Para muitos chineses, nova riqueza traz feições renovadas

Mudança avassaladora na vida dos chineses, trazida por abertura econômica, reflete-se em seus rostos modificados por plásticas

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Mesmo na camisola listrada do hospital, com o rosto lavado sem um pingo de maquiagem e marcado com linhas roxas feitas por seu cirurgião, a jovem que chamou a si mesma de Devil (demônio, em inglês) encarnava uma beleza amplamente admirada na China: olhos grandes, nariz delicado e maçãs do rosto suavemente esculpidas.

Mas e sua mandíbula? Quadrada demais para seu gosto. Por isso, a repórter de 22 anos de idade viajou recentemente de uma província costeira para um hospital particular no centro de Pequim para mudar isso – por cerca de US $ 6 mil. Seu namorado, um empresário de 29 anos de idade que usava óculos de marca internacional, pagou a conta.

"Eu não estou nem um pouco nervosa", disse Devil (o nome em inglês que ela escolheu e o único que aceitou revelar) enquanto aguardava o momento da cirurgia no hospital Evercare Aikang no centro de Pequim. "Eu vou ficar mais sofisticada e bonita”.

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Chen Xiaomeng operou as pálpebras em cirurgia plástica
A mudança avassaladora na vida dos chineses – de bicicletas a automóveis, da aldeia à vida na cidade e férias em estações de esqui – agora se estende aos rostos. Em apenas uma década, a cirurgia estética e plástica se tornou a quarta forma mais popular de gastar qualquer renda extra na China, de acordo com Ma Xiaowei, vice-ministro da Saúde da China. Apenas casas, carros e viagens vêm antes, disse ele.

Não existem números oficiais, mas a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética estimou em 2009 que a China ficava em terceiro lugar, atrás apenas de Brasil e Estados Unidos, com mais de 2 milhões de cirurgias por ano. Além disso, o número de operações está dobrando a cada ano, Ma afirmou em uma conferência organizada pelo Ministério da Saúde, em novembro. "Nós reconhecemos que a cirurgia plástica estética agora se tornou um serviço comum, tendo em vista as massas", disse ele.

Procedimentos

O levantamento das pálpebras e tratamentos para eliminar rugas estão na moda, assim como no Ocidente. Mas na Evercare, responsável por uma cadeia de hospitais dedicados à cirurgia estética na China, dois quintos dos pacientes tem cerca de 20 anos de idade, observou Li Bin, gerente-geral e um dos fundadores da rede hospitalar.

Nacionalmente, os procedimentos mais solicitados não estão relacionados com a idade: a principal operação é projetada para fazer os olhos parecerem maiores com a adição de um vinco na pálpebra, formando o que é conhecido como pálpebra dupla, disse Zhao Zhenmin, secretário-geral da Associação de Plástica e Estética do Governo da China.

A segunda operação mais popular é aquela que levanta a ponta do nariz para torná-lo mais proeminente: o oposto da cirurgia de nariz típica no Ocidente. A terceira é a moldagem da mandíbula para torná-la mais estreita e longa, disse ele.

Entre os jovens pacientes estão candidatos a empregos que esperam melhorar suas perspectivas na força de trabalho, adolescentes que receberam a cirurgia cosmética como um presente de formatura do ensino médio e até mesmo alunos do ensino fundamental, e a maioria quer a operação nas pálpebras, dizem os médicos.

Regulamentação

O sistema de regulamentação chinesa não acompanhou o ritmo. Na conferência, realizada em Pequim em novembro, Ma, o vice-ministro da Saúde, disse que a situação "pode até mesmo ser descrita como negligência".

Das 11 clínicas e hospitais que oferecem cirurgias plásticas ou cosméticos que foram inspecionadas no ano passado menos da metade estava dentro dos padrões nacionais, segundo ele. Os funcionários não tinham credenciais profissionais, os equipamentos e materiais não atingiam o nível adequado. Salões de beleza são infratores flagrantes, administrando injeções de Botox e realizando cirurgias nas pálpebras.

Ma comparou a indústria a uma "zona de catástrofe" por causa da frequência com que acontecem acidentes. Sua posição foi ressaltada quando uma ex-concorrente do reality show chinês "Super Girl", de 24 anos, morreu depois que seu esôfago encheu de sangue durante uma operação para moldar o seu maxilar na província de Hubei.

As autoridades sanitárias exigiram uma investigação. No entanto, Zhao, que também atua como vice-diretor do Hospital de Cirurgia Plástica e Cosmética do governo de Pequim, disse que seria impossível recolher provas, porque o corpo foi cremado rapidamente, uma prática comum na China quando hospitais privados fazem um acordo ligeiro para encobrir qualquer sinal de erro médico.

"Pessoalmente, eu acho que é realmente desprezível", disse Zhao. "Nós precisamos chegar ao fundo de tais casos, a fim de proteger as pessoas no futuro".

As deficiências do sistema médico chinês não são limitadas às cirurgias plásticas e cosméticas. No entanto, a indústria gera atualmente cerca de US$ 2,3 bilhões em receitas, com base em estimativas, e o governo começou prestar mais atenção ao que acontece no setor. Alguns oficiais acreditam que novos regulamentos serão divulgados este ano.

Um dos objetivos implícitos é interromper o fluxo de pacientes para hospitais chineses estabelecidos na Coreia do Sul. Ma acredita que os chineses representam 30% dos pacientes de cirurgia plástica em Seul.

Por enquanto, muitos salões de beleza estão lucrando com a falta de supervisão. Em uma tarde recente em um salá de uma rede conhecida, um senhor de 62 anos, vestindo um jaleco branco, que se descreveu como um esteticista, disse que poderia chamar um médico para dar pálpebras duplas a uma cliente em 20 minutos por cerca de US$ 180, uma fração do preço cobrado nos hospitais. "Ela vai ficar imediatamente diferente", disse ele.

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Jovem chinesa é preparada para procedimento cirúrgico em Pequim
Do outro lado do espectro está o hospital Evercare Aikang, com seu piano de cauda no lobby e túnel subterrâneo por onde passam pacientes e médicos que querem privacidade, como Wang Jiguang, que já realizou milhares de operações. Pacientes menores de 19 anos de idade são orientadas a retornar quando tiverem idade suficiente para tomar uma decisão sobre uma mudança permanente na sua aparência.

Li, porta-voz do hospital de 46 anos e ex-jornalista do governo, disse que o procedimento normalmente custa entre US$1,5 mil e US$ 3 mil no Evercare. Tendo renovado uma parte de seu rosto, muitos pacientes acham irresistível realizar outros procedimentos. Entre 30% e 40% deles voltam, ele disse.

Chen Xiaomeng, uma pequena mulher de 25 anos, disse que a cirurgia da pálpebra dupla pela qual passou há dois meses fez com que parecesse menos sonolenta, efeito já havia tentado conseguir com finas tiras de fita adesiva transparente, disponível nas lojas de Pequim. Agora ela está considerando uma rinoplastia.

Ela não fez nenhum esforço para esconder a sua operação tanto de seus colegas na agência de publicidade e entretenimento onde trabalha em Pequim quanto de suas amigas, cinco das quais passaram pelo mesmo procedimento. "A cirurgia plástica agora é aceita em praticamente todas as casas", disse enquanto almoçava. "Não é um grande problema".

*Por Sharon La Franière

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