Para os negros da França, a ascensão de Obama é motivo de alegria

PARIS, França ¿ Quando Youssoupha, um rapper negro da França, foi questionado outro dia sobre o que se passava em sua mente, ele estampou um sorriso. ¿Barack Obama,¿ disse. ¿Obama nos mostra que tudo é possível.¿

The New York Times |

Uma nova consciência negra está surgindo na França, tardiamente acelerada, entre outros motivos, pela provável indicação do partido Democrata para a disputa pela presidência dos EUA. Um artigo no jornal francês Le Monde, há alguns dias, descreveu como Obama está provocando novas esperanças entre os negros da França. Todo palavra negro nos jornais franceses era, até há pouco tempo, motivo de espanto. 

Ao mesmo tempo, na semana passada, 60 carros foram queimados e 50 jovens entraram em confronto com a polícia e o corpo de bombeiros, deixando muitos feridos, no subúrbio de Vitry-le-François, na cidade de Marne, norte da França.

Os americanos, que debatem as relações inter-raciais desde o surgimento da república, provavelmente encontram dificuldades em entender que as diferenças raciais, como a religião, ainda são assuntos tabus na França. Enquanto Obama fala em concorrer às eleições transcendo as diferenças raciais, um crescente número de negros franceses pressiona para que aconteça o contrário.

A França sempre se considerou mais esclarecida sobre as questões raciais que a conturbada América, no entanto, o país se encontra em uma situação que desmente essa crença. Incidentes como os da semana passada trazem à mente os protestos que explodiram na França três anos atrás. Desde a abolição da escravidão há 160 anos, o país declarou oficialmente que não mais haveria diferenciação entre as raças ¿ mas vendo Obama, uma nova geração de negros franceses está argumentando que chegou a hora de ter o tipo de discussão franca que precedeu a indicação Democrata nos EUA.

Essa consciência negra está refletida não só nas conversas cotidianas, mas também nos livros e músicas produzidos por jovens negros franceses como Youssoupha, um divertido e dentuço rapaz de 28 anos que aos 10 anos foi mandado do Congo por seus pais para que pudesse ter acesso a educação. Na França, foi criado por uma tia que trabalhava na cafeteria de uma escola do subúrbio, e lá recebeu conselhos para que não fosse tão ambicioso. Contrariando os conselhos, Youssoupha graduou-se pela Sorbonne.

Depois, como muitos negros com boa formação, ele não encontrou oportunidades. Eu me vi trabalhando numa rede de fast-food com pessoas que tinham 15 anos de estudo, recorda.

Ele virou rapper, mais frustrado que nunca, buscando inspiração na negritude, uma ideologia do orgulho negro criada em Paris durante as décadas de 1920 e 30 por Aime Cesaire, poeta francês e politico de Martinique, e Leopold Sedar Senghor, poeta que se tornou o primeiro presidente do Senegal. Essa filosofia, como Sartre apontou, era uma espécie de anti-racismo, uma celebração da herança negra.

Por MICHAEL KILMMELMAN

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