Para o Brasil, candidatura à sede da Olimpíada é muito mais do que esporte

RIO DE JANEIRO - Em uma cintilante praia de Copacabana, onde os moradores do Rio ultra-conscientes de seus corpos jogam voleibol e futebol, telões estão sendo armados para a transmissão ao vivo da votação que irá determinar se esta cidade fará história ao se tornar a primeira da América do Sul a sediar os Jogos Olímpicos.

The New York Times |

Nas ruas e nos lábios dos locutores de rádio e apresentadores de televisão, os brasileiros só falam sobre os Jogos Olímpicos e há uma sensação generalizada de que esta cidade famosa por suas festas está pronta para explodir na sexta-feira em um delírio capaz de rivalizar seu Ano Novo e até mesmo o Carnaval caso a votação para a sede dos jogos de 2016 aconteça com quer o Rio.


Placar em praia carioca faz contagem regressiva para anúncio / NYT

Líderes locais dizem que o lucro com os Jogos Olímpicos representaria um momento de transformação para o Brasil, uma afirmação de sua importância global ascendente e um impulso para o amor-próprio dos cariocas, 85% dos quais apoiaram a candidatura Olímpica em uma recente votação realizada pelo Comitê Olímpico Internacional.

"Seria demais para nossa cidade, para nossos cidadãos e para o Brasil como um todo", disse Carlos Osório, secretário geral do comitê de candidatura do Rio.

Ainda que os três outros finalistas - Chicago, Madri e Tóquio - também tenham apresentado ofertas fortes, apenas o Rio conseguiu apoio fora das fronteiras do Brasil.

O presidente Nicolas Sarkozy da França, que tem negociado acordos militares com o país, disse apoiar a candidatura do Rio "100 por cento".

O Rei Juan Carlos da Espanha chegou a dizer que ficará do lado do Rio caso Madri seja eliminada na primeira rodada de votos.

E alguns membros do Comitê Olímpico Internacional aparentemente estão cativados pela ideia de corrigir a negligência histórica dos jogos com a América do Sul.

Os brasileiros também acreditam ter vantagem na questão presidencial. Ainda que o presidente Barack Obama, um morador de Chicago de longa data, tenha apoiado a candidatura da cidade, ele disse que não estará presente na votação em Copenhague, citando as demandas urgentes da reforma do sistema de saúde. Sua esposa, Michelle, nativa de Chicago, estará lá para representá-lo.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva do Brasil, por outro lado, se colocou atrás da candidatura do Rio e disse que definitivamente fará a viagem até Copenhague. Ele intercedeu com membros do COI e falou pessoalmente com Osório e outros oficiais do comitê de candidatura do Brasil para receber atualizações regulares.

Ele participou da cerimônia de abertura dos jogos de verão do ano passado em Pequim e sediou um jantar para membros do Comitê Olímpico Internacional. Além disso, Lula ficou um dia extra em Londres depois do a cúpula do Grupo dos 20 em abril para visitar o Parque Olímpico em construção para os jogos de 2012.

O voto de cerca de 100 membros do comitê poderia estampar um ponto de exclamação no seu legado como um dos presidentes mais populares do Brasil neste século, e pavimentar a estrada para seu retorno ao poder em 2014, segundo analistas políticos.

Por outro lado, a ascensão do Brasil como uma jurisdição esportiva de primeira classe é uma bênção mista. O Brasil será o anfitrião da Copa do Mundo de 2014 e já tem projetos em andamento para renovar seus aeroportos internacionais no Rio e São Paulo e construir um sistema ferroviário de alta velocidade entre as duas cidades em preparação para o evento, pontos que funcionam a favor do Rio.

Mas sua sede dos Jogos Panamericanos de 2007 é um ponto contra a cidade. Políticos do Rio prometeram inúmeros projetos de infraestrutura urbana para os jogos, inclusive uma nova linha de metrô, que não foram completados.

O prefeito Eduardo Paes, que foi secretário de esportes do Rio durante os Jogos Panamericanos mas não esteve envolvido na candidatura original, reconheceu que as autoridades prometeram demais. "Está óbvio que a proposta continha exageros que não poderiam ser cumpridos", ele disse.

Mas ele disse que desta vez o Rio vai cumprir suas promessas.

O Rio quer se tornar a próxima Barcelona, na Espanha, uma cidade que usou os Jogos Olímpicos de 1992 para melhorar sua infraestrutura e se transformar em um destino mais popular para turismo e eventos internacionais. Autoridades locais dizem que a Olímpiada do Rio poderia ajudar a ampliar o apelo dos jogos a uma audiência mais jovem na América do Sul, enquanto marcava a cidade do Rio e o Brasil com um selo de aprovação internacional.

"O Rio tem muito a ganhar com os jogos", disse Paes. "E o movimento Olímpico tem muito a ganhar com o Rio também".

No passado, o COI deu seu selo de aprovação a regiões desconhecidas em tempos propícios em suas histórias. Tóquio ganhou os Jogos de 1964 quando o Japão ainda estava emergindo da sombria era da Segunda Guerra Mundial e a economia do país estava decolando. Os Jogos de 1988 de Seul ajudaram a promover a "marca da Coreia", enquanto autoridades chinesas usaram os Jogos de Pequim para escapar do seu isolamento global.

Para o Brasil, que já se candidatou três vezes - o Rio duas vezes e Brasília uma - a votação de sexta-feira acontece depois de muitos anos de crescimento econômico e emergência do país como líder comercial e diplomático do continente. Os Jogos Olímpicos, segundo Osório, estariam claramente "alinhados à estratégia a longo prazo do país de apresentar a si mesmo ao mundo".

Para o Rio, os Jogos Olímpicos poderiam erguer uma cidade que apesar de toda sua beleza natural e charme turístico tem lutado para se redefinir desde que foi suplantada por Brasília como o capital do país em 1960. Nas últimas décadas, bancos e alguns de seus profissionais mais talentosos têm sido atraídos para a crescente megalópole de São Paulo. O Rio desenvolveu uma reputação de decadente e assolado pelo crime.

"O Rio precisa reforçar seu amor próprio", disse Ruy Castro, um escritor brasileiro que escreveu um livro sobre a cidade. Mas, ele disse, recentemente o Rio tem tido boas surpresas, notando que a cidade foi escolhida como o local de filmagem para um filme de Woody Allen e que foi nomeada a cidade mais feliz do mundo pela revista Forbes.

Na verdade, felicidade faz parte da candidatura do Rio.

A cidade prometeu uma praia particular para os atletas, em frente a uma reserva natural na Barra da Tijuca que, no verdadeiro espírito carioca, estaria disponível a qualquer hora. A Vila Olímpica teria uma Rua Carioca, uma rua típica do Rio com cafés, bares e o ritmo do samba e da bossa nova.

Se os atletas pudessem votar, Osório disse, "seria uma lavada".

- Alexei Barrionuevo

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