Para Israel e Cisjordânia, uma linha define vidas

Para alguns palestinos, Linha Verde serve como fronteira virtual, apesar de não haver um Estado do outro lado

The New York Times |

Durante décadas, Israel tentou apagar da consciência pública a Linha Verde, a fronteira com a Cisjordânia definida antes de 1967 durante as negociações paralisadas para a criação de um Estado Palestino.

Israel ergueu construções em ambos os lados da Linha Verde e a excluiu de livros e mapas meteorológicos. Trabalhadores israelenses que passam pela estrada que liga Tel Aviv a Jerusalém cruzam a linha não marcada perto do cruzamento de Latrun quase que diariamente, cortando meia milha de Território da Cisjordânia e várias outros quilômetros de terra de ninguém, ignorando a história da área.

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Mulheres palestinas caminham pelo posto de controle entre Jerusalém e Kalandia, na Cisjordânia

 Em Jerusalém, onde Israel anexou a parte oriental da cidade e seus locais sagrados após a guerra de 1967, uma novo sistema ferroviário atravessa a colcha de retalhos que são os bairros judeus e palestinos, deslizando sem preocupações para além da fronteira invisível.

No entanto, uma recente viagem ao longo da linha, do ponto de verificação da fronteira norte em Jalama até as pequenas aldeias de Al Ghuwein e Sansana nas árida colinas do sul, mostrou que apesar das tentativas de apagar a linha fisicamente, Israel preservou cuidadosamente a linha em termos jurídicos e administrativos, o que define a vida de ambos os lados.

O governo Obama pediu para que as negociações para a criação de um Estado Palestino tenham base nas fronteiras de 1967, com um acordo mútuo de troca de terras. Na ausência de tais negociações, a liderança palestina fez planos para buscar o reconhecimento de um Estado com base nessas tais fronteiras na conferência das Nações Unidas deste mês. Israel afirma que a Linha Verde não pode ser defendida.

Sucessivos governos israelenses estabeleceram assentamentos judaicos na Colinas da Cisjordânia, encorajados por nacionalistas religiosos israelenses que reivindicam a área como parte de seu direito pelos princípios bíblicos. Para oficiais palestinos, encorajados pela ascensão do nacionalismo palestino, o que começou como uma linha de cessar-fogo temporária tornou-se algo sagrado, embora muitas pessoas ainda acreditem em reivindicações das terras do lado israelense e rejeitem qualquer partição da Palestina pré-1948.

"Se os israelenses não reconhecem essa linha", disse Nazmi al-Jubeh, um historiador palestino, "isso significa que eles não reconhecem como ocupado o território além do deles" .

Dirigir pela Linha Verde é como tecer um caminho paralelo entre universos, ao longo de uma costura que está ao mesmo tempo presente e ausente, que se funde e se divide.

Parede invisível

A Linha Verde foi delineada quando oficiais de Israel e da Jordânia negociaram um armistício nos meses após a guerra árabe-israelense, em 1948: ela recebeu esse nome por causa da marca-texto verde com a qual foi desenhada. A linha foi desenhada há 19 anos, entre 1949 e 1967, quando Israel capturou o setor oeste e Jerusalém Oriental da Jordânia, juntamente com a faixa de Gaza do Egito e o Colinas de Golã da Síria.

Enquanto grande parte da fronteira separa os israelenses dos palestinos, cerca de 1,5 milhão de árabes palestinos são cidadãos de Israel, e mais de 500 mil judeus israelenses agora vivem ao leste da Linha Verde.

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Homem agita bandeira palestina, enquanto marcha comemora o Dia de Jerusalém

Mas para os palestinos, a antiga linha já serve como uma fronteira virtual, apesar de ser uma fronteira sem um Estado do outro lado.

Em Bartaa, uma aldeia do norte árabe que atravessa a Linha Verde na área conhecida como Wadi Ara, há uma realidade peculiar, onde a linha é alternadamente ignorada e obedecida - um paradoxo que pode ser aplicado a toda a região.

O mercado de Bartaa se espalha através de um vale estreito que é dissecado por um cruzamento. É uma profusão de ruídos e cores, com lojas exibindo vestidos de cores berrantes e brinquedos de plástico pendurados em barracas de rua. Apenas um viajante bem informado saberia que a metade oriental do mercado fica na Cisjordânia e a outra metade ocidental em Israel.

 A Linha Verde está presente, sem marcação, à direita do mercado, uma parede imaginária que separa duas partes de uma aldeia que tem sido habitada por uma família, o clã Kabha.

Quando Israel construiu a barreira de segurança contra a Cisjordânia, tida como essencial para evitar ataques suicidas, o país deslocou a cerca a leste de Bartaa, indo mais profundamente no território da Cisjordânia.

Judeus israelenses e árabes vão em grandes número para Bartaa nos fins de semana para aproveitar os preços mais baixos. Mas desde 1990, quando Israel começou a exigir autorização para a entrada dos palestinos e reforçou medidas de segurança como resultados do terrorismo, o clã Kabhas da Cisjordânia foi proibido de cruzar a estrada para Israel.

