Parece impossível, mas a situação na Somália pode estar piorando

NAIRÓBI ¿ O governo de transição da Somália parece que está prestes a morrer. Os etíopes, que mantiveram o governo vivo por dois anos, dizem que estão deixando o país. Essencialmente, estão desligando os aparelhos.

The New York Times |

Acordo Ortográfico

Durante os últimos 17 anos, a Somália tem sido devastada pela anarquia, violência, fome e ambição. Parecia que as coisas não poderiam fica piores. Mas de repente, elas ficaram.

Os piratas da costa da Somália estão ficando cada vez mais arrojados, maliciosos e de alguma maneira mais ricos, apesar da aramada dos navios ocidentais estarem perseguindo-os de perto. Carregamentos de com alimentos emergenciais não conseguem salvar a população da Somália de nove milhões de pessoas da fome. A ala mais fanática dos islâmicos somalis está ganhando território e impondo as leis islâmicas no país, como chicotear dançarinas e apedrejar até a morte meninas de 13 anos de idade.

E agora, com o governo à beira de um colapso e com os islamitas prontos para assumirem o controle pela segunda vez, a questão importante dentro e fora da Somália parece ser: E agora?

Será sangrento, prevê Rashid Abdi, analista da Somália do Grupo de Crises Internacionais, um centro de pesquisas que trilha conflitos ao redor do mundo. Os etíopes decidiram deixar o governo de transição morrer. O caos vai se espalhar do sul ao norte. O tempo de domínio dos comandantes de guerra estará de volta.

Rashid vê a Somália se deteriorando como o caldeirão afegão de milícias islâmicas, atraindo guerrilheiros linha-dura de Comoros, Zanzibar, Quênia e outras áreas islâmicas vizinhas, em um processo que já parece ter começado. Esses homens eventualmente voltarão para a casa, espalhando a violência.  A Somália atingiu uma fase muito difícil agora disse. Toda a região deve mergulhar no caos. Estou temeroso.

Caos

A maior parte das previsões aponta para algo semelhante: com a retirada da maioria das tropas etíopes em janeiro, como disseram que aconteceria, os 3 mil ou mais soldados de paz sul-africanos hoje na Somália poderão ir embora, deixando o país aberto aos insurgentes islamitas que têm se aglomerado em Mogadishu, capital do país.

O governo de transição, que na realidade controla apenas alguns quarteirões do país todo, vai entrar em colapso, exatamente como aconteceu com os 13 governos de transição anteriores. A única razão para isso não ter acontecido ainda são os etíopes.

O governo tem sido uma bagunça nas últimas semanas ¿ muitos diriam nos últimos anos ¿ com o presidente o primeiro-ministro trocando acusações publicamente sobre a culpa na crise nacional. Mais de 100 dos 275 membros do parlamento estão no Quênia e se recusam a voltar para casa dizendo que serão mortos.

Diplomatas ocidentais, autoridades da ONU e os etíopes finalmente parecem estar se voltando contra o presidente transitório, Abdullahi Yusuf Ahmed, perverso ex-comandante de guerra de seus 70 anos que tem frustrado todas as propostas de paz.

Yusuf antes era visto como a solução, agora é visto como o problema, disse um diplomata ocidental no Quênia, falando sob a condição de anonimato em acordo com o protocolo diplomático.

Mas o clã de Yusuf ainda o apóia, e os diplomatas ocidentais disseram que ele deve em breve fugir para seu clã de apoio no noroeste da Somália.

A maioria dos analistas acredita que o povo cansado de guerra em Mogadishu irá inicialmente saudar os insurgentes islamitas, por medo ou alívio. Em 2006, as tropas islâmicas se uniram se aliaram aos anciões dos clãs e com homens de negócios para expulsar os comandantes de guerra que abusavam do povo somali desde que o governo central entrou em colapso pela primeira vez em 1991. Os seis meses que os islâmicos ditaram as regras em Mogadishu foi o período mais pacífico da história moderna da Somália.

Mas os islamitas de hoje são mais duros, mais brutos que os que os vieram antes da invasão etíope, apoiada pelos EUA, no fim de 2006. A velha guarda incluía muitos moderados, mas a maioria daqueles que tentaram trabalhar com o governo de transição falhou, deixando-os fracos e marginalizados, e removendo a pequena influência sobre os insurgentes linha-dura.

Além disso, as impopulares e sangrentas operações militares etíopes nos últimos dois anos radicalizaram muitos somalis e enviaram centenas de jovens desempregados para o exército de militantes islamitas ¿ muitos deles nunca foram à escola, nunca fizeram parte da sociedade e nunca tiveram muita chance de fazer algo diferente de apertar o gatilho.  

O grupo mais ativo é o Shabab, uma força insurgente que reúne muitos clãs e que os EUA classificam como uma organização terrorista. Há apenas algumas semanas, o Shabab sequestrou um homem acusado de ser espião e vagarosamente serrou a cabeça dele com uma faca. O episódio todo foi gravado.

Dois caminhos improváveis

A Somália é quase 100% muçulmana, mas a maioria dos somalis é moderada. Muitos analistas esperam que a onda dos militantes islâmicos diminua em breve diminuir, pois os somalis irão inevitavelmente se irritar com as leis islâmicas, especialmente quando tentarem banir sua querida khat, folha levemente estimulante e onipresente que os somalis mastigam como chiclete.

Então, dizem muitos analistas, os grupos islâmicos irão destruir a si mesmos, com os etíopes e outros países vizinhos apoiando facções rivais, e com o clã dos comandantes de guerra entrando na disputa. Osman Mohamed Abdi, vice-presidente do Programa de Desenvolvimento da Juventude Somali, uma organização sem fins lucrativos de Mogadishu, chamou essa possibilidade de a pior catástrofe produzida pelo homem.

Duas possibilidades podem reverter esse banho de sangue, mas sambas são igualmente improváveis.

A Etiópia pode adiar a retirada até que mais tropas de paz cheguem. Mas com Darfur e Congo precisando de tropas de paz, existem poucos voluntários para a Somália.  Ou o governo transitório pode dividir o poder com os islamitas. Existe um pedaço de papel chamado Acordo de Djibouti, recentemente assinado no vizinho Djibouti, que prevê uma maneira moderada dos islamitas se juntarem ao governo.

Mas o problema é que o Acordo de Djibouti, aponta Rashid do Grupo de Crises Internacionais, tem um interlocutor sem poder nenhum na região.

O colapso do governo e o desastre humano que poderão acontecer significariam o fracasso dos esforços americanos na Somália.

Os EUA falharam desastrosamente em sua missão de paz enviada no início da década de 1990. Em 2005 e 2006, a CIA pagou para que os mais temidos comandantes de guerra somalis lutassem contra os islamitas. O tiro saiu pela culatra. No inverno de 2006, os Estados Unidos tentaram uma terceira aproximação, encorajando a Etiópia a invadir o país e apoiando os etíopes com ataques aéreos e inteligência americana.

A administração Bush cometeu um grande erro de cálculo disse Dan Connell, professor de Políticas Africanas no Simmons College em Boston.

Ele comparou a situação com o envolvimento americano no Líbano na década de 1980, quando um aliado regional, Israel, nos levou para um Estado falido em um esforço quixotesco de transformar uma vizinhança hostil em uma dócil parceria.

Isso apenas radicalizou a população, disse ele, acrescentando que na Somália, "novamente, nos tornaremos alvos".

Por JEFFREY GETTLEMAN

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