Para uma cidade com engarrafamento, uma fila eterna de carros e um castigo

CARACAS ¿ Os motoristas os desprezam. Os pedestres os temem. Bandidos de rua sentam e esperam por eles. Líderes esquerdistas os chamam de heróis sem reconhecimento.

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Motorizados correm em meio ao congestionamento de Caracas

E essa cidade anárquica, apesar de seu caso de amor com carros, entraria em colapso se não por eles: os milhares de ousados motoqueiros enviados tornam a vida aqui perigosa e viável ao mesmo tempo.

Conhecidos como motorizados, eles carregam passageiros e entregam pacotes, correndo entre filas de brilhantes Jeep Cherokees e antigos Ford Country Squires, que bebem gasolina subsidiada e obstruem as estradas com congestionamentos imensos.

Com uma rebeldia que prospera em meio ao concreto caos de Caracas, eles pulam sobre o meio-fio e aceleram pelas calçadas cheias para entregar seus fretes. Eles ignoram as luzes vermelhas e consideram as placas de trânsito um costume para obedientes tribos urbanas. Oficiais do tráfego estimam que o número chega a cinco mil, mas isso vale apenas para aqueles que se importam com papéis de licença.

Eles estão preparados, ao chamar de uma mensagem de texto, para deixar qualquer tipo de coisa para ajudar um camarada acidentado no tráfego. Muitos carregam armas e são conhecidos por terem incendiado carros que já atropelaram um deles. Um conselho para os motoristas tentados a atacar verbalmente os motorizados por riscarem a pintura de seus utilitários esportivos ou quebrarem um de seus retrovisores: não faça isso.

Eu sei que somos considerados a escória do mundo, mas a vida nunca é tão simples, disse Jesus Malave, 45, que se tornou um motorizado há dois anos, para sustentar sua família e duas filhas. Ele ganha cerca de US$ 500 por mês, duas vezes mais do que costumava ganhar como faz-tudo.

A verdade é que nós oferecemos um serviço que tem uma alta demanda, disse. Descrevendo a si mesmo como um cristão renovado, acrescentou: quem mais além de Deus poderia tornar Caracas um inferno e então nos escolher para carregar pequenos milagres pelas ruas todos os dias?

A doutrina dos motorizados inclui ações de nobreza. Guiando o que geralmente são pequenas motos pelas ruas, eles já levaram mulheres grávidas para salas de parto e carregaram feridos na correnteza de lama, em Vargas, em 1999, para hospitais.
Mas, como Malave disse, a história é complexa.

Eu queria que a polícia encontrasse e prendesse o motorizado que fez isso comigo, mas eu sei que isso nunca acontecerá, disse Maria Hipolita Beloni, 46, cuja tíbia (osso da perna) foi fraturada após ser atropelada por um motobou que dirigia com o farol desligado, uma noite deste mês, próximo a um bairro pobre no extremo oeste da cidade.

Caraquenos, como os moradores são conhecidos, classificam vários subsitemas de motorizados por seus graus de diligência e delinquência.

Os mais comuns são os mototáxis, que carregam passageiros ou documentos e usualmente quebram nada mais sério que leis de trânsito. Então há os motobanquistas, que carregam saques de bancos em motocicletas. Os mais temidos são os sicários, assassinos pagos que geralmente usam motocicletas para seus serviços e perseguem vítimas como Pierre Fould, Gerges, executivo de um jornal assassinado por sicários no ano passado.

Outras cidades na América Latina vangloriam as próprias subculturas de seus enviados de motocicletas. São Paulo tem seus motoboys e São Domingo, na República Dominicana, seus motoconchos. Mas os motorizados deve ser um separado do resto quanto se fala do nível de politização e dos ricos intrínsecos em sua profissão.

Os motorizados surgiram como um pilar de suporte para o presidente Hugo Chávez, com seus grupos formados com nomes como Força Motorizada, Frente Motorizada da Integração Socialista e o Comando Motorizado do Partido Unido Socialista.

Entre outros deveres, eles levam eleitores às urnas, intimidam críticos de Chávez em protestos de rua e, às vezes, são supostamente ligados a grupos que realizam ataques de vandalismos em alvos como a rede de televisão, Globovision, e a missão diplomática do Vaticano na região.

Por SIMON ROMERO

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