Muitos na região da Cisjordânia de Bartaa começaram a buscar uma solução para esse problema casando-se com parentes do lado israelense, o que lhes dá um estatuto diferente. Mas outros, como Abed Kabha, um palestino nascido em Israel em 1967 que dirige uma mercearia no lado da Cisjordânia, têm de pedir autorizações especiais para entrar em Israel. Eles dizem que tendem a ficar em seu próprio lado da aldeia por medo de serem pegos pelas patrulhas da polícia israelense de fronteira, embora as autoridades militares digam que, dentro de Bartaa, eles costumam fazer vista grossa.

Até 12 anos atrás, Kabha trabalhava em jardinagem na área de Tel Aviv. Agora, ele diz que atravessa o mercado unicamente "para casamentos e funerais."

M undos diferentes

Para muitos israelenses, estar perto ou sobre a Linha Verde é uma questão de pouca importância - tanto que alguns nem sempre têm certeza de qual lado estão. Já os palestinos que vivem perto da linha são conscientes de cada centímetro de solo que ela divide.

No final de 1990, quatro idealistas da área de Tel Aviv abordaram os oficiais com a ideia de estabelecer uma nova comunidade no Deserto de Negev, no sul de Israel. Eles foram enviados para uma antiga base militar chamada Sansana. Assim como as florestas que Israel plantou no local, os quartéis abandonados tomaram todo lado israelense da Linha Verde. Mas de acordo com o secretário de Sansana, Eliram Azulai, 34, logo ficou claro que o melhor plano seria expandir a vila para o o lado oeste da Cisjordânia.

Sansana é um caso raro de uma comunidade israelense que fica na Linha Verde. Mas mesmo ali, Israel tem escrupulosamente mantido a distinção administrativa. As 50 casas pré-fabricadas no lado israelense da aldeia foram autorizados por um comitê do distrito sul de Israel. As 60 casas permanentes que foram levantadas no lado da Cisjordânia tiveram que ser aprovadas pelo exército israelense e pelo Ministério da Defesa.

Não muito longe de Sansana, nas pouco povoadas colinas ao sul de Hebron, na Cisjordânia, está Ghuwein, um acampamento palestino não-oficial. Em contraste com os colonos de Sansana, a história de cada pedra, árvore e contorno do terreno estão marcados na consciência da população local.

Mas Ghuwein nunca foi reconhecida pelas autoridades israelenses. Seus moradores não podem obter licenças de construção, e por isso, eles vivem em barracos temporários e em algumas cavernas. Apenas recentemente, a Autoridade Palestina, que agora governa certos aspectos da vida dos palestinos na Cisjordânia, levou eletricidade à aldeia. Crianças a partir dos 5 anos andam a pé aproximadamente 6 km para frequentar a escola mais próxima na aldeia palestina de Samua.

"Nós permaneceremos aqui", disse Ismail Khawla Daghamin, 37, mãe de dez filhos, "porque se formos embora, os judeus irão tomar conta deste pedaço de terra também" .

Refugiados perto de casa

Ao longo da linha estão presentes histórias de ressentimento palestino e nostalgia pelo que foi deixado para trás. Mas nessa complexa área, nada permanece igual por muito tempo.

A aldeia de Walajeh fica nas colinas entre Jerusalém e Belém, do outro lado da Linha Verde, na Cisjordânia, nos limites da cidade de Jerusalém. Seus residentes cruzaram a fronteira para a Jordânia durante os combates em 1948, quando a aldeia original, que hoje é de Israel, foi atacada por forças judaicas.

Até a guerra de 1967, disse Muhammad Abu al-Tin, 60, "as pessoas achavam que ainda poderiam voltar para casa".

Então, quando a realidade da derrota árabe finalmente veio, disse ele, os moradores construíram casas permanentes nas terras da aldeia no lado da Cisjordânia, e se tornaram refugiados com vista para seus antigos lares.

"À noite, as pessoas iam escondidas ver suas antigas casas bombardeadas", ele lembrou. Essas foram posteriormente demolidas por tratores israelenses.

O deslocamento parece ser uma experiência comum entre israelenses e palestinos em ambos os lados da fronteira. No entanto, a Linha Verde continua a ser a linha divisória visível e invisível entre dois povos e o núcleo do tortuoso processo de criação de dois Estados.

Gideon Avidor, 70, um general israelense aposentado, olhou sobre o telhado de um forte em Latrun para a vista estratégica da principal estrada entre Tel Aviv e Jerusalém, que foi o local de uma das mais ferozes batalhas na guerra de 1948. Israel finalmente conquistou o forte em 1967.

Em teoria, segundo ele, com as trocas de terras, o país poderia manter Latrun, entre outros lugares, e a geografia não deveria ser um problema. No entanto, a realidade: em primeiro lugar cada lado teria que "decidir viver lado a lado e não querer expulsar o outro da sua terra - esses seriam os termos mais simples".

* Por Isabel Kershner

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