Para região da Geórgia, reconhecimento vem de dominó em dominó

Embora sua declaração de independência seja rejeitada pela maioria, a Abkázia é vista como uma respeitada potência do jogo de peças

The New York Times |

Depois de quase duas décadas em vão para ter aceitação internacional, a Abkázia, uma região separatista minúscula na ex-república soviética da Geórgia, encontrou um aliado incomum. Embora rejeitada pela maioria dos países, a Abkázia é considerada uma respeitada potência mundial entre os entusiastas do mundo do dominó de competição.

Mesmo antes de a Rússia se tornar o primeiro país a reconhecer o território como soberano, em agosto de 2008, a Federação Internacional de Dominó, que organiza competições pelo mundo, desconsiderou os protestos da Geórgia e acolheu a Abkázia em sua federação como um membro atuante. No próximo mês, Sukhumi, a capital da Abkházia, será a sede do Campeonato Mundial de Dominó.

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O dominó é uma competição séria na praça do centro de Sukhumi, capital Abkázia, território rebelde da Geórgia
Essa honra, normalmente reservada aos membros da ONU, é um reflexo da proeza desse território em um jogo que por si só permanece em grande parte ofuscado por outros jogos de mesa mais conhecidos e prestigiados, como damas e xadrez. Os 25 países-membros da federação escolheram a Abkázia em unanimidade no ano passado, em Las Vegas.

Não importa que apenas outros quatro países, dois dos quais são pequenas ilhas do Pacífico, tenham seguido a Rússia em reconhecer a Abkázia como independente. Entre 17 e 21 de outubro, a Abkázia será o centro do universo do dominó.

"Para nós isso significa muito, não apenas como uma competição esportiva", disse Ruslan Tarba, jornalista e entusiasta do dominó em Abkázia. "As pessoas virão aqui e serão capazes de ver que não somos selvagens subindo em palmeiras com armas automáticas. O mais importante é que as pessoas saiam daqui convencidas do fato de que a Abkázia foi, é e será um país aberto e amigável."

Embora possua uma beleza natural exuberante, a Abkázia, uma região muito usada para as férias localizada no Mar Negro da ex-União Soviética (URSS), não parece de maneira alguma com um lugar manso para competições internacionais de qualquer tipo.

Quase 20 anos se passaram desde que os rebeldes da Abkázia expulsaram soldados da Geórgia em um dos conflitos mais sangrentos desde que a URSS entrou em colapso. Edifícios em Sukhumi permanecem com danos de balas e estilhaços. Vários hotéis e restaurantes da época ainda estão em ruínas, e o local da antiga sede do governo continua como um monumento à ferocidade dos combates.

Mas os estalos das Kalashnikovs foram substituídos por outro som: o de dominós da cor marfim tocando as mesas. Isolados em grande parte do mundo exterior, a Abkázia a princípio se voltou para o dominó - na maioria dos países o jogo é referido no singular, ao contrádio dos EUA, onde é conhecido como dominós - como um remédio para a apatia endêmica. Alguns chegaram a ver o jogo como uma ferramenta para engajar a luta da Abkázia pela sua legitimidade.

"Após a guerra que atingiu Abkázia, cada passo em frente que dermos, seja na área do dominó ou qualquer outra, é importante", disse Artur Gabunia, presidente da Federação de Dominó da Abkázia.

Desde que se começou a competir internacionalmente em 2007, a equipe de dominó da Abkázia tem gradualmente subido no ranking, ficando em décimo lugar em ambos os campeonatos de 2009 e 2010 no Panamá e na República Dominicana. A equipe espera estar entre os três primeiros na competição em Sukhumi no próximo mês.

"Eles são muito competitivos", disse Manuel Oquendo, presidente da Federação Nacional de Dominó dos EUA, que viajou para Abkázia no ano passado para verificar a equipe local. "O esporte de dominó está concentrado principalmente na América Latina, então fiquei surpreso ao ver jogares de dominó às margens do Mar Negro. Fiquei impressionado."

Merecidamente ou não, o dominó tem uma reputação de ser um jogo para ociosos, e, nesse sentido, a Abkházia é um terreno fértil. Depois de anos de isolamento político e econômico, o desemprego está em alta e há muitos com bastante tempo livre.

Em qualquer dia comum, veteranos de guerra de cabelos brancos e elegantes jovens com estilosos óculos de sol se reúnem em frente ao mar diante do Hotel Ritsa, um dos poucos edifícios totalmente restaurados da cidade. Abastecidos com cigarros e café doce e forte, os homens jogam por horas à sombra de pinheiros da costa.

As competições podem tornar-se agressivas, com pouca simpatia oferecida aos que demoram para jogar ou para os indecisos.

"Mais rápido, mais rápido, mais rápido", Leonid Lolua, um ex-prefeito de Sukhumi, gritou ao seu adversário mais pensativo durante um jogo. "Realmente, é uma pena que não me deixem participar da equipe nacional", disse Lolua, um entusiasta de 67 anos, ao colocar sua última pedra em posição para conquistar uma vitória.

Outros homens podem ser vistos jogando xadrez e às vezes cartas, mas o jogadores de dominó parecem ter tomado conta do calçadão. Mulheres nessa sociedade altamente patriarcal raramente estão presentes nas mesas, mas os moradores insistiram que elas também jogam em suas cozinhas e pátios.

"Na Abkázia, quase todo mundo joga dominó", disse Armen Mkrtchyan, um campeão de dominó que ganhou duas vezes pela Abkházia e competirá em outubro.

A Geórgia, que considera a Abkázia uma parte de seu território soberano, está aparentemente irritada com o campeonato. Funcionários da Federação Internacional de Dominó disseram ter recebido alguns oficiais georgianos que várias vezes tentaram persuadi-los a levar o evento para outro lugar. A Geórgia não é membro da federação.

Giorgi Kandelaki, um parlamentar da Geórgia, disse que as autoridades georgianas tentaram persuadir participantes de comparecer informando-os sobre a situação dos georgianos da Abkázia, muitos dos quais foram expulsos do território durante a guerra na década de 1990 e não puderam voltar.

Ele não disse se a Geórgia tomará medidas mais ostensivas para impedir a competição, como, por exemplo, negar a entrada de participantes na Abkázia através da região fronteiriça controlada pela Geórgia. Eles poderiam alternativamente entrar na Abkázia pela Rússia, mas isso violaria uma das leis da Geórgia.

A federação se comprometeu a dar continuidade à organização do campeonato em Sukhumi, e oficiais locais de Abkházia prometeram não os decepcionar. Os organizadores esperam mais de 200 jogadores de quase duas dezenas de países, incluindo os EUA. O governo da Abkázia, que depende da Rússia para apoio, disse que investirá US$ 100 mil em dinheiro para o prêmio do campeão, a maior bolsa na história da competição, disse um dos responsáveis pelo evento.

Não está claro se a decisão de conceder tal reconhecimento à Abkázia ajudará os entusiastas do dominó a ter mais reconhecimento internacional. Após o campeonato em Sukhumi, funcionários da Federação Internacional de Dominó planejam reiniciar um longa campanha para tornar o dominó um esporte olímpico.

*Por Michael Schwirtz

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