elas tiraram suas viseiras."

*Por Nicholas Kulish

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