Para japoneses mais velhos, carnificina do tsunami evoca horrores

Sobreviventes de bombardeios da Segunda Guerra Mundial reviveram tragédia e desespero durante terremoto

The New York Times |

Hirosato Wako olhou para as ruínas de sua vila de pescadores: esqueletos de prédios destruídos, aço corrugado torcido, cadáveres com as mãos torcidas em garras. Apenas uma vez antes ela tinha visto algo assim: na Segunda Guerra Mundial.

"Eu sobrevivi aos ataques aéreos a Sendai", disse Wako, 75 anos, referindo-se aos bombardeios aliados à maior cidade do nordeste do país. "Mas isso é muito pior".

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Idosa desabrigada após tsunami em abrigo em Rikuzentakata, no Japão
Para os idosos que vivem nas aldeias que tomam conta da costa nordeste do Japão, esse é um retorno a um passado de privações que seus filhos nunca conheceram. Como em grande parte do interior japonês, os jovens fugiram para as grandes cidades à procura de trabalho. Os idosos que permaneceram na região estão enfrentando a devastação e a possível contaminação por radiação, um desafio igual somente à tarefa que essa geração enfrentou quando sua nação foi derrotada e teve de se recuperar dos escombros da guerra.

No povoado de Yuriage, a busca por sobreviventes foi se transformando em uma busca por corpos. E a maioria dos corpos é de idosos velhos demais para escapar de um tsunami.

Yuta Saga, 21anos, pegava copos quebrados após o terremoto quando ouviu as sirenes e gritos de "Tsunami!" Ele agarrou a mãe pelo braço e correu para a escola secundária, o edifício mais alto ao redor. O tráfego parava as ruas conforme motoristas em pânico colidiam uns com os outros. Ele conseguia medir antecipadamente a chegada da onda pelas nuvens de pó criadas pelo desmoronamento dos edifícios.

Desespero

Quando chegaram à escola, Saga e sua mãe encontraram a escada até o telhado entupida de idosos que parecia incapazes de reunir a força necessária para subir os degraus. Alguns estavam apenas sentados ou deitados nos degraus. A onda chegou quando o piso inferior estava cheio de moradores em fuga.

Na início as portas aguentaram. Então a água começou a jorrar pelos cantos e a encher as salas. Em pânico para alcançar o telhado, os moradores mais jovens começaram a empurrar e a gritar: "Depressa!" e "Sai da frente!" Subiram sobre aqueles que não estavam se movendo.

"Eu não podia acreditar", disse Saga. "Eles estavam mesmo empurrando os idosos para fora do caminho. Os idosos não tinham como se salvar”. Ele acrescentou: "As pessoas não se preocupavam com os outros".

Então as portas se abriram e a água tomou conta de tudo. Rapidamente ela chegou ao nível da cintura. Saga viu uma mulher mais velha, sem forças ou vontade de ficar de pé, sentada na água que subiu até o seu nariz. Ele disse que correu até ela, agarrou-a debaixo dos braços e a levou escada acima. Outra pessoa na escada a agarrou e a levantou para outra pessoa. Os homens formaram uma corrente humana, levantando os moradores mais velhos e algumas crianças para o topo.

o lado feio das pessoas, e então eu vi o lado bom", disse ele. "Algumas pessoas só pensavam em si. Outras paravam para ajudar".

Saga, disse que uma mulher entregou-lhe seu bebê. "Por favor, salve o meu bebê pelo menos", ela implorou com a água na altura do peito.

Saga disse que pegou o bebê e correu pelas escadas. Muitos daqueles que ainda estavam no pé da escada foram levados pela onda.

"Eu viEle se juntou a cerca de 200 pessoas no segundo andar do edifício. A mãe do bebê chegou correndo pelas escadas e ele colocou o bebê em seus braços. Das janelas, eles assistiram casa desenraizadas e carros flutuando sobre as ondas. As pessoas não falavam, disse ele. Eles só choravam e gemiam um coletivo "ahhhh!" enquanto observavam a destruição acontecer.

Ele viu um de seus colegas de classe, cujos pais haviam ido para casa para pegar algo quando a onda veio e não chegaram à escola. Seu amigo estava sentado no chão, em lágrimas. A família de Saga estava a salvo, incluindo seu irmão de 15 anos, Ryota, que fugiu para a escola de bicicleta.

Na segunda-feira, os dois irmãos voltaram para Yuriage pela primeira vez. A casa estava inteiramente destruída, restando apenas a fundação. Quando eles chegaram lá, soou um alerta de tsunami. Eles correram para terrenos mais altos, então o menino mais novo desabou, soluçando.

"Ele não consegue esquecer a memória do que aconteceu", disse Saga.

"Muitos dos meus amigos estão desaparecidos", disse Ryota.

Hisako Tanno, 50 anos, estava trabalhando em um armazém quando o terremoto aconteceu. Ela correu para casa para pegar seu pai de 77 anos de idade. Quando estacionou na frente da casa, ela ouviu gritos. Ela olhou para a rua para ver uma "montanha de lixo" descendo sobre a cidade. Era a onda. "Eu só tive tempo de pegar minha bolsa e correr", disse Tanno.

Seus vizinhos a chamaram de sua casa, e ela correu para o seu segundo andar. Então ela se lembrou que tinha deixado seu pai.

Ela podia ver sua casa pela janela. Quando a onda chegou, ele quebrou as portas de correr. Então, para seu horror, ela viu seu pai ser levado. A água estava agora na altura de um prédio de um andar. Ela o viu se agarrar ao parapeito de ferro da varanda do segundo andar. "Ele estava tentando se levantar, mas ele tem uma perna ruim", disse ela.

Conforme a água subia, o pai conseguiu içar o próprio corpo para a varanda, onde se segurou para salvar a própria vida. "Eu não sabia que ele tinha essa força", ela disse. "Ele queria tanto viver que encontrou uma última força para isso”.

Após o terremoto, Jun Kikuchi, 33 anos, dono de uma empresa de táxi local, dirigiu até a casa de uma meia dúzia de moradores de 70 anos ou mais para perguntar se poderia levá-los para locais mais altos. Eles se recusaram, dizendo que não houve alerta de tsunami, de modo que ficariam em casa.

Ele sobreviveu à onda, indo para o segundo andar do prédio de escritórios de sua empresa, que resistiu ao tsunami. Na manhã seguinte, quando ele finalmente se aventurou mais uma vez, as casas de todos os seis dos moradores mais velhos haviam sido destruídas. "Os idosos não têm como cuidar de si mesmos em um desastre como este", disse ele. "Eles não tinham nenhuma chance".

*Por Martin Fackler

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