Para refugiados, tempos de crise são ainda mais difíceis

SALT LAKE CITY ¿ Após escapar da violência em Burma e passar 27 anos vivendo em barracas de bambu em um acampamento da ONU na Tailândia, Nysaw Paw, 33, chegou aos EUA em agosto do ano passado para enfrentar uma traumática adaptação e uma vertigem cultural conhecida de todo refugiado.

The New York Times |

Mas, entre os altos aluguéis, o atraso da ajuda federal e agora a recessão que está secando as ofertas de emprego, a transição tornou-se mais difícil do que nunca, dizem os refugiados. O impressionante custo da moradia é um sintoma. Muitos dos que chegam gastam 90% ou mais de sua renda com aluguel e utilidades, ficando praticamente sem renda disponível e criando enormes necessidades.

Nyaw Paw, alojada em Salt Lake City com seus dois filhos, de seis e 13 anos, gastam juntos os US$600 da ajuda federal no aluguel de um apartamento de um quarto. Agora, sua única renda é uma pensão de cerca de US$500 por mês; uma agência privada supre a lacuna.

Nyaw Paw tentou empregos tradicionais, como faxineira de hotéis, mas ninguém está contratando aqui. Sua vida demanda tanta moderação que ela lava as roupas da família na banheira ao invés de usar as máquinas de lavar do edifício.

Eu penso no aluguel todo o tempo, disse Nyawm Paw através de um tradutor, e eu não sei o que faremos quando os programas de ajuda do governo forem cortados.

Refugiados pobres ¿ como os americanos de baixa-renda ¿ podem solicitar auxílio-moradia, que obriga o inquilino a pagar 30% do aluguel, com o governo arcando com o resto. Mas em Salt Lake City, existe uma lista de dois anos de espera, e esta lista é ainda mais longa em outras cidades.

Com início em fevereiro, no primeiro programa do gênero, o Estado de Utah planeja garantir subsídios de até dois anos para as famílias de refugiados recém-chegados, a fim de suavizar a enorme e crescente carga que representam os alugeis.

Refugiados chegam aos Estados Unidos com uma ajuda única do Departamento de Estado de cerca de US$450 por pessoa e uma ajuda temporária de uma agência privada que os ajudam a garantir a autosuficiência financeira.

Exceto alguns iraquianos que chegam com graduações, a maioria de refugiados atualmente chegam da África e da Ásia com pouco educação ou experiência com a realidade ocidental, e sem familiares no país. A ajuda federal para acomodar refugiados não acompanhou o aumento no custo de vida, os programas de bem-estar social são ainda menos eficientes que antes e aluguéis mais baratos estão cada vez mais escassos. Enquanto isso, os postos de trabalho onde os refugiados costumavam obter sucesso, como em depósitos e hotéis, estão desaparecendo ou sendo ocupados por pessoas que antes ocupavam outros cargos.

60 mil refugiados em 2008

O plano de moradia não encontrou muita resistência em Utah, que geralmente é visto como um Estado simpático aos refugiados. Mas o tamanho do programa americano para refugiados, que admitiu cerca de 60 mil pessoas em 2008, tem sido questionado por algumas pessoas. Críticos dizem que os EUA permitiram que muita gente que claramente precisaria de ajuda federal e que tinha alternativas ¿ Nyaw Paw, por esse argumento, poderia ter ficado na Tailândia - entrassem no país. 

Somos muito permissivos em deixar os refugiados entrar, disse Mark Krikorian, diretor do Centro de Estudos para Imigração, um grupo de pesquisa que apoia a redução da imigração. A permissão para os refugiados, disse Krikorian, deveria ser dada aos poucos que não têm nenhum outro lugar para ir.

Uma vez admitidos, disse, eles devem receber a ajuda necessária. Ele não tem nenhum problema com a nova política de ajuda de Utah.

Lul Omar da Somália, que mantém seu rosto coberto com um lenço e a ponta dos dedos pintadas de henna, está vivendo em Salt Lake City. Depois de ver seu marido ser assassinato dentro da própria casa, ela fugiu para a Arábia Saudita e depois para o campo de refugiados da ONU no Egito. Ela e seus sete filhos, entre 4 e 15 anos, chegaram aos EUA em outubro de 2007.

O Comitê Internacional de Resgate ajudou Omar encontrar uma antiga e pequena casa de quatro quartos, que ela decorou com algumas flores de plástico. O aluguel mensal de US$1.095, disse ela, é o maior problema que eu tenho.

Ela trabalha oito horas por dia, a US$6 por hora, etiquetando roupas usadas na Deseret Industries, uma organização mórmon. Para ir da casa para o trabalho, ela precisa pegar dois ônibus e um bonde elétrico; cada percurso demora mais de uma hora. Ela é grata pelo trabalho, mas seu escasso salário fez com que o auxílio caísse para US$385 por mês.

Não podemos comprar roupa nem sabão, disse Omar, explicando que recorre à caridade para suprir algumas necessidades. Eu me sinto tão mal, conta Omar. As crianças sempre me pedem um pouco de dinheiro para comprar refrigerante depois da escola, mas geralmente eu digo que não tenho nada.

Nyaw Paw tomou conhecimento recentemente de que o novo programa de auxílio-moradia poderá dar a ela algumas centenas de dólares a mais todo mês, tornando mais fortes as razões que a fizeram ir para os EUA: oferecer oportunidades aos filhos.

Se eu tiver um dinheiro extra, disse, eu posso poupá-lo no banco, para quando as crianças tiverem mais velhas.

Reconhecendo as dificuldades da vida, ela adicionou que esse dinheiro poderá oferecer um pouco de conforto. Talvez eles queiram sair com os amigos, disse ela.

Por ERIK ECKHOLM

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