Para os sobreviventes no Arizona, pesadelos e questionamentos

Massacre em Tucson deixou seis mortos, 14 feridos, e trouxe à tona debate sobre crimes com atiradores nos EUA

The New York Times |

Randy Gardner havia parado no evento comunitário da congressista Gabrielle Giffords no sábado para lhe agradecer por apoiar a reforma do sistema de saúde quando ouviu os tiros e os gritos dos feridos. Esquivando-se em busca de abrigo, ele achou a cena mais do que aterrorizante: ele achou-a surpreendentemente familiar.

Gardner, 60 anos, já havia sobrevivido a um tiroteio anteriormente. No dia 4 de maio de 1970, ele era aluno da Universidade Kent State quando os membros da Guarda Nacional de Ohio abriram fogo contra um grupo de estudantes que protestavam contra a Guerra do Vietnã, matando quatro pessoas. Ele estava na multidão naquele dia e correu para salvar sua vida.

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Randy Gardner sobreviveu ao ataque em Tucson e se recupera com o pé engessado em casa
O evento marcou o país, mas para Gardner a tragédia foi pessoal e roubou a vida de uma jovem colega de sua classe de inglês, Allison Krause. E o ataque de sábado, no qual foi alvejado no pé direito, o fez lembrar daquilo. "Esses tipos de experiências mudam você", disse.

Três dos sobreviventes tinham razões muito diferentes para participar do evento de Giffords, batizado de O Congresso na sua Esquina, no sábado, mas foram vítimas da mesma tempestade de balas.

Gardner se tortura com perguntas sobre o motivo de não ter feito mais para salvar outros. Eric J. Fuller, um ex-motorista de limousine, tentou se acalmar recitando a Declaração de Independência, memorizada durante um verão difícil há mais de 30 anos. Bill Badger, um coronel do Exército aposentado, viu imagens de pessoas dormindo em aeroportos por causa da neve e desabou, lembrando dos corpos estirados no chão após o tiroteio de sábado.

Eles estão posicionados em desacordo no espectro político – Badger é um republicano de longa data, Fuller, um liberal e Gardner, um sólido democrata – mas esses três homens feridos agora compartilham os mesmos desafios de se adaptar à vida como sobreviventes: lampejos de memória, ataques de pânico, questionamentos no meio da noite sobre coragem, sorte e justiça.

"Quando você está a menos de seis metros de distância de uma menina de 9 anos de idade e você vive e ela não, fica muito difícil", ele disse.

Das 14 pessoas que ficaram feridas, seis permanecem internadas, inclusive Giffords.

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Presidente Barack Obama abraça o astronauta Mark Kelly, marido da congressita Gabrielle Giffords
Gardner, que deixou Portland, Oregon, para viver em Tucson, em 2005, fugiu correndo e agachado para o estacionamento, escondendo-se atrás dos carros e se refugiando na loja Walgreen's. Ele disse que sentiu "um peso" conforme seu tênis do pé direito lentamente se encheu de sangue. Ele foi liberado do hospital no domingo com um grande curativo e muletas.

Ele continua a pensar na conversa que teve na fila com uma senhora chamada Phyllis. Phyllis Schneck, 79 anos, morreu no ataque. "À noite é mais difícil: o silêncio e as perguntas sobre o que aconteceu", disse ele dentro de sua casa, em uma pacata rua sem saída, cercada por montanhas. "Eu tive aquele sentimento de tristeza e culpa de que deveria ter feito mais. Por que eu não fiz mais?", disse ele. "Todo mundo quer ter aquele momento John Wayne, mas..."

Gardner trabalhou durante décadas como conselheiro de saúde mental, portanto os sinais preocupantes que os investigadores descobriram sobre o homem acusado pelo tiroteio, Jared Loughner, parecem tristemente familiares. Gardner vê grandes problemas no sistema nacional de saúde mental que deixam "uma grande quantidade de solitários levando uma vida muito infeliz".

Cenário político

Para Gardner, como muitos outros em Tucson, a cultura de divisão política que viu Giffords ter de enfrentar uma forte disputa para conquistar a vitória no ano passado é o cenário que possibilitou o ataque. Ele se considera mais liberal do que Giffords, mas a respeitou por se impor aos republicanos em temas como a imigração e, especialmente, o sistema de saúde. "Eu fui lá para dizer-lhe para ser forte, que o voto dela significava alguma coisa para muita gente e não havia nenhuma razão para ela duvidar disso", disse ele.

