Participação da Al-Qaeda em sofisticados ataques na Índia é improvável

HONG KONG - Eles chegaram vestindo capuzes negros, disparando armas automáticas e atirando granadas. Fizeram reféns e atacaram dois hotéis, um cinema, um café, uma estação de trem e outros populares e indefesos alvos fáceis. Quem são eles?

The New York Times |

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Um e-mail enviado à mídia indiana dizia que a responsabilidade pelos sangrentos ataques realizados em Mumbai na noite de quarta-feira era de militantes do grupo Deccan Mujahedeen.

Especialistas em terrorismo de todo o mundo com experiência no sul da  Ásia afirmaram nesta quinta-feira que nunca ouviram falar no grupo. Com base nas táticas usadas nos ataques, eles também constataram  provavelmente não se tratar de uma célula ou grupo ligado à Al-Qaeda.

"Não está claro se é um grupo real ou não", disse Bruce Hoffman,  professor da Faculdade de Serviços Estrangeiros da Universidade de  Georgetown e autor do livro "Inside Terrorism" (Por Dentro do  Terrorismo, em tradução livre).

"Pode ser um nome falso usado para acobertar outro grupo ou adotado  simplesmente para este incidente", ele disse.

Christine Fair, cientista política e especialista no sul da  Ásia da Corporação RAND, foi cuidadosa ao dizer que a identidade dos terroristas ainda não pode ser descoberta. Mas ela insistiu que o estilo dos ataques e os alvos em Mumbai sugerem que os militantes não são muçulmanos indianos e não têm elo com a Al Qaeda ou o Lashkar-e-Taiba, outro grupo violento asiático.

"Não há nada que se assemelhe à Al Qaeda nestes ataques", ela afirmou. "Você viu algum homem-bomba? Também não há sinais de que seja o Lashkar. Eles não fazem reféns e não usam granadas".


Soldado indiano observa destruição após ataque em estação de trem / Reuters

Fair disse ainda que o fato do grupo não ter proclamado sua ideologia  no manifesto "não é algo incomum".

Hoffman concorda que o ataque "não seguiu o modus operandi da Al-Qaeda, que é o uso de homens-bomba". Mas ele disse que os ataques, que qualificou de "táticos, sofisticados  e coordenados", talvez denotem uma organização maior por trás dos  militantes.

"Não vemos este tipo de operação terrorista todos os dias, se é que já  vimos isso algum dia", disse Hoffman. "Não se trata de um bando de  radicais que se uniram para causar tumulto".

"Para este tipo de ação é necessário um grupo com habilidades  diferentes. Não é preciso muita habilidade para se fazer uma bomba.
Aqui não vimos um botão ser apertado e o homem-bomba morrer. A ação usada por este grupo não pode ser aprendida na internet".

A palavra Deccan descreve o centro e sul da Índia, que é dominado pela  planície de mesmo nome. Mujahedeen é uma palavra árabe comumente usada  para designar militantes religiosos. O próprio nome (caso o grupo seja real) sugere uma agenda nacional.

"Pode não ser um grupo, mas uma célula que assumiu o nome unicamente  para esta operação", disse Fair. "Na Índia este tipo de nome é comum". Ela não concordou que os ataques necessariamente tenham exigido muito  planejamento.

"Estes ataques não exigiram um gênio em logística", ela disse. "Os  alvos não eram difíceis. Uma enorme estação de trem sem nenhuma  segurança. Dois hotéis sem segurança, ambos pertencentes a indianos.
Um Café. Quão difícil pode ser? Não é muito".


Hotel Taj Mahal em Mumbai onde turistas eram feitos reféns / AP

Fair acredita que os ataques podem "ser outra manifestação de  terrorismo doméstico" que tem origem na discriminação institucional  constante contra os muçulmanos.

"Há muitos e muitos muçulmanos com raiva na Índia", ela disse. "As  disparidades econômicas são gritantes e o país tem demonstrado pouca reflexão em relação a seu problema com este grupo. Não se pode  acobertar isso. Este é um problema doméstico enorme para a Índia".

A CIA calcula a população da Índia em 1,15 bilhões, com os Hindus  compondo 80% e os muçulmanos 13,4%.

Fair disse que um incidente "um evento decisivo" que continua a  causar ódio entre os muçulmanos é o tumulto que atingiu o Estado  Gujarat, perto de Mumbai, em 2002. A violência matou entre mil e duas mil pessoas, a maioria delas muçulmana.

"A face da política pública da Índia diz 'Nossos muçulmanos não se  tornaram radicais'. Mas o aparato de inteligência do país sabe que  isso não é verdade. As comunidades muçulmanas da Índia foram sugadas  pelo cenário mundial da jihad islâmica", ela disse. "Os indianos terão  muitos incentivos para dizer que os ataques foram perpretados pela Al  Qaeda, mas este não é o 11/9 da Índia".

Para Hoffman, que estuda o terrorismo há mais de 30 anos, os ataques  de Mumbai são "alarmantes em diversos níveis".

"O terrorismo nem sempre me alarma. Geralmente tudo é uma repetição do  que já é visto diariamente, como os homens-bomba. Não há inovação no  terrorismo, por isso o 11/9 foi tão assustador, porque criou novas  possibilidades".

"Mas estes ataques mostram como homens inteligentes, usando  basicamente armas simples, conseguiram paralisar uma cidade e frustrar  forças de segurança altamente treinadas. Estes ataques foram calculados para disseminar o medo e a ansiedade para ser franco,  para desequilibrar as coisas e é exatamente isso que fizeram".

Por MARK McDONALD e ALAN COWELL


Mapa da Índia

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