Para as gerações mais antigas não é só mais um sonho

NOVA YORK ¿ Se essa eleição pareceu durar uma eternidade, tente esperar por tantos anos como Sarah Gordon, que levantou antes do amanhecer na terça-feira, 4, para trabalhar no local de votação na Rua West 102 em Manhattan. Muito da história do país tem as características de sua vida.

The New York Times |

Envergonhada em dizer sua idade exata, Gordon está em sua décima década e veio ao mundo antes que as mulheres pudessem votar. Depois da morte precoce de sua mãe, ela foi criada na parte rural da Carolina do Norte por sua avó Mary Parker, que nasceu em 1862. Ela viveu até os 105 anos e sua mãe era uma escrava chamada Molly Sykes.

Quando menina, Gordon frequentemente se sentava aos pés da saia da Bisavó Sykes, que viveu até os 106 anos, o bastante para contá-la sobre a vida na fazenda de proprietários brancos.

Nesta terça-feira, ela se sentou à mesa do local de votação, ajudando a cuidar da multidão de pessoas que faziam fila para votar no primeiro presidente negro.

Todos eles estavam vindo de manhã, disse Gordon. Isso porque nunca mais veremos isto de novo. As pessoas mais velhas como eu, que sempre quiseram ver isso, mas acharam que não veriam, vieram votar. Eles quiseram fazer parte de algo que nunca achávamos que veríamos.

Gordon se mudou para a Rua 143 em Manhattan em 1938, a tempo de presenciar uma noite de junho em que a alegria jorrou como uma fonte pelas ruas de Harlem ¿ grupos de jovens e velhos, aplaudindo e assoviando, batendo em panelas e frigideiras, assoprando apitos e buzinando. Joe Louis, pugilista negro chamado de Brown Bomber, tinha derrotado Max Schmeling, grande esperança dos nazistas, em uma luta de boxe no Estádio Yankee que não durou mais de dois minutos.

Nada disso se compara com o que ela sentiu ao ver as filas de pessoas nesta terça. Obama trouxe vida aos jovens, deu energia a eles, disse.

Presenciando mudanças

Nesta terça-feira à tarde, Fred Watson, 70, andou de bicicleta pela Avenida Manhattan, em um dia de trabalho como segurança. Watson já trabalhou como barbeiro, taxista, carregador de tijolos e raspador de tintura em um cais no Brooklyn.

Em seus dias de juventude, passou por sua cabeça que o presidente do país poderia ser alguém da população negra?

Ele riu.

Obama nunca teria ganhado no meu tempo, disse Watson. Eu vi tantas mudanças.

Ele disse que não inveja as obrigações que estão sob responsabilidade do próximo presidente. O país tem gastado tanto nessa guerra e perdeu tantas vidas, disse. Olhe para o estado do país. Isso não pode ser resolvido em quatro anos. Levará dois mandatos.

Primeiro prefeito negro

Nascer negro em 1927, como fez o prefeito David N. Dinkins, era nascer com uma expectativa de vida de 48 anos. Longevidade não era para homens negros, disse Dinkins. Não éramos para viver tanto tempo.

Em 1945, aos 18 anos, ele se inscreveu nos Fuzileiros Navais e foi mandando para uma sessão de treinamento só para negros no Camp Lejeune, na Carolina do Norte. Os recrutas brancos foram para a Parris Island, na Carolina do Sul. Eles não tinham oficiais negros, disse Dinkins. Eu me lembro do primeiro. Um dia eles delegaram uma autorização para que ele pudesse marchar no desfile militar. No outro dia eles o dispensaram. Depois de alguns dias, eu estava sentado em um quarto com homens que eram generais negros dos Fuzileiros Navais.

Com dificuldade, Dinkins foi o primeiro prefeito negro de uma cidade grande, era Nova York, assumiu o mandato em 1990 durante um furacão de problemas ¿ crise fiscal, epidemia de AIDS em alta e a guerra entre traficantes de crack que tinha cerca de seis mortes por noite nas ruas.

Qualquer um desses problemas seria conturbado o suficiente para manter um prefeito ocupado por quatro anos. Dinkins foi definido não por seus sucessos ou pelos problemas criados por sua administração, mas pelo contexto histórico. É difícil saber se um homem branco seria forçado a carregar um fardo tão pesado, mas ele tolera isso sem parecer publicamente ressentido. A história tem uma forma de compensar, disse ele. Só agora as pessoas estão percebendo que o crime começou a diminuir na minha administração.

O surgimento de Barack Obama é bom não apenas para as pessoas que escolhem a política e o governo como profissão ¿ é bom para pessoas negras que buscam qualquer tipo de disciplina, disse Dinkins. Não deveríamos ser equivocados em reconhecer isso como racismo. Mas as coisas mudam. Deus existe. E as pessoas podem melhorar¿

Por JIM DWYER

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