Fuller, o motorista de limousine, também apoiava Giffords, mas foi vê-la por razões diferentes. Ele passou a se interessar por política apenas recentemente, se apaixonou por causas liberais e hoje envia emails denunciando pilhagem por parte dos republicanos.

No sábado, ele parou no evento de Giffords depois de seu jogo semanal de tênis à espera de ver manifestantes que tinha visto em eventos anteriores da congressista. "Eu queria apoiá-la e protegê-la do movimento Tea Party, gritar contra eles", disse ele. "Eu faço muito barulho".

Não houve protestos, mas ele entrou em uma acalorada discussão com outra pessoa enquanto esperava para falar com Giffords. Um assessor de Giffords, Gabriel Zimmerman, rapidamente interveio. Zimmerman foi morto no tiroteio.

Fuller foi alvejado no joelho esquerdo e uma bala atingiu de raspão suas costas. Ele foi liberado do hospital na segunda-feira, mas tem lutado para se ajustar a uma vida que parece diferente.

Na noite após o tiroteio, ele não conseguia adormecer. Ele se viu atraído pelas palavras da Declaração da Independência, que memorizou enquanto estava desempregado e morando em um trailer em Boise, Idaho, em 1980. As palavras o acalmaram naquela noite, mas ele ainda tem lampejos de raiva. "Reconhecer a sua existência é um desperdício", disse ele sobre o atirador Jared Loughner. "Eu não gosto nem de ver o seu rosto".

Oposição

Diferentemente dos outros, Badger, o coronel aposentado e republicano de longa data, discorda de muitas das opiniões de Giffords. Badger parou no evento depois de visitar uma feira de carros local para expor seu Jaguar branco de 1973 e planejava questionar o apoio dela ao que chamou de "Obamacare" - a reforma do sistema de saúde de Obama.

Enquanto conversava com as pessoas na fila sobre o lindo dia que fazia, o tiroteio começou. Uma bala atingiu de raspão sua cabeça, fazendo-o sangrar. Quando os tiros terminaram, ele foi uma das várias pessoas que empurraram o atirador, imobilizando-o no chão. Ele descreve o encontro com precisão militar: ele bateu no atirador com a mão direita e, em seguida, segurou o seu braço esquerdo.

A empolgação é menor quando fala sobre seu próprio estado psicológico após o ataque. Ele descartou a terapia dizendo que é "mentalmente são". Mas a angústia tem tomado conta. Ele passou apenas algumas horas no hospital recebendo pontos em sua ferida e achou que estava lidando bem com aquilo. Mas quando viu na televisão uma reportagem sobre um aeroporto onde as pessoas estavam dormindo no chão, aguardando voos atrasados por causa da neve, lembrou-se lembrou dos corpos estendidos no chão. "Eu não estava preparado para esse choque. Desabei", disse ele.

Recuperação

Os sobreviventes e as famílias das vítimas vão lutar à sua própria maneira nos próximos anos, disse Carol Gaxiola, diretor do grupo Sobreviventes de Homicídios, que defende as vítimas e é sediado em Tucson.

Gaxiola, cuja própria filha, Jasmine, foi assassinada há 11 anos, disse que falou com as famílias de todos os seis mortos. "Toda a maneira de ver a segurança foi totalmente invadida e violada", disse ela. "É como uma onda selvagem de emoções: ela oscila para cima e para baixo, e há muito pouco descanso".

Naturalmente, os sobreviventes lembram constantemente a si mesmos da sorte que têm. As famílias dos mortos estão lutando com uma dor muito mais profunda.

Ross Zimmerman, o pai do assessor de Giffords que foi morto, disse que passou o primeiro dia em estado de choque, mal conseguia falar. Ele não consegue dormir durante a noite e muitas vezes acorda chorando. "O tipo de coisa que passa pela minha cabeça agora é que eu vou viver e esperar o resto da minha vida até morrer", disse ele em entrevista.

Lentamente, ele começou a curar a si mesmo ao falar com amigos e familiares sobre o seu filho. Mas parte de seu método para lidar com o que aconteceu, ele contou, tem sido enfrentar a verdade crua. "Gabe está morto, ele não vai voltar", disse ele. "Não há nada que eu possa fazer sobre isso".

*Por Sam Dolnick, com colaboração de Kassie Bracken

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