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Participantes revelam dura rotina de filmagem de reality shows

LOS ANGELES ¿ No primeiro episódio desta temporada de Hells Kitchen, os 16 aspirantes a chef descem de um ônibus e caminham até a cozinha de Gordon Ramsay como condenados a caminho da prisão. Se a temporada atual for como as anteriores, esta analogia não está longe da verdade.

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Gordon Ramsay e alguns dos participantes de

Gordon Ramsay e alguns dos participantes de "Hell's Kitchen"

"Eles me prenderam em um quarto de hotel por três ou quatro dias" antes do início da produção, disse Jen Yemola, chef de massas da Pensilvânia que terminou em terceiro lugar na terceira temporada de "Hell's Kitchen", uma competição culinária. "Eles pegaram todos os meus livros, CDs, meu celular e os jornais. Eu só podia deixar o quarto acompanhada. Era como se estivesse em uma prisão."

Longos dias de trabalho e blecautes na comunicação compõem a regra para os participantes de programas de realidade, um gênero altamente lucrativo que evoluiu discutivelmente nos porões de Hollywood.

Séries sem roteiro equivalem a mais de um quarto da programação transmitida no horário nobre (e essencialmente toda a programação diária de canais como Discovery, Bravo e A&E). O programa de realidade mais popular, "American Idol", obteve lucros com propaganda que chegaram a US$ 1 milhão para um comercial de 30 segundos.

Mas sem representação sindical, os participantes destes programas não são cobertos pelas regras de trabalho de Hollywood que determinam alimentação, tempo mínimo de pausa e até mesmo salários mínimos. A maioria, na verdade, não recebe nenhum pagamento por seu trabalho.

Essa experiência miserável pode, no entanto, gerar uma situação constrangedora, que cria um experimento psicológico perfeito para manter os concorrentes constantemente vulneráveis e desequilibrados.

A maioria dos programas de realidade obriga os participantes a assinarem acordos de confidenciabilidade  que incluem multas de milhões de dólares caso eles revelem o que aconteceu no jogo. Mas entrevistas com concorrentes anteriores de alguns programas de realidade (cujos acordos venceram depois de três anos) sugerem que os produtores usam o isolamento, a insônia e o álcool para encorajar um comportamento selvagem.

Durante a nona temporada do programa "The Bachelor", as concorrentes esperaram em furgões durante várias horas enquanto a equipe de filmagem montava uma festa de "chegada" em cima da hora, na qual dois concorrentes disseram haver pouca comida mas muito vinho. Quando os produtores acreditavam que as filmagens não estavam interessantes, eles mandavam um assistente de produção circular com doses de bebidas mais fortes. 

"Se você combinar sono com álcool e pouca comida, as emoções vão correr alto e as pessoas vão agir como loucas", disse Erica Rose, concorrente daquele ano.

As coisas não foram muito diferentes em "Project Runway", uma competição de moda exibida primeiro na rede Bravo e agora na Lifetime. Diana Eng disse que estava tão cansada depois de filmar muitos dias durante 18 horas que muitas vezes acordava de um cochilo no meio do trabalho com a equipe de câmera sobre ela.

"Uma manhã eles me assustaram tanto que eu pulei da cama gritando", ela disse. "Eles disseram que aquilo não foi bom e me pediram para fingir que estava acordando novamente".

Os produtores de programas de realidade dizem que os participantes sabem no que estão entrando quando se inscrevem para as competições. Mesmo se os concorrentes não assistiram a temporadas anteriores (e a maioria assistiu) contratos detalhados especificam que tudo o que fazem ou dizem pode ser transmitido na televisão.

Mike Fleiss, criador de "The Bachelor", e Arthur Smith, produtor executivo de "Hell's Kitchen", se recusaram a dar entrevistas sobre o assunto. Executivos da ABC e Fox que transmitem estas séries também não quiseram falar sobre os programas.

Dan Cutforth e Jane Lipsitz, diretores da companhia Magical Elves, que produziu as cinco primeiras temporadas de "Project Runway", afirmaram em uma declaração por escrito que o espetáculo manteve concorrentes isolados "para garantir justiça e evitar trapaças", bem como para evitar que resultados do programa vazassem.

"Nós sempre demos aos concorrentes as melhores condições possíveis", disseram os executivos. "Nossos orçamentos são menores do que muitos outros programas da rede e isso significa dias muito longos para elenco e equipe de filmagem, mas nossos concorrentes são alimentados a cada seis horas pelo menos e sempre há lanches e água disponível."

Outros que estudaram o gênero, porém, dizem que competições em programas de realidade frequentemente tornam seus participantes emocionalmente dependentes dos produtores.

"O pão com manteiga da televisão de realidade é deixar as pessoas em um estado em que estão cansadas e emocionalmente vulneráveis", disse Mark Andrejevic, professor de estudos de comunicação da Universidade de Iowa e o autor de "Reality TV: The Work of Being Watched" ("TV de Realidade: o Trabalho de ser Observado", em tradução literal). "Isso ajuda a torná-los mais amenos aos objetivos dos produtores e mais facilmente manipuláveis."

Chloe Dao, vencedora da segunda temporada de "Project Runway", disse que a filmagem do programa normalmente começava por volta das 6h da manhã, "e nós terminávamos a costura diariamente por volta da meia-noite".

Depois disso, os concorrentes gravavam os "confessionários" nos quais falam diretamente com a câmera. "Nós conseguíamos dormir entre 1h e 3h da manhã, e acordávamos novamente às 6h ou 7h". A falta de sono afeta a performance, disse Dao. "Por isso no final da temporada você consegue perceber que todos estão terríveis".

Ainda que os concorrentes assinem contratos com advertências claras sobre os perigos físicos e emocionais, Mark Andrejevic qualifica de "não-sincero" os produtores sugerirem que os participantes foram advertidos adequadamente sobre as condições que enfrentariam.

"Os participantes da TV realidade são sujeitos a condições totalmente desiguais de negociações", ele disse. "Eles são essencialmente um artigo dispensável, e se não assinarem o contrato há centenas de outros que estão dispostos a assumir sua vaga".

Longe de reclamar, muitos participantes (principalmente em programas de voltados a especializações) dizem que a experiência compensa. Yemola diz não lamentar sua passagem pelo "Hell's Kitchen", que permitiu que ela passasse a apresentar seu próprio programa de culinária na Pensilvânia e fez com que ela fosse contratada para demonstrações de técnicas de cozinha.

Andrew Bonito, outro concorrente da primeira temporada de "Hell's Kitchen", disse que participar do programa o "ajudou a crescer profissionalmente". "Definitivamente contribuiu para o meu sucesso", disse Bonito que agora é gerente de um restaurante de Manhattan, o The Palma. "Além disso eu tive a oportunidade de fazer parte da cultura popular."

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