Para latinos nos EUA, raça tem mais relação com cultura que cor da pele

Mais de 18 milhões de latinos marcaram 'outra raça' no Censo, indicando uma grande diferença entre como eles se veem e como o governo quer contá-los

The New York Times |

A cada década, o Censo americano gasta bilhões de dólares e emprega centenas de milhares de trabalhadores para obter um retrato exato da população dos Estados Unidos. Entre as questões no formulário do censo está uma sobre raça: são 15 opções de respostas, incluindo a de “outra raça".

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Fiordaliza Rodriguez, advogada que diz se identificar como branca, mas que sabe ser considerada diferente da maioria branca dos EUA (4/5/2011)
Mais de 18 milhões de latinos marcaram esta opção no censo de 2010 - em 2000 foram 14,9 milhões. Isto é uma indicação de como os latinos se definem e como o governo quer catalogá-los. Muitos latinos argumentam que as categorias raciais do formulário - que representa a concepção de como o governo os identifica - não parecem se encaixar na maneira como eles se veem.

A principal razão para a divisão é que o censo classifica as pessoas por raça, que normalmente se refere a um conjunto comum de características físicas. Mas os latinos, como parte de um grupo étnico do país, tendem a se identificar mais pelo conjunto de traços culturais como a língua e os costumes.

Assim, quando respondem ao censo, eles têm de responder a uma questão que pergunta se eles se identificam como tendo origens étnicas hispânicas e muitos assinalam essa opção. Mas há uma outra questão, que pergunta qual é sua raça, pois conforme diz o guia do censo, "as pessoas de origem hispânica, latina ou espanholas podem ser de qualquer raça". Aí, mais de um terço dos latinos optam por se definir como de "outra raça".

Esta discussão sobre identidade ganhou mais importância devido ao crescimento da população latina, que em 2010 ficou em mais de 50 milhões de pessoas. Oficiais do Censo reconheceram que o questionário tem um defeito e disseram que estão tendo problemas cada vez maiores para fazer com que os latinos escolham uma raça. Em 2010 eles testaram uma maneira diferente de formular as questões e no ano passado efetuaram estudos de grupos focais - um relatório sobre isso será divulgado até meados deste ano.

Alguns especialistas dizem que as autoridades estão corretas em questionar o formulário e tentar refazê-lo. "Sempre que há pessoas que não conseguem se situar na pergunta, ela se torna mal feita", disse Mary C. Waters, professora de sociologia em Harvard.

O problema é mais do que acadêmico - os dados do censo sobre a raça da população americana servem a muitos propósitos, inclusive para determinar a composição dos distritos de votação e no monitoramento de práticas discriminatórias na contratação e disparidades raciais na educação e saúde. Quando os entrevistados não escolhem uma raça, o Bureau do Censo automaticamente lhes atribui uma com base em fatores como a composição racial de seu bairro, inevitavelmente levando a uma contagem menos precisa.

Muitos dos latinos, que compõem cerca de 20% da população dos Estados Unidos, geralmente têm uma visão fundamentalmente diferente de raça. Muitos latinos dizem que são racialmente muito mistos para conseguir se encaixar em apenas uma das opções de raças padrões sancionadas pelo governo - como branco, preto, índio, nativo do Alasca, nativo do Havaí, e um grupo de origens asiáticas e das ilhas do Pacífico.

Alguns consideram brancos ou negros como sendo grupos demográficos diferentes de latino. Outros dizem ainda que os latinos já são o equivalente a outra raça neste país.

"As questões em debate dentro da comunidade latina - língua e status de imigração, - não levam em consideração a raça", disse Peter L. Cedeno, 43, um advogado nova-iorquino filho de pais imigrantes da Republica Dominicana. "Compartilhamos as mesmas dificuldades."

Em um momento no qual muitos americanos mestiços têm orgulho de afirmar sua identidade mista, muitos latinos estão evitando ou ignorando as questões sobre raça.

Erica Lubliner, que tem pele clara e olhos verdes - heranças de seu pai judeu e mãe mexicana -, disse que entrou em “conflito" sobre a questão racial no formulário do censo e acabou deixando a pergunta em branco.

Lubliner, uma recém-formada da faculdade de medicina da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, que hoje tem 30 anos, tinha apenas 9 quando seu pai morreu. Ela cresceu imersa na língua e cultura de sua mãe e disse que nunca se identificou com "a cultura dominante de seu pai branco”. Ela acredita que sua mãe é uma mistura de branco e índio. "Acredite em mim, não sou uma pessoa confusa", disse ela. "Sei quem eu sou, mas não consigo me encaixar em quaisquer dessas categorias."

Alejandro Farias, 23, de Brownsville, Texas, supervisor de uma empresa de cargas, vê a si mesmo simplesmente como latino. Seus antepassados vieram dos Estados Unidos, México e Portugal. Quando pressionado, ele simplesmente assinalou a opção de "outra raça".

"Raça para mim é uma questão muito confusa, porque temos muitas pessoas de muitas raças que compõem a árvore genealógica da minha família", disse ele.

No entanto, a raça é importante. Como os latinos se identificam - e como o censo faz sua contagem - afeta a influência política dos latinos e de outros grupos de minoria. Alguns estudos descobriram que latino-africanos tendem a apoiar mais um sistema de saúde pública e não apoiar a pena de morte do que os latinos que se identificam como brancos, uma diferença que também se encontra nas populações categorizadas apenas como brancos e negros.

Este efeito racial "enfraquece a eficácia política dos latinos como um grupo", disse Gary M. Segura, um professor de ciência política na Universidade de Stanford, que realizou algumas pesquisas sobre a questão.

A maioria dos latinos se identifica como brancos. Entre eles está a Fiordaliza A. Rodriguez, 40, advogada de Nova York, que diz que se considera branca, porque "tenho a pele clara" e por ser assim que ela é vista em sua terra natal, a República Dominicana.

Mas ela diz que não há dúvida de que é vista como sendo diferente da maioria branca deste país. Rodriguez lembrou uma ocasião em um tribunal, quando um advogado branco assumiu que ela era a intérprete. Ela disse que a confusão teve a ver com os estereótipos étnicos, "não importa o quão bem você esteja vestida."

Algumas das pesquisas mais recentes, no entanto, mostram que muitos latinos – assim como os imigrantes irlandeses e italianos antes deles - resolveram abrir mão de seu rótulo latino e passaram a se considerar simplesmente brancos. Um estudo publicado no ano passado no Journal of Labor Economics descobriu que mais de um quarto dos pais da terceira geração de crianças com ascendência mexicana não identificam seus filhos como latinos nos formulários do censo.

A maior parte deste atrito étnico ocorre entre os filhos de pais ou avós casados com não-mexicanos, geralmente brancos não-hispânicos. Esses latinos tendem a ter ensino superior, um salário elevado e altos níveis de fluência em inglês. Isso significa que muitos latinos bem sucedidos não estão mais presentes nas estatísticas de monitoramento do progresso econômico e social do seu grupo. Por isso, muitos estudos mostram pouco ou nenhum progresso por parte da terceira geração de imigrantes mexicanos, disse Stephen J. Trejo, um economista da Universidade do Texas em Austin e co-autor do estudo.

E um estudo mais recente de pesquisadores da Universidade do Sul da Califórnia descobriu que mais de 2 milhões de pessoas, ou 6% das que reivindicaram qualquer tipo de ascendência latino-americana em pesquisas do censo, em última análise não se identificam como latinos ou hispânicos. A tendência foi mais prevalente entre aqueles de ascendência mista, que só falavam inglês e que se identificaram como brancos, negros ou asiáticos quando lhe perguntaram sua raça.

James Paine, cujo pai é metade mexicano e metade americano, disse que nunca lhe ocorreu reivindicar uma identidade latina. Paine, 25, o proprietário de uma empresa de gestão imobiliária em La Jolla, na Califórnia, passava os verões com a sua tia mexicana-americana e comparece nas reuniões da família de seu pai todos os anos (sua mãe é branca de ascendência irlandesa e francesa). Mas ele diz que não fala espanhol e tampouco vive em um bairro latino.

"Se a pergunta for 'Qual é a sua herança?' Eu diria irlandês com mexicano", disse ele. "Mas a questão é 'O que você é?' E a resposta é que eu sou branco".

Do outro lado do espectro estão os latinos negros, que dizem que sentem o racismo da mesma maneira que outros negros. Um sentimento de orgulho racial vem surgindo entre muitos latinos negros que agora estão se reunindo em conferências e organizações.

Miriam Jimenez Roman, 60, uma estudiosa sobre raça e etnia, em Nova York, diz que questões como a discriminação racial dos latinos de pele escura fizeram com que ela aparecesse em um anúncio de serviço público de 30 segundos antes do censo de 2010 encorajando os latinos de ascendência africana a "selecionar ambos os campos de: latinos e negros". "Quando você se senta no metrô, você enxerga apenas uma pessoa negra, e isso é realmente o que determina o tratamento", disse ela. O censo de 2010 mostrou que 1,2 milhão de latinos se identificaram como negros, ou 2,5% da população hispânica.

Ao longo das décadas, o Censo tem repetidamente mudado a maneira de como faz a pergunta sobre raça e no formulário de 2010 acrescentou uma frase que dizia que "origens hispânicas não são consideradas uma raça”. A mudança ajudou 5% de latinos a não selecionar a opção de "outra raça", com a grande maioria tendo escolhido a categoria "branco(a)".

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Peter Cedeno, advogado que acredita que os latinos são uma raça própria, definida por desafios comuns, como língua e status migratório (4/5/2011)
Ainda assim, os críticos do questionário do censo dizem que o governo deve deixar para trás as distinções raciais baseadas no pensamento binário do século 18 e adaptar-se a noção atual de ser dos americanos.

Mas líderes políticos latinos dizem que há risco em mudar as perguntas, criar confusão e fazer com que alguns latinos não selecionem sua etnia, encolhendo os números gerais dos hispânicos.

Em última instância, segundo Angelo Falcon, presidente do Instituto Nacional de Política Latina e presidente do Comitê Consultivo sobre o Censo da População Hispânica, esta não é apenas uma discussão sobre identidade, mas também uma batalha política. "Tudo se resume ao que cria maior número e para qual grupo", disse ele.

Por Mireya Navarro